Por Cleber Aguiar – Entrevista com São Marcos do Verdão.

Fonte: Folha Online

Marcos diz ter feito poucos amigos no futebol;

LUCAS REIS
DE SÃO PAULO

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Veja video ICFUT em homenagem a São Marcos.

Chegar até Marcos é difícil; entrevistá-lo é como bater um papo com um amigo de infância.

No fim de novembro, o pentacampeão do mundo atendeu a Folha no CT do Palmeiras. Despediu-se de dois engravatados que conversavam animadamente com ele. Sentou-se em uma sala e, imediatamente, pediu café a seu assessor — seu gosto pela bebida já lhe rendeu até polêmica, quando entornou um gole durante uma partida.

Cinco dias após a entrevista o Palmeiras enfrentaria o Corinthians na última rodada do Brasileiro. Àquela altura, especulava-se que ele poderia jogar -possibilidade prontamente vetada pelo próprio Marcos quando deu seu primeiro gole no café. “Não, não, sem chance”, disse. Em seguida, foi questionado se pararia de jogar. Detalhou seus planos, mas fez um pedido: “Segura essa informação. Quero sair de férias primeiro, conversar com a minha família, esperar passar um pouco essa fase do Palmeiras. Quando eu voltar de férias eu anuncio oficialmente que vou parar”, disse à reportagem.

Eduardo Anizelli/Folhapress
Marcos posa para foto ao lado de estátuas com sua marca registrada; clique na foto e veja galeria
Marcos posa para foto ao lado de estátuas com sua marca registrada; clique na foto e veja galeria

Durante 40 minutos, o herói palmeirense falou sobre tudo: o perfil dos jogadores brasileiros, dinheiro e empresários; as dificuldades do Palmeiras, sua relação com a imprensa, a escolha de Scolari na Copa de 2002 e até sua relação com o Corinthians, que em 2005 tentou contratá-lo. “O Corinthians é o time da moda. É legal falar que é corintiano hoje. Antigamente era ruim falar isso.”

No fim da entrevista, com o gravador e câmera desligados, posou pacientemente para as fotos: bem humorado, fez caras e bocas, sempre atendendo aos pedidos do fotógrafo.

Durante mais 15 minutos conversou com a reportagem e relatou, entre outras coisas, que não fez muitos amigos no futebol e o que o Palmeiras precisa fazer para melhorar.

Leia abaixo a entrevista completa com o goleiro.

Folha – Você vai parar de jogar em 2012?
Marcos – Vou parar. Ainda não anunciei pois quero esperar passar o ano, sair de férias em dezembro, conversar com a minha família, mas não aguento mais as dores. Minha ideia é voltar, conversar com a diretoria, fazer um último jogo de despedida e encerrar minha carreira.

E depois, quais seus planos?
Eu estou muito preocupado com isso, pra te falar a verdade. Ontem a gente estava de folga e eu vim aqui! Pensei: “vou lá no Palmeiras conversa lá com o pessoal”. Então eu vim aqui. Poxa, faz 20 anos que eu venho aqui, todo dia. Tenho essa preocupação. Você sabe que quando fica muito tempo dentro de casa o casamento vai pro saco. Mulher não te aguenta e você não aguenta a mulher falando na sua orelha o dia inteiro. Não sei se vou realmente trabalhar aqui no Palmeiras. Só quero trabalhar aqui se tiver uma função que eu consiga fazer bem feita. Não quero ficar fazendo número.

E você se imagina fazendo o quê no clube?

Eu fico pensando um monte de coisa, o Palmeiras tem muita coisa pra fazer. Procurar talentos, revelar jogadores. Mas não estou pedindo emprego aqui, não. Se me chamarem e disserem que não querem que eu trabalhe aqui, tranquilo, tudo bem. Palmeiras é aquilo lá, a gente acerta, e fico tudo bem. Mas vou dar uma aproveitada boa, pelo menos uns dois meses, dar uma viajada com a minha família. Depois sair procurando alguma coisa pra fazer.

Talvez cartola?

Não. É difícil. Minha imagem, graças a Deus, sempre foi muito boa no futebol, sou um cara honesto. Não que os cartolas sejam desonestos. Mas por tudo isso que acontece no futebol, some dinheiro daqui, some dinheiro aqui, você no meio da cartolagem pode manchar um pouco sua imagem. Quero fazer alguma coisa que eu tenha responsabilidade, que tenha que arcar com as minhas responsabilidades. Com o [César] Sampaio, seu [Roberto] Frizzo [vice de futebol], pode até ser legal, pode ser que eu aprenda alguma coisa nesse sentido. Na parte administrativa eu não tenho estudo, né? A gente vive cobrando profissionalização no futebol e como eu vou administrar o Palmeiras com segundo colegial?

E suas dores?

Desde 2000 eu jogo com dor em algum lugar. Eu me sinto, pra te falar a verdade, um cara abençoado, porque sempre joguei com alguma limitação. Não fui um goleiro que tive sucesso na vida com nenhum problema. Eu superei meus problemas, e jogava, e sempre gostei de jogar, e tomava um monte de remédio pra jogar, anti-inflamatório, antibiótico. Talvez o dia que eu estiver velho isso vai me prejudicar de alguma forma. Mas enquanto podia fazer isso pra jogar, eu fazia. Gosto de estar no campo, apesar as dificuldades, me faz bem. Mas eu pensei: vou jogar por orgulho, vaidade, tenho que ser o titular porque tenho nome e história? Às vezes você quer ajudar tanto e acaba atrapalhando. Então, como ajudar? Deixando quem está melhor no momento jogar. Falei pro [Carlos] Pracidelli [treinador de goleiros] e saí. Dei uma diminuída na carga de remédio, porque tomar remédio todo dia é complicado. Começou a dar dor de estômago. Eu tomava remédio pra jogar que me arrebentava o estômago. Aí eu tomava remédio pro estômago que me dava dor de barriga. Então eu tomava remédio pra dor de barriga… Falei, pô, preciso dar uma segurada. O Deola, quando joga, ele pega uma bola como se eu tivesse pegando. Vi ele chegando aqui, não caiu de para quedas, batalhou muito.

E como é sua vida hoje?

Gosto de jogar bola mesmo, nem tanto pelo financeiro. Porque eu gosto de estar dentro do campo, apesar as dificuldades ainda me faz bem. É pelo prazer de vir aqui, encontrar os amigos, pegar umas bolinhas no treino. Me dá prazer até hoje, mesmo sem poder jogar.

Qual o tamanho da responsabilidade de ser o maior ídolo da história recente do Palmeiras?

Eu nunca dei muita conta disso, não. Sempre entrei no campo pra tentar fazer minha parte da melhor forma. Esse negócio de ídolo, essas coisas, eu não ligo. A gente vivendo no futebol não imagina o quanto a nossa imagem é importante, e o tanto que é importante pra alguém. Sempre entrei tranquilo, tentei defender as cores do Palmeiras da melhor forma sem me preocupar com isso de fazer mais que os outros. Dentro do campo nunca veio essa responsabilidade, sempre estive muito tranquilo.

Mas tem consciência do que representa à torcida?

Mais ou menos. A torcida do Palmeiras tem muita gente… 70% ou 80% me adoram. Tem uma parte de 20% ou 30% que não gosta muito. O pessoal é meio bipolar.

Tem uma parcela da torcida que não gosta de você?
Tem. Por que eu já tive contato com muita gente nestes 20 anos. Pessoas na rua, torcedores do Palmeiras. Eu, graças a Deus, com o pessoal das organizadas, Mancha [Alviverde], Savóia, TUP, sempre tive muito respeito deles. Mas tem grande parte da torcida que não gosta muito. É o pessoal que vê só o lado ruim de todo mundo. É aquela coisa: o Evair batia bem pênalti, mas sempre tem aqueles que reclamam que batia mal falta, escanteio. Para mim é tranquilo, sempre joguei para agradar aqueles que gostavam de mim, sem me preocupar com aqueles que não gostavam.

A que você atribui sua popularidade entre torcedores rivais?

Eu acho que talvez a simplicidade, né? No Brasil a gente vive num país onde muitos que estão por cima sobem à cabeça. Eu, não. Sempre procurei, com sucesso ou sem sucesso, me manter na mesma postura. De um tempo pra cá dei uma diminuída em muitas coisas porque a fama, dependendo do momento, acaba atrapalhando. Como eu sou muito vinculado ao Palmeiras, normalmente quando o Palmeiras estava em crise ou com problema o pessoal me cobrava na rua. Mas sempre respeitei muito os adversário. Quando a gente perdeu nunca coloquei responsabilidade no adversário, sempre achei que a culpa era nossa por ter perdido. E talvez pelas entrevistas, muitas vezes polêmicas, mas sempre sinceras. Que era o que eu gostaria de ver, hoje é difícil você ver um jogador dar uma entrevista melhor na televisão e você acompanhar a entrevista por um bom tempo. A maioria são frases decoradas e o conteúdo é muito pouco. Talvez por isso pessoal tenha gostado do tempo em que eu dei entrevista e joguei.

Qual a principal mudança do jogador brasileiro do início dos anos 90 e hoje?

Antigamente você jogava um ano pra ser empregado ano que vem de novo. Hoje em dia, os jogadores começam muito novos, o pessoal faz contrato longo. E dependendo da cabeça do jogador, dependendo da base familiar, acaba acomodando um pouco. Alguns acreditam que são estrelas e esquecem que [só] são estrelas quem joga bem futebol. E quando o futebol não aparece legal, a estrela cai. Então acho que isso mudou bastante. Antigamente você jogava 1999 pra fazer um bom trabalho e, quem sabe, em 2000 estar empregado de novo. E o jogador naquela época minha, a maioria dos jogadores tinha experiência com trabalho normal. Eu trabalhei em usina, serraria, numa fábrica de móveis, fui servente de pedreiro. E quando cheguei pra jogar futebol dei muito valor. Além de ser uma coisa que eu gostava, era muito melhor do que trabalhar. É uma coisa prazerosa e melhor que trabalhar de servente de pedreiro, você acorda 7h da manhã e volta 5h da tarde todo dolorido pra casa. Sempre dei muito valor, porque futebol é um carreira que, apesar de ser difícil, não ter tempo pra nada, perde sua adolescência, infância, pois você não pode sair, não pode fazer isso, não pode comer, mas é uma profissão que remunera muito bem. E os jogadores de hoje não dão tanto esse valor porque nunca trabalharam, não sabem a dificuldade que é ter um trabalho e como é difícil ganhar dinheiro. E quando vê que perdeu a chance, fica arrependido. Tem gente que consegue dar a volta por cima, mas tem muita gente que fica pelo meio do caminho porque não deu o valor que precisava.

Teme que surja uma geração de jogadores aposentados passando dificuldades?

Eu acho que hoje é difícil porque o faturamento do jogador hoje é muito grande. Jogador ganha muito dinheiro. Claro que gasta muito, mas hoje me dia qualquer jogador ganha R$ 60 mil, R$ 70 mil reais e sem currículo nenhum praticamente. O cara tem que fazer muita burrice pra fazer isso. Mas ninguém está livre disso. Hoje nosso país está estável, você pode deixar o dinheiro no banco, mas tem muita gente que ganhou dinheiro, colocou no banco e teve aquele plano Collor que limpou a poupança de todo mundo. Muita gente perdeu, mas muita gente não ganhou dinheiro em certa époica, pois não era tão bem remunerado quanto é hoje. A tendência é que os salários dos jogadores aumentem mais. Não sei se os clubes terão condições de segurar os salários assim por muito tempo.

Você encara as falhas com humor. É uma arma sua?

É da boca para fora. Por dentro estou me remoendo de ódio. Todo mundo falha, ninguém é perfeito. Eu reconhecer a falha é normal, é legal, é bom. Errei? Errei. Desculpa, fui eu que errei. Pra mim é mais fácil reconhecer: a burrada foi minha, eu que saí mal do gol, eu que tomei o gol no meio das pernas. Vou culpar os outros por uma falha minha? O pior não é quando você falha, mas quando os outros falham e te culpam pela falha. Eu sou um cara que, quando eu acho que a pessoa erra tem que reconhecer a falha. Se o zagueiro errou, tem que chegar na imprensa e assumir o erro. A trairagem maior é quando você erra e deixa a bomba estourar pra outro. Então quando a falha foi minha, sempre reconheci.

Já foi advertido pelo Palmeiras por falar demais?

Várias vezes. Mas é do perfil. Não adianta querer mudar o seu jeito. Eu não sou nada político. Toda vez que eu dei alguma declaração na imprensa, alguma coisa bombástica, criei alguma polêmica, pode ter certeza que já fazia 15 dias que eu estava falando no vestiário, nos treinos, na concentração. Jogador não tá nem aí, não está nem esquentando. O dia que o cara erra você vai lá e fala. Se é pela imprensa que ele quer ouvir, então que ouça pela imprensa. Já fui cobrado por treinadores, já pedi muitas vezes desculpa, mas muitas vezes não pedi desculpas porque achei que não estava errado. Não sou um cara difícil de se lidar. Mas tenho um ponto de vista que, quando eu acho que estou certo, me nego a pedir desculpas.

Tem algum exemplo?

Um dia a gente jogou contra o Flamengo e a semana inteira a gente vinha falando: “O Petkovic bate o escanteio aqui, você tem que entrar alí pois o [Ronaldo] Angelim vai entrar na sua frente e desviar”. Uma semana falando e treinando, porque era um jogo importante. Chegou no jogo, o Petkovic bateu escanteio, Angelin entrou, desviou no primeiro pau, eu tentei defender, a bola pegou na minha cara e entrou pra dentro. Na saída do vestiário me culparam. Aí eu disse: “Pergunta pro ‘tal’ e pro ‘tal’ de quem é foi a culpa”. Tem que sobrar pra mim? No vestiário, o pessoal reclamou que eu falei pra imprensa. “- Eu falo, pois vocês que erraram, por que deixaram sobrar pra mim?”. Sempre fui uma pessoa transparente, bem reta no que queria falar e fazer. No futebol a gente não está pra fazer amigo, mas sim pra trabalhar. Aqui é um trabalho. Se a gente puder ser amigo, melhor. Mas se tiver que ser inimigo para ganhar não tem problema nenhum.

Fez muitos amigos no futebol?

Amigo, não. Colega fiz muitos. Pessoas que eu gosto, todo mundo que eu joguei eu gosto. Mas o maior amigo que eu fiz no futebol foi o Sérgio, goleiro. Que me ajudou muito no começo da carreira. Os goleiros em geral que passaram por aqui, o Veloso, os de hoje, Deola, Fábio, Rafael, a gente sai juntos, janta junto, sai pra tomar um chope juntos. A maioria dos amigos que que fiz na carreira foram os goleiros. E a gente não tinha que ser amigo por disputar a posição, mas sempre se tratou muito bem. Jogador de linha também. Mas, inimizade, acho que não fiz nenhuma no futebol, não. Sempre que eu cobrei alguém foi coisa de dentro do campo. O que é dentro do campo é dentro do campo e acabou.

O palmeirense historicamente diz que o clube é perseguido pela imprensa. Você concorda?

Talvez porque tem muita gente que trabalha na televisão que é corintiano declarado, são-paulino. Às vezes deixa o amor falar mais alto que o profissionalismo, que o jornalismo. Do meu ponto de vista hoje em dia o Corinthians é o time da moda. Se você pergunta pra alguém que não tem time, o cara fala que é corintiano. É legal falar que é corintiano hoje. Antigamente era ruim falar isso, hoje é legal. Mas eu acho que o que pega é isso. Mas acho que é normal. A imprensa, toda vez que a gente jogou bem, deu moral pro Palmeiras. A gente não tem ganhado muita coisa ultimamente, então fica difícil arrumar desculpa todo mundo. Acho que não, o Palmeiras não é perseguido, não. É que antigamente se escondia muito o time quem trabalhava na TV. Hoje como todo mundo é declarado, você vê que tem bastante corintiano. Corintiano defende muito o Corinthians. E os palmeirenses que falam na imprensa não defendem muito o Palmeiras, e ainda criticam. Mas isso é normal. Quando você perde tem que ser cobrado mesmo.

E a sua relação com a imprensa?

Já foi boa, já foi ruim. Mas sempre tratei todo mundo com respeito e sempre fui tratado com respeito. Nunca dei uma resposta atravessada com jornalista, mesmo sabendo que estava fazendo alguma coisa que no outro dia ia dar bomba, causar problema. A imprensa faz o trabalho dela e eu faço o meu com respeito. Nunca falei palavrão na hora de sair, mesmo revoltado, chateado. Sempre foi boa, sempre me tratou com muito carinho. Na seleção eu sofri um pouco mais, pois sempre tem a imprensa bairrista, que quer que aquele goleiro daquele Estado seja o titualar da seleção. O que está jogando nunca é o bom, o reserva é sempre o melhor, né? Quando eu fui pra Copa do Mundo pensei nisso. Ligava pra minha mãe, pra minha mulher e dizia que não queria nem saber o que o pessoal estava falando aí, se não ia atrapalhar no psicológico. Porque seleção é uma cobrança e uma responsabilidade muito grande. Então praticamente eu fiquei uma Copa do Mundo inteira sem saber o que estavam falando de mim, se estavam falando bem, falando mal. Sabia que tinha muita gente me criticando e procurava não ouvir pra não me abalar. No final de tudo você é um ser humano. Você tem que usar as críticas para as coisa boas. Se tem muita gente te criticando é sinal que você está errado e tem que melhorar. Mas tem muita gente que faz por maldade. A gente sabe de muita gente que ganha dinheiro pra falar mal, porque tem outros interessantes. Hoje tem muita gente envolvida com jogador porque jogador tem muito dinheiro. O cara às vezes fala muito bem daquele cara, pra que aquele cara ir pra seleção, ser vendido e ter alguma coisa pra ganhar. Como eu não tenho rabo preso com ninguém, sofri um pouco de cobrança na seleção, mas no final de tudo deu tudo certo.

Marcos, Dida e Rogério, quem estava em melhor forma na Copa de 2002?

Os três estavam. Uma vez a gente fez uma disputa de pênalti na seleção, os jogadores bateram 30 pênaltis e nós pegamos 22. Todo mundo estava no auge da carreira, tanto o Dida, quanto o Rogério, quanto eu. Eles tinham mais experiência porque estavam jogando mais tempo. Eu tinha o Velloso, o Sérgio, demorei um pouco mais a jogar. Mas o Rogério e o Dida estavam jogando há um bom tempo, tinham conquistados títulos por seus clubes. E imagina: um goleiro do Palmeiras, um do São Paulo e um do Corinthians. É o que eu te disse: o corintiano queria o Dida, o são-paulino queria que fosse o Rogério e o palmeirense, eu. Vai de quem tem mais gente na imprensa. Eu tive a felicidade de ter trabalhado com o Felipão, ele sabia das minhas qualidades, me deu essa oportunidade, tentei fazer de tudo pra não decepcionar.

Você imagina como seria sua carreira sem tantas lesões?

Penso que poderia ter jogado muito mais. Mas não tenho nada a reclamar, só a agradecer a Deus. Meu joelho hoje dói demais, mas eu estou com 38 anos. Quando precisei dele nunca me deixou na mão, sabe? Não tenho do que reclamar, não. Usei bem meu corpo. Sou um brasileiro, a gente sabe que o salário mínimo é 500 e poucos reais, e o futebol, além de sequelas, me deu a chance de mudar a vida da minha família, de mudar a minha vida, dos meus filhos. Deu oportunidade de, com pouco estudo, andar de carro importado. Então agradeço ao meu corpo que sofreu, eu sofri bastante, mas meu corpo nunca me deixou na mão. Com dor, normal. Mas o importante é que consegui vencer no futebol e consegui ajudar muita gente.

Futebol deu uma vida suficientemente confortável?

Sim, me permitiu. Hoje em dia você põe sua filha na escola e gasta R$ 1.000 na escola. Se fosse um trabalhor comum, como ia por sua filha numa escola boa de mil reais? Isso é coisa de jogador, pessoal que trabalha normal é complicado. Tem que suar sangue pra bancar os estudos dos seus filhos. E o futebol te permite isso. Hoje em dia eu estou, pra te falar a verdade, eu não sou um cara rico, mas sou um cara que tenho um gasto financeiro por mês que dá pra me manter. Se o Brasil continuar estável como está, não sou um cara que tenho grandes gastos por mês, tenho alguns investimentos que me dão um retorno legal. Não sou um cara que anda com relógio caro, com corrente cara, que coloca rodona no carro. Gosto de ter meus carros porque sempre gostei. Acho que você se sacrifica e tem que ter algumas regalias, e eu me dei de presente. Mas eu saio pouco, gasto pouco, não tenho tanto problema com isso.

Por que acha que sempre foi comparado com o Rogério?

É mais pela rivalidade. O Rogério é um baita de um goleiro. Em números, Nossa Senhora, ele é muito superior a mim. Em número de jogos, fez gols, uma baita história no Sâo Paulo. Eu fiz partidas muito boas, peguei muito. Mas a comparação é inevitável. O fato de ser comparado ao Rogério pra mim é um privilégio. Você vê o Rogério jogando até hoje em alto nível. Sempre que me comparam a um bom goleiro, a um ótimo goleiro, Rogério, Leão, pra mim é um privilégio. Isso é inevitável. Pelé ou Maradona? Pra quê [comparar]? Não pode cada um ter sido o melhor de sua época? O Rogério, Marcos ou Dida? Ninguém fala do Dida, foi um baita goleiro, campeão por todo lugar que passou, jogou na Europa, foi o melhor goleiro do mundo. E o pessoal fala pouco dele. Acho que, nós três fomos os grandes goleiros da nossa época. O pessoal fala do Taffarel, foi pra Europa, jogou. Se for ver foi depois de 2002 que começou a ir goleiro à revelia pra fora, vir buscar goleiro brasileiro. Antes não vinha. Nós três, pelo que jogamos na seleção, nos nossos clubes, fizemos boas partidas, partidas memoráveis. Comparação é até injusta. Todos nós tivemos fases boas e ruins. Não ligo, quer comparar? Pode comparar, mas não tem necessidade.

Quantas propostas já teve pra sair do Palmeiras?

Umas quatro ou cinco. Pararam de fazer porque sabiam que eu não saia. Vinha a proposta, na hora eu pipocava pra sair e pararam de fazer. Mas tive algumas. Tive do Corinthians, Botafogo do Rio, Atlético Paranaense, La Coruña…

Corinthians?

Foi em 2005.

Para lá não iria de jeito nenhum?

Nem é por isso. É que sempre gostei de jogar no Palmeiras, era o time que eu torcia de criança, sempre fui reconhecido pelo Palmeiras, nunca tive problema pra renovar aqui, nunca pedi salários exorbitantes e sempre soube reconhecer meu esforço. Então eu estava feliz aqui. E eu parto do princípio que, se você trabalha num lugar em que é feliz, fica, pois é muito melhor ser feliz ganhando menos do que, às vezes, estar na Europa.. eu sou um cara simples, imagina eu na Europa ganhando uma fortuna, mas não fazendo as coisas que gosto. Então dinheiro é bom, mas felicidade é melhor.

Você se arrepende de não ter tentado uma carreira no exterior?

Eu acho que isso é coisa de jogador novo. A partir de 2002 começou a debandada. Dida voltou pro Milan, Júlio César foi contratado. Na minha época goleiro não saia muito. E eu acha que chegar no Palmeiras, ser titular, ídolo da torcida, já era o auge. Nossa! Jogo no Palmeiras, meu time do coração! Pra mim já era o auge! Se eu tivesse vindo e jogado um jogo só pra mim já tava bom, já tinha realizado meu sonho. Na minha época eu não pensava muito nisso. Hoje em dia o jogador tinha que mudar um pouco. Para de pensar na Europa, joga aqui, faz a carreira no clube! É muito legal. Às vezes você é cobrado, já passei por isso, ser cobrado, gravar sua imagem, e você não tem nada a ver com as coisas erradas que acontecem e o pessoal te cobra. Mas você ter a raiz a um lugar é muito legal. Ter a imagem vinculada a um clube grande como o Palmeiras, Corinthians, São Paulo, ser lembrado o resto da vida. Tem gente que ganha muito dinheiro… e ” -pô, aquele ali é o Paulinho, jogou no Atlético, Cruzeiro, Santos, Corinthians, não sei onde e ninguém lembra dele, sabe? Não é ídolo de lugar nenhum no final. Então achei que a postura que eu tive de permanecer no Palmeiras foi legal, pra mim foi bom. Claro que outros ídolos vão chegar, outras pessoas vão ocupar seus espaços, mas eu sei que sempre vou ser lembrado pelo torcedor do Palmeiras.

Por que o Palmeiras anda tão complicado?

É um time de colônia, tem seus problemas de administração e isso é complicado. O presidente fica dois anos só, passa um ano trabalhando e no outro já passa pensando em se reeleger. Italiano normalmente é muito impaciente. Você vê pela própria torcida. Se em dez minutos de gol você leva um gol, o bicho pega, começa a reclamação, turma do amendoim começa a pressionar o jogador. O Palmeiras tem que mudar a forma de administração. Quanto mais profissionais for a forma de administrar, quanto mais profissional for a forma de administrar, rever contrato de jogador, pagar bem para jogador que alcance um objetivo, um jogador que se valoriza, dê retorno ao clube, fazer um balanço no final do ano. Chegar no fim do ano: gastei R$ 100 milhoes no time e hoje tenho R$ 200 milhões. Não como hoje em dia, chega no fim do ano você está devendo R$ 30 milhões e não ganhou nada. Hoje em dia tem que administrar como uma empresa, menos com o coração e mais com a razão e com o dinheiro que tem.

Qual o jogo inesquecível da sua carreira?

O jogo inesquecível da minha vida recente foi contra o Sport Recife, na Libertadores de 2009. Fora os três pênaltis, peguei pra caramba no jogo. Foram muitas bolas, eu fui bem. Também tem jogo inesquecível de tudo quanto é tipo. Tem o jogo contra o Atlético-GO que eu peguei três pênaltis e a gente errou quatro e foi desclassificado. Tem aquele que todo mundo fala do Marcelinho, mas esse aí já faz muito tempo.

Este do Marcelinho o palmeirense adora. Você não tem um carinho especial por este jogo?

Eu tenho, mas como o Palmeiras estacionou um tempo e não ganhou nada, ficou parecendo que eu só peguei essa bola na minha vida. Foi importante, claro que foi importante na época, pelo amor de Deus. Quase corri de correr e comemorar. Mas eu tive boas partidas. Em 2008, quando o Palmeiras conquistou o Paulista, fui eleito o melhor jogador do campeonato, eu já tinha praticamente me aposentado em janeiro. O Vanderlei [Luxemburgo] me redescobriu e me colocou em forma pra jogar. E a gente foi campeão paulista. Foi o ano que eu mais joguei aqui. Por isso eu falo sobre parar. Em 2008 em tava com uma condição até pior, o Palmeiras jogou 70 jogos no ano e eu joguei 61, e bem fisicamente. Vamos ver o que vai acontecer.