ICFUT – Zagallo é internado com infecção na coluna e pode nem assistir à Copa

Fonte: lancenet

Zagallo em foto recenteZagallo em foto recente Foto: Marluci Martins

No dia em que a seleção brasileira se apresentou na concentração da Granja Comary, um dos principais personagens de sua história, Zagallo, foi internado no Hospital Barra D’Or. Com uma bactéria na coluna vertebral, o ex-treinador, de 82 anos, está tomando antibióticos fortes desde segunda-feira. Convidado de honra da Fifa para todos os jogos do Brasil na Copa (com direito a acompanhante e jatinho), o Velho Lobo já não tem sua presença nos estádios confirmada. Um de seus filhos, Mário Zagallo, confirmou ao blog que o caso inspira cuidados.

– Ele não sairá do hospital antes do dia 2. Ele iria a todos os jogos do Brasil, mas agora eu já não sei o que vai acontecer – informou.

Segundo o filho, Zagallo a princípio não corre risco.

– Ele tem que ficar internado porque está tomando antibiótico na veia. A princípio, não corre risco, mas a gente se preocupa – disse.

Zagallo estava sentindo fortes dores na coluna. Um minucioso exame na última segunda-feira detectou a infecção na coluna vertebral. A notícia não chegou ao conhecimento da seleção, na Granja Comary. Nem mesmo o coordenador Carlos Alberto Parreira, seu fiel escudeiro, foi informado.

Por Cleber Aguiar – ENTREVISTA ZAGALLO

Fonte: Folha de São Paulo

Estamos atrasados para a Copa, temos que fixar uma base

LONGE DOS CAMPOS HÁ 5 ANOS, EX-TREINADOR AFIRMA ESTAR ‘OBSERVANDO TUDO’ E QUE FASE DE TESTES NA SELEÇÃO JÁ DEVERIA TER ACABADO

Rafael Andrade/Folhapress

Zagallo, que esteve com a seleção pela última vez em 2006, ementrevista no Rio

LUÍS CURRO
ENVIADO ESPECIAL AO RIO

“Estamos atrasados.”
Mario Jorge Lobo Zagallo, 80, respondeu assim ao questionamento da Folha a respeito da sua expectativa para a Copa do Mundo de 2014.
O maior vencedor da história das Copas (duas vezes como jogador, uma como técnico e uma como auxiliar técnico) ignorou o lado organizacional e partiu para a bola.
Segundo ele, três adversários de primeira linha estão com seus times formados (Espanha, Alemanha e Holanda), enquanto Mano Menezes tem modificado a equipe convocação após convocação.
“Acho que tínhamos que fixar uma base. Toda hora estar mudando não é uma boa.”
Para Zagallo, o fato de Mano ter pela frente, além da Copa, o desafio de conquistar a inédita medalha de ouro olímpica para o Brasil, em Londres-2012, não justifica tantos testes, pois deveria haver prioridade clara. “Temos que olhar para 2014. A Olimpíada não tem a importância de uma Copa do Mundo.”
Na entrevista concedida em um salão social no condomínio em que mora, na Barra da Tijuca, Zagallo também defendeu a escalação de Ronaldinho no ataque (não na armação), teceu elogios a Hernanes, enalteceu Vanderlei Luxemburgo e avisou que, se a seleção precisar, larga a aposentadoria para ajudar.

Folha – Para a Copa-2014, qual a sua expectativa?
Zagallo – Eu estou acompanhando todos os jogos da seleção. Onde a seleção está, eu estou, pela televisão, observando, tendo os meus pontos de vista. E eu acho que nós estamos atrasados para a Copa do Mundo de 2014. Por que eu digo isso? Porque Espanha, Alemanha e Holanda já estão prontas, três candidatos estão prontos. Nós já convocamos 78 jogadores. Acho que nós tínhamos que fixar uma base na seleção. Pinga aqui, pinga acolá, não tem problema, mas a toda hora estar mudando eu acho que não é uma boa. Nós temos que olhar para a Copa de 2014. Quanto mais cedo você definir a seleção, é melhor para a seleção brasileira.

Ainda mais no Brasil…
Ainda mais aqui, que a responsabilidade é muito maior e nós temos que vencer. A palavra é essa: nós temos que vencer! Queiram ou não. Nós já perdemos uma aqui [em 1950, com derrota na final para o Uruguai], da segunda vez vai ter que ganhar.

Já era possível a seleção ter uma base formada?
Tempo nós já tivemos, mesmo que troque ali A por B. Por exemplo, o Marcelo [lateral do Real Madrid].
Para mim, deveria estar jogando desde a última Copa do Mundo. Mas cada cabeça é uma sentença. O Lúcio [zagueiro da Inter de Milão] estará com 37 [anos em 2014]. Vai trazer alguma coisa de útil com 37 anos [na verdade, 36] numa Copa do Mundo? Não. Tem que começar a botar os garotos pra começarem a pegar tarimba. Se vai ganhar ou perder, esse é o grande problema. Com medo de perder, [o técnico] começa a colocar jogadores que não vão participar da Copa. Está perdendo tempo.

Do jeito que está, é possível ter um temor em relação ao que vai acontecer?
É uma questão de modo de pensar. Por exemplo, o problema do Ronaldinho. Ele é um jogador que, no meu entender, só pode jogar na frente. Nesse último jogo [amistoso contra o México], jogou no meio-campo.
Digo e repito: ele não é jogador para jogar no meio-campo porque não tem as condições orgânicas para fazer a função do vaivém. Ele é um jogador de 30 metros, como ele jogou no Barcelona e como joga no Flamengo. Ali na frente, solto. Começou mal e agora está bem, nessa posição. Jogar por jogar no meio de campo é uma coisa. Para fazer a função de homem de meio de campo, precisa gás, não é só técnica e habilidade. Por que nós temos no atletismo atletas que correm 100 m, que correm 200 m? Bota eles para correr 1.500 m, 5.000 m, vamos ver aonde chegam. A lugar nenhum. O [Usain] Bolt, por exemplo. É recordista mundial dos 200 m e dos 100 m.
Manda ele correr 1.500 m para ver aonde vai chegar. Não tem capacidade. Tem poder de força, arranque, mas não é para correr uma maratona.
É a mesma coisa o jogador de futebol. O cara que joga no meio tem que fazer o vaivém, tem que jogar os 100 metros. Por isso que eu falo que o Ronaldinho não é jogador de meio de campo. Nós vamos perder se isso acontecer.

Há atualmente uma opção para fazer essa função de armar o time, com fôlego?
Esse é um problema do Mano Menezes. O Hernanes [da Lazio] é um jogador de meio-campo que joga fácil ali. Eu gosto dele. Ele vai e vem. Mas é a minha cabeça. Não quero dar nomes. Eu torço para o Mano, mas tenho meu ponto de vista. Se ele escuta, aí é um problema dele, ele é que é o técnico [da seleção]. Eu posso estar até errado, mas eu acho que nosso meio de campo não é o ideal ainda.

Quem são os melhores técnicos brasileiros em atividade?
Eu gosto mais do Vanderlei Luxemburgo. Ele se impõe mais. Não foi campeão do mundo, mas tem um currículo muito bom, a postura dele dentro de campo é veemente, sabe o que faz. E tem o Muricy [Ramalho], que não quis a seleção, não sei o porquê, teve o lado particular.

E os jogadores?
O Neymar, um jogador que tem muita coisa ainda para aprender, mas é o melhor jogador. Vou citar também o Marcelo, o lateral esquerdo, mais nenhum. Nós não temos ainda alguém nesta seleção para dizer “é ele”, o Pelé, o Ronaldo Fenômeno. Estamos em formação.

Você gostaria de estar mais engajado na preparação da Copa no Brasil, nessa campanha brasileira?
Nunca me ofereci nem vou me oferecer. Quando eu fui para a seleção, eu fui chamado. Para exercer qualquer cargo, você tem que ser chamado. Ninguém me chamou, então não posso ser nada. Fico de fora, torcendo pela seleção brasileira, vendo todos os jogos, estou a par de tudo. Problema de saúde eu tive em 2005, hoje não tenho problema maior. Se quiserem, sou o Zagallo com a experiência que todo mundo sabe, não preciso falar mais nada.

Seu último time como treinador foi o Flamengo, em 2001. Não sente falta?
Eu tenho todas as condições. Tudo bem, estou com 80 anos. Para exercer a função no dia a dia, eu já não tenho mais vontade, porque a minha vida já foi muito sacrificada. Agora, a única coisa… Eu não quero me expor a nada, mas a responsabilidade de uma seleção é muito grande, e eu não tenho medo de responsabilidade, já foi mais do que demonstrado. Para que eu exerça alguma função dentro do campo, só com a seleção brasileira. Vão dizer: “Ele está se candidatando?”. Não estou. Mas, pela “amarelinha”, eu tenho condições de chegar e trabalhar.

Como treinador?
Como coordenador, funcionando junto com o treinador. Convocação, troca de ideias, o que eu fiz com o [Carlos Alberto] Parreira [para as Copas de 1994 e de 2006].
Eu estou no meu lugar, observando tudo. Eu saí em 2006 e não voltei mais. Mas, se eu tivesse que ficar nessa função, com a experiência que eu tenho, de sete Copas do Mundo, quatro vezes campeão do mundo, eu já estaria dentro desse barco que está rumando para a Copa de 2014.

ICFUT – Pelé, Garrincha e Zagallo entram para Hall da Fama no México

Fonte: globo.com

Comitê formado por jornalistas escolhe 30 ex-jogadores. Maradona, Di Stéfano, Beckenbauer, Platini e Zidane são alguns dos estrangeiros

Pelé, Garrincha e Zagallo foram incluídos nesta terça-feira entre os primeiros 30 imortais do Hall da Fama do futebol na cidade mexicana de Pachuca, anunciou o diretor da entidade, Antonio Moreno.

Um comitê formado por jornalistas de vários países da América votou nesta terça-feira pela inclusão de 30 nomes, 15 do futebol mexicano e 15 do mundo, ao Hall da Fama e Museu do Futebol, inaugurado em 9 de julho passado pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter.

montagem Garrincha Pelé Zagallo (Foto: Editoria de Arte / GLOBOESPORTE.COM)Garrincha, Pelé e Zagallo: craques brasileiros estão em Hall da Fama mexicano (Foto: Editoria de Arte / GLOBOESPORTE.COM)

A cerimônia de posse dos escolhidos será realizada no dia 8 de novembro na sede da entidade em Pachuca, ressaltou Moreno.

Brasil e Alemanha são os países com mais atletas, com três cada um. Também há representantes da Argentina, Inglaterra, Rússia, Hungria, Portugal, Holanda e França.

O local de homenagens incluirá também os argentinos Diego Maradona e Alfredo Di Stéfano, os alemães Lothar Matthaus, Franz Beckenbauer e Gerd Müller e os franceses Michel Platini e Zinedine Zidane.

O húngaro Ferenc Puskás, o português Eusébio, o holandês Johan Cruyff, o inglês Bobby Charlton e o goleiro russo Lev Yashin completam a lista de ex-jogadores estrangeiros.

Entre os nomes que fizeram carreira no futebol mexicano, o Comitê homenageou também o brasileiro Evanivaldo Castro, o Cabinho, que se destacou em times como Pumas, Atlante, León e Tigres.

Para entrar para o Hall da Fama mexicano, o primeiro requisito é ter cinco anos de aposentadoria completos, embora os treinadores ainda possam estar em atividade.

Por Cleber Aguiar – Entrevista com Zagallo !

Fonte: O Estado de São Paulo

”O futebol chegou ao limite técnico. É só correria”

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O testemunho do Velho Lobo sobre sete décadas de dramas e conquistas do esporte mais popular do Brasil e do mundo

Fernando Paulino Neto e Sílvio Barsetti – O Estado de S.Paulo

Quando o alagoano Mário Jorge Lobo Zagallo começou a jogar futebol, no final da década de 40, no infantil do América do Rio, a bola avermelhada era pintada de branco para os treinamentos noturnos. Agora, ao comemorar 80 anos, na terça-feira, 9 de agosto, o único tetracampeão mundial da História (duas vezes como jogador, uma como treinador e outra como coordenador) vaticina o fim da evolução técnica no futebol. “Os espaços estão muito congestionados, como o trânsito de São Paulo. O futebol mundial chegou ao limite técnico. É uma correria só.”

Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE
Observador. Zagallo acompanha de perto o futebol

Testemunha ocular do Maracanazo de 1950 – servia o Exército e trabalhou no estádio durante a partida -, Zagallo jamais imaginou que oito anos depois estaria defendendo o Brasil em seu primeiro título na Suécia. Além de ter sido autor de um dos gols da final (5 a 2 sobre a Suécia), foi responsável por introduzir no País o sistema de jogo 4-3-3, substituindo o tradicional 4-2-4. Hoje, um atacante ajudar na marcação é corriqueiro. No Brasil, foi o primeiro a fazê-lo.

Em 2006, participou pela última vez da seleção brasileira, como auxiliar-técnico, repetindo a dobradinha campeã de 1994. Ele lamenta não ter colaborado com o treinador Carlos Alberto Parreira como gostaria. Um ano antes, havia passado por seriíssima cirurgia e, na concentração, ia de madrugada ao quarto dos médicos da delegação pedir remédios para depressão.

Primeiro jogador do futebol brasileiro a ganhar passe livre e atleta de poucas camisas – atuou pelo América, Botafogo e Flamengo -, Zagallo passa em revista uma longa e vitoriosa carreira. Fala de craques que conviveu em diversas épocas e só não perdoa Romário. “Foi um grande jogador. E ponto.”

Antes de marcar sua carreira como jogador do Flamengo e do Botafogo e da seleção brasileira, o senhor passou pelo América. Sempre falou muito bem dos três clubes. Mas, afinal, qual o seu o time de coração?

O Flamengo e o Botafogo me projetaram para o futebol. Tenho um carinho especial por tudo que os dois clubes fizeram por mim. Mas comecei no América em 1947, ainda no infantil. Nasci em Maceió e minha família se mudou para o Rio em 1932. Morávamos na Tijuca, bem perto da sede do América. Meu pai foi conselheiro e benemérito do clube. Eu vivia lá, onde disputei competições de tênis de mesa e natação. Então não tem como ser diferente. Torço pelo América. Assim fico bem com todo mundo.

Como era o futebol naquela época?

Muito amador. A gente jogava com uma bola meio avermelhada, pesada demais. Ela descascava e tinha de ser pintada para ser reaproveitada, principalmente nos treinos da noite.

Na final da Copa de 1950, o senhor viu a derrota do Brasil para o Uruguai. Quais as suas recordações daquela tarde?

Eu prestava serviço militar no Exército. Meses antes da Copa, fui ao Maracanã com meu pelotão retirar madeira da arquibancada. No dia do jogo, estava lá de verde-oliva, cassetete, capacete, “bate-bute”. Na arquibancada, eu deveria ficar de costas para o campo, mas vi perfeitamente o gol fatal do Ghiggia (o Uruguai venceu por 2 a 1). Aquele delírio, com 200 mil pessoas acenando lenços, acabou tudo ali.

Depois de assistir à final de 1950 na arquibancada, em 1958 o senhor foi um dos protagonistas…

Jamais poderia imaginar que oito anos depois eu estaria vestindo a amarelinha para ser campeão do mundo pela primeira vez. O Vicente Feola (técnico da equipe) introduziu uma mudança tática no futebol brasileiro, transformando o 4-2-4 num 4-3-3. Eu era a terceira opção na época, atrás de Canhoteiro e Pepe, para ocupar a posição de ponta-esquerda mais recuado. Na minha estreia pela seleção, no Maracanã, contra o Paraguai (em 4 de maio de 1958), ganhamos de 5 a 1, e eu fiz dois gols. Mas em outro amistoso com a Bulgária, no Pacaembu, eu olhei a escalação e não vi o meu nome. Fiquei preocupado, estávamos às vésperas da Copa do Mundo na Suécia. Então o médico Hilton Gosling me chamou num canto e disse: “Fica quieto, você já está escolhido. Agora o Pepe e o Canhoteiro vão disputar uma vaga.”

O senhor viu em 1958 o nascimento de um craque, Pelé. Todos agora se espantam com Neymar. Mesmo com estilos diferentes, há termo de comparação entre os dois?

Eu já conhecia o Pelé, mas só o tinha visto jogar rapidamente uma vez no Maracanã pelo Torneio Rio-São Paulo. O Neymar é o Neymar. O Pelé foi e sempre será o melhor jogador do mundo. Não vai ter outro igual. Falam de Messi, Neymar, Maradona. Mas a distância desses para Pelé é brutal. Um jogador completo, que jogava muito bem com a perna esquerda e com a direita. Ele fez gol de tudo que é maneira, o único a fazer mais de1.200.

Nas Copas de 1958 e 1962 havia outro gênio na seleção. Como foi a experiência de jogar ao lado de Garrincha?

O meu técnico no Flamengo, Fleitas Solich, apitava falta toda vez que eu driblava. Só permitia o drible quando não havia alternativa. Na seleção, em 1955, o técnico era o Zezé Moreira. Ele colocava uma cadeira no campo, no lado direito do ataque, e mandava que o Garrincha cruzasse a bola quando chegasse naquele ponto. Evidentemente que o Garrincha não respeitava nada. Ele driblava a cadeira, voltava, repetia o drible e só depois cruzava. Eu queria ver o Fleitas ir lá em General Severiano (sede do Botafogo) para dizer ao Garrincha que marcaria falta a cada drible dele. Quem viu, viu, quem não viu, vai ficar na saudade. Era fantástico.

Por que a escassez do drible hoje no futebol mundial?

O futebol está mudado. Futebol é um trânsito congestionado. Bota o trânsito de São Paulo no meio de campo e você imagina o que é o futebol atual. Dificilmente há jogos de beleza para se ver. É um tal de não deixar jogar.

Quando isso começou?

Em 1966, na Inglaterra. Já em 1970, no México, a altitude impediu um pouco isso e a própria técnica sobrepujava a condição física. A gente tinha mais valores técnicos que brucutus.

Houve algum time superior ou equivalente ao do tricampeão mundial em 1970?

Nós tivemos um time praticamente idêntico, o de 1958, com Garrincha e Pelé. Mas não havia TV para mostrar. Em 1970 se deu o estouro. O Brasil jogou uma enormidade no México e a TV exibiu tudo para o mundo inteiro. Em 1958, só quem estava em Estocolmo viu aquela maravilha.

Em 1970, cinco anos depois de deixar os gramados, o senhor dirigiu a seleção do tri. Houve uma mudança de esquema tático para escalar um grande número de jogadores extraordinários?

Seria inadmissível que eu, então como técnico, não fizesse como Feola em 1958, que abriu mão do 4-2-4 para efetivar o 4-3-3. Minha ideia era usar o 4-3-3 com o Paulo Cesar Caju na ponta esquerda. As coisas se modificaram. Passei o Piazza para a zaga, e botei no time titular o Rivellino e o Clodoaldo, reservas de João Saldanha. Como o Paulo não vinha bem, conversei com o Rivellino e o escalei na ponta-esquerda, com a ordem de ajudar na marcação.

O senhor não queria escalar Pelé e Tostão juntos…

A principio, o Tostão seria reserva do Pelé. Convoquei o Roberto Miranda e o Dario, pois a ideia inicial era jogar com o Roberto na frente. Depois, mudei. Escalei o Tostão de centroavante e eu mesmo achei que essa mudança não daria certo. Mas a inteligência do Tostão se sobressaía. Só teve ali um momento de dúvida. Ele tinha um problema na vista e precisava evitar o choque. Por isso, eu questionei o oftalmologista que o atendeu: “Escuta, se o Rivellino der um chute forte e o Tostão ficar na frente, pode correr algum risco?” E ele me respondeu: “Não, ele andou até na montanha russa!” Mas eu não perguntei nada disso. Eu queria saber do impacto da bola na cabeça dele. A resposta me deixou mais confuso ainda.

Incomoda aquela associação de que o presidente Medici interferiu na saída de João Saldanha e na convocação de Dario?

Quem provocou essa onda toda foi o próprio Saldanha, como jornalista. Ele fez uma coluna na qual dizia que o Médici era um fã do Dario e que o jogador seria convocado por mim. Você acha que um presidente da República ia falar com um técnico de futebol para convocar esse ou aquele jogador? Você acha que o Dario não seria o titular da seleção brasileira se o Médici viesse falar comigo? Pois bem. Ele não foi titular nem quando houve necessidade de um substituto para o Tostão, por questões médicas. Foi o Roberto Miranda quem entrou. A resposta está dada. A verdade está clara. Quiseram falar que naquele momento eu peguei um time pronto, coisa e tal. Mentira! Mudei tudo. Se não fosse daquele modo, nós perderíamos a Copa do Mundo.

Sempre se diz que o senhor mostrou desdém em relação à Holanda no Mundial de 1974 na Alemanha. É verdade?

Perfeitamente, foi intencional. Eu era o técnico da seleção brasileira, tínhamos perdido a base de 1970, e fomos enfrentar a coqueluche do futebol mundial daquela Copa: a Holanda (o Brasil perdeu por 2 a 0 e teve que se contentar com a disputa do terceiro lugar, quando perdeu para a Polônia por 1 a 0). O que eu ia fazer? Enaltecer o adversário? Não, eu queria diminuí-lo.

O Brasil ficou 24 anos sem um título mundial. Em 1994, o senhor estava de volta lá, como coordenador técnico. Seu trabalho era passar sua experiência para o Carlos Alberto Parreira?

A CBF apostou na mesma comissão técnica de 1970. O Parreira seria o técnico. Ele foi sempre meu assistente, acreditava em tudo o que eu falava. Eu estava ali como um técnico também, mas a palavra final era dele. Nos dávamos muito bem. Mas havia uma campanha muito grande contra nós. Diziam que não estávamos jogando o verdadeiro futebol brasileiro. Nosso time era aplicado, sabia o que fazer em campo. Tínhamos um time e mostramos que estávamos certos.

Qual o peso do Romário na conquista?

Importante, era o jogador de área. Nós demos um castigo nele na fase de classificação, depois que ele não aceitou a decisão do Parreira de ter escalado Bebeto e Careca num treino em Porto Alegre. O Parreira veio falar comigo: “Olha, o Baixinho já fez m.” Então eu disse: “Deixa ele comigo”. Cheguei no hotel, chamei o Romário no quarto e o Parreira também e disse: “Aqui a ordem vem de cima para baixo. Quem determina a escalação do time é a comissão técnica. Não é você.” Tomei a atitude porque numa fração de segundos a gente poderia perder a liderança. Se a gente cede, o que ia acontecer? Ele ia lá na frente dos outros, conheço a criatura, e ia dizer: “Olha lá, peitei e vou jogar.” Só voltamos com o Romário no último jogo das Eliminatórias, contra o Uruguai, no Maracanã, quando ele fez dois gols.

Mas ele foi importante ou fundamental na conquista de 1994?

Fundamental, está bem, como você quiser. Mas não se pode esquecer o papel do Bebeto, que era quem dava as bolas para ele fazer os gols.

Sua relação com Romário é delicada…

Teve aquele Brasil x Peru (em 1997, semifinal da Copa América). A seleção ganhava por 5 a 0, e eu fiz a última substituição. Chamei o Edmundo. Eles não se davam bem. Na primeira bola em profundidade, o Romário saiu mancando, com a mão na virilha. Ficamos com 10 em campo. O jogo seguinte era em La Paz. Antes da preleção, eu chamei o Lídio Toledo (médico da equipe), e reuni a comissão técnica no meu quarto: “Você vai lá e pergunta ao Romário se ele está em condições ou não.” Aí o Lídio respondeu: “Ele disse que ainda vai fazer um teste dentro de campo.” Decidi na mesma hora: “Então ele não vai jogar e nem vai ficar no banco.” Tive peito, porque não é fácil tirar o Romário de uma final. Eu fiz isso porque eu não gosto de safadeza. E eu sempre o convoquei em todas as situações. Tenho com ele uma relação delicada. Ganhei processo contra o Romário pelas caricaturas no Café do Gol (no fim do Mundial de 1998, mandou pintar na porta de banheiros de seu bar imagens de Zico e Zagallo num vaso sanitário). Não cabe mais recurso. São R$ 800 mil.

Quem é o Romário para o senhor?

Ele foi um grande jogador. Ponto. Nada além disso. Não posso falar mais nada sobre ele.

O senhor escalaria de novo o Ronaldo ( teve uma convulsão horas antes da decisão com a França) se pudesse voltar à final da Copa do Mundo de 1998?

Sem dúvida. Ele foi para uma clínica francesa. Fez todos os exames, não deu absolutamente nada. No vestiário (do Stade de France), o Ronaldo chegou já com meia, chuteira, calção e disse: “Eu quero jogar”. “Mas você não passou mal?” “Zagallo, eu não tenho nada. Tive um problema seis, sete horas atrás, o exame não acusou nada, estou me sentindo bem, não faça isso comigo, eu não sou criança, não me tire dessa.” O cara foi tão veemente, disse isso ao lado do Lídio e do Joaquim da Matta (outro médico da delegação) e ninguém falou nada. Tomei a atitude que caberia.

Existiu pressão de patrocinador?

Isso não existe, pô. Isso é balela, pô. Não tem nada a ver.

Antes da Copa de 1998, o senhor teve dois momentos importantes pela seleção. A perda da medalha de ouro nos Jogos de Atlanta, em 1996, e a vitória da Copa América, em 1997. Qual dos dois foi mais marcante?

Foi triste deixar escapar a medalha inédita na Olimpíada depois de estar vencendo por 3 a 1 (contra Nigéria) e o jogo acabar 4 a 3. Ficou um nó na garganta até hoje. Ficamos só com o bronze. Duro, muito duro mesmo. Já em 1997, a seleção estava sob muita pressão (na Copa América) e as críticas eram diárias. Foi quando eu disse a frase: “Vocês vão ter que me engolir!” Já ouvi isso até em casamento em que fui como convidado e acabei mais fotografado que a noiva. Foi um recado para quem só falava mal.

Um tumor benigno no abdômen levou o senhor a uma cirurgia grave em 2005. A recuperação foi lenta. Por causa disso não conseguiu auxiliar Parreira como imaginava no Mundial de 2006?

Exatamente isso. Eu saía de madrugada do meu quarto, lá na Alemanha, para procurar os médicos, para tomar injeção, remédios. Fiz uma operação que durou sete horas, retirei a vesícula, parte do estômago e do intestino e com reconstrução do pâncreas. Eu estava e não estava com a seleção. Estava perdidão.

O Maracanã passa por reformas e, segundo especialistas, vai ficar desfigurado. Como vê isso?

Do jeito que ficar, o Maracanã jamais vai ser esquecido. Agora, vem com outra tecnologia, vão aproveitá-lo de uma maneira diferente, mas nunca deixará de ser o Maracanã, com todo o seu glamour. Claro que a gente tem um impacto, de ver tudo quebrado. Mas foi assim que eu o vi pela primeira vez em 1949.

A Fifa sinalizou que os árbitros talvez possam recorrer a recursos eletrônicos na Copa de 2014 para tirar dúvidas durante o jogo. O senhor aprovaria essa medida?

Sou a favor desde que não se deturpe o que é certo e deixe o errado prevalecer. O exemplo mais claro da importância disso foi o episódio que levou a França a se classificar para o Mundial de 2010. Aquele lance em que o Henry pega a bola com a mão, ajeita e a França faz o gol da classificação é emblemático. A classificada tinha de ser a Irlanda. Se já tivesse a tecnologia ali, mudava tudo.

Qual o futuro do futebol, nas próximas décadas?

Não há uma maneira de evoluir mais. Todo mundo correndo onde está a bola, não querendo deixar o outro jogar. O futebol mundial chegou ao limite técnico. É uma correria só. Você diminui as condições para que se tenha grandes jogos. Os espaços estão muito congestionados, como o trânsito de São Paulo.