Por Cleber Aguiar – ‘Ser ídolo me deixa orgulhoso e também assustado’, diz Tite

Fonte: O Estado de São Paulo

Técnico admite que não esperava a reação da torcida na sua despedida e fala do legado que deixa no clube

Vítor Marques – O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO – Tite entrou na galeria dos treinadores mais vitoriosos da história do Corinthians. E também no coração da torcida. E ele está um pouco “assustado” com tudo isso. Em entrevista ao Estado, Tite relembra as homenagens que recebeu no último sábado, no Pacaembu, e fala do legado que deixou no clube, após ter conquistado cinco títulos em três anos. Abaixo, leia os principais trechos da entrevista.

Tite admite que sonha em substituir Felipão - Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão
Tite admite que sonha em substituir Felipão

ESTADO – 35 mil pessoas gritaram seu nome no Pacaembu. Um técnico de futebol pode ser ídolo?
TITE –
Sim, eu estou envergonhado, talvez não querendo ostentar, mas isso mostrou que daqui a pouco um técnico pode ser idolatrado. E isso me assusta, por dentro me assusta, um atleta, eu concebo. Estou um misto de orgulhoso e assustado…

ESTADO – No minutos finais do jogo de sábado, logo após Emerson perder um gol, a torcida gritou um “Olê, Tite” e o jogo ainda não havia se encerrado. O que você sentiu naquele momento?
TITE –
Eu não chorei porque estava com vergonha, mas por dentro eu estava chorando, eu acenei para o torcedor, mas queria ganhar o jogo, queria terminar com uma vitória.

ESTADO – O Tite, ao lado de Oswaldo Brandão, já é um dos maiores treinadores da história do clube?
TITE –
Não faço comparações, cada um teve sua etapa, suas características, eu estou no hall daqueles cinco maiores, isso tenho consciência. O simbolismo que tem o campeonato (Paulista) de 77 tem a Libertadores. Com cada um que falo, diz assim: ‘cara, a Libertadores do jeito que foi nos redimiu’. E eu falo: ‘não fui eu, foram os jogadores.’ E eles falam: ‘tu foi o técnico, nossa autoestima foi resgatada.’

ESTADO – Foi mais importante que o Mundial de clubes?
TITE –
Como resgaste de orgulho próprio, sim, o marketing do Mundial foi extraordinário, ecoou mais que a Libertadores, para o Tite mundialmente ecoou mais, mas o valor, o contexto geral, para o torcedor, a Libertadores foi mais importante.

ESTADO – Qual é maior legado do Corinthians de Tite?
TITE –
Vencer de forma leal e competente. Vencer sendo o melhor, competitivamente, tecnicamente, taticamente… Ganhamos a Libertadores e todo mundo dizia: ‘ah, tem malandragem, tem cusparada, tem que ser avião, malandrão, fomos o mais disciplinado e campeão invicto. Pegamos o Emelec, spray de pimenta, expulsão, arbitragem no mínimo tendenciosa, escambau, a equipe matou no peito e superou. Esse é o legado.

ESTADO – Após o anuncio de sua saída do Corinthians, quantas equipes procuraram você?
TITE –
Duas do exterior e cinco do Brasil, e algumas do Brasil repetidas vezes, mas eu não quero falar os nomes.

ESTADO – Do exterior, uma delas é da China, o time do Vagner Love (Shandong Luneng Taishan)?
TITE –
Sim, esse time me procurou pessoalmente, por telefone, sem passar pelo meu empresário, o Gilmar (Veloz).

ESTADO – E o outro clube de fora?
TITE –
Foi o time que o Maradona dirigiu, o Al Wasl, dos Emirados Árabes.

ESTADO – Ainda que esses clubes ofereçam propostas milionárias, vale a pena trabalhar lá?
TITE –
Profissionalmente não busco o lado financeiro, já tenho uma vida, não vou modificar, quero um lugar em que eu esteja feliz e cresça profissionalmente.

ESTADO – Dirigir um clube europeu passa a ser uma opção?
TITE –
São dois pré-requisitos, qualificação profissional e domínio do idioma. Se não tiver, não adianta. Não adianta ir para um clube inglês que vou me ferrar.

ESTADO – O cargo de técnico da seleção brasileira vai ficar livre depois da Copa e você foi um dos cotados antes de o Felipão assumir. Não pensa nisso?
TITE –
Eu penso e mais uns 15 técnicos pensam isso… tenho consciência dos meus passos, sou um dos postulantes por tudo que construí, pelos trabalhos que me credenciam.

ESTADO – 2013 foi um ano ruim para o Corinthians, com problemas extracampo. O quanto isso influenciou no time?
TITE –
Tiveram alguns componentes, jogamos sem torcida… Depois uma porrada de jogos, me perguntaram se tinha vontade de dirigir o time no Itaquerão, isso antes da minha saída, e eu respondi que queria voltar ao Pacaembu, foram muitos jogos fora de casa.

ESTADO – Todos sabem que o Mano Menezes é o novo técnico. Ficaria incomodado se o anúncio fosse feito com você ainda trabalhando?
TITE –
A partir do momento que sentamos, nos reunimos e decidimos (minha saída) é natural (a procura por um novo técnico), antes não, antes disso é deslealdade.

ESTADO – Mas acha que houve contato antes?
TITE –
Não quero julgar, eu fiz o que foi acordado.

Por Cleber Aguiar – Timbre inventivo da seleção renasceu das cinzas com Felipão, diz José Miguel Wisnik

Fonte: Folha de São Paulo

JUCA KFOURI
COLUNISTA DA FOLHA
ESTÊVÃO BERTONI
DE SÃO PAULO

O futebol parecia estar no fim, e a seleção tinha se tornado um espectro de si mesma.

Enquanto escrevia o livro “Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil” (Companhia das Letras, 2008), José Miguel Wisnik acreditava estar tratando da “luz de uma estrela extinta”. Sentimento que, segundo o músico, professor de literatura brasileira da USP e torcedor do Santos, não se confirmou.

“O futebol está vivo”, afirma Wisnik hoje. O técnico Luiz Felipe Scolari, com suas qualidades de “animador psicológico”, devolveu à equipe seu “timbre inventivo e surpreendente”, que pôde ser observado na Copa das Confederações.

A conquista do torneio, em 30 de junho deste ano, poderia até ter criado um clima de “já ganhou” para a Copa de 2014. Algo inédito, porém, impediu o oba-oba: os protestos daquele mês. Segundo ele, o futebol catalisou as insatisfações populares.

Wisnik recebeu a Folha em sua casa, em São Paulo, no mês passado, pouco antes do jogo entre Milan e Barcelona pela Liga dos Campeões, e pensou em alterar o horário do encontro para não perder a partida.

Zé Carlos Barretta/Folhapress
José Miguel Wisnick, autor de "Veneno Remédio - O Futebol e o Brasil", durante entrevista
José Miguel Wisnik, autor de “Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil”, durante entrevista

Na entrevista abaixo, na qual se emociona ao comentar a cantoria à capela do hino do Brasil durante a Copa das Confederações, ele fala de Neymar, do Barcelona, de Garrincha e de como o futebol é o esporte mais difícil de se encaixar na lógica empresarial.

Ele conseguiu ver depois o jogo, que terminou em 1 a 1, com um gol do ex-santista Robinho.

*

Folha – Por que essa preocupação em ver o jogo entre Milan e Barcelona. Você quer ver o Neymar?
José Miguel Wisnik – Eu tenho uma fixação pelo Neymar. Eu o acompanhei praticamente jogo por jogo, desde o primeiro minuto em que entrou em campo. Sofro de perder um único jogo dele. Quero acompanhar e entender, agora, esse processo de adaptação ao Barcelona.

Você sente saudade dele aqui? Ou o fato de ele estar lá e a gente poder ver todos os jogos resolve isso.
Eu sofro na verdade pelo fato de que se mostra uma partida do Barcelona pelo Campeonato Espanhol numa semana e na outra não. Ou seja, não se pode ver todos os jogos, e eu não entendo bem por que isso (sei por alto que são questões contratuais entre a ESPN e a Sky). Isso vai contra um desejo infantil, em vários sentidos da palavra, ligado à minha vinculação imaginária com o Santos como um clube lançador de grandes atacantes. Não preciso dizer que a relação com o futebol combina algo de adulto com infantil.

Falou-se que o Neymar precisava jogar na Europa para melhorar. Você concorda com isso?
Eu falei algo nessa direção, na minha coluna em “O Globo”, mas não exatamente isso. Acho muito positivo que o Santos tenha interrompido, num certo momento, o processo automático de transferência do jogador para a Europa. Retardou o automatismo da dependência econômica com um lance inesperado de canalização de patrocínios para salários, que reteve o jogador no Brasil por algum tempo (que parece ser também o que ele queria). Ao mesmo tempo, todos os outros jogadores do time que se destacavam minimamente iam sendo vendidos para o exterior, seguindo aquela mesma regra da qual Neymar era a exceção. Sem falar no enigma Ganso, que é um capítulo à parte. A certa altura, o Neymar carregava sozinho o time nas costas, exposto ainda, dada a sua condição solitária e desigual, no futebol brasileiro, ao assédio despropositado de 50 microfones a cada meio tempo da partida contra qualquer que fosse o time, bombardeado por perguntas que queriam transformar qualquer ninharia em assunto. Virou uma situação irreal em que Neymar estava jogando com o nada, com uma falta de estrutura correspondente, num projeto esgotado.

Isso é a demonstração de que, de fato, o Brasil é uma droga?
Droga continua sendo -veneno e remédio- e imagino que é nesse duplo sentido que você esteja falando. Lances de euforia em relação ao Brasil estão fadados a revelar, evidentemente, o seu avesso. Quando se diz que o Brasil é protagonista de uma nova realidade mundial, na ilusão de que passou por cima de seus problemas profundos, alguma coisa virá dizer que não é assim. Quando também se diz que o país não serve para absolutamente nada, que isso aqui não vai a lugar nenhum etc., também alguma coisa do próprio país dirá o contrário. E o futebol é quase o laboratório dessa experiência ambivalente. O lance do Santos em relação ao Neymar, segurando-o por mais tempo, soou como um grito de independência do futebol e de um país com dinheiro circulando, como um índice de pujança e certo descortino econômico. O contexto maior e um pouco de tempo trouxeram à tona as debilidades do projeto. Ele não descrevia uma nova realidade do futebol brasileiro, mas uma ênfase obstinada num jogador, alimentada por publicidade maciça, fazendo com que Neymar tivesse, em campo, que jogar por 11 e, fora dele, por 11 ou 13 marcas de produtos. Nem ele nem ninguém, acho eu, suportavam mais, a certa altura, esses papeis, por menos que se confessasse e por mais que ele quisesse, talvez, permanecer no país. A experiência está mostrando que é importante ele ter uma convivência continuada com o futebol de grandes jogadores e numa realidade que venha a testá-lo sobre vários outros aspectos. Todas essas perguntas que se fazem: “Afinal, qual é o tamanho dele?”, “Ele é tudo isso ou não é?”, ficavam girando um pouco no vago. Para quem gosta de futebol, e nesse caso é impossível não gostar dele, é fascinante a novela da chegada ao Barcelona, e o modo como ele mesmo e as peças do grande time vão se reposicionar ou não no tabuleiro, com esse fato novo.

O Neymar foi jogar na Escócia e foi vaiado, jogou com a seleção na Inglaterra e foi vaiado, é a malandragem brasileira que está sendo vaiada?
Essas vaias combinavam algum racismo (cascas de banana foram atiradas ao campo) com o desejo de reduzir o futebol brasileiro à sua caricatura, num momento frágil dele. Elas contracenam hoje com a dimensão mundial do sucesso de Neymar, que dificulta essa redução. Tem a acusação do “piscinero”. A acusação vem de Madri, por exemplo, onde se reproduz uma acusação que se fazia no Brasil. Mourinho, na Inglaterra, que não tem nada que falar sobre isso, também se manifestou. Como não invejar um jogador que escolheu o Barcelona por convicção futebolística, mesmo diante de propostas em dinheiro maiores? Por outro lado, o futebol, como os demais esportes contemporâneos, é disputado acirradamente no limite físico, no milímetro e no milissegundo. A aceleração da concorrência é fortíssima nessa direção. No futebol, onde o acaso e a interpretação, além de uma grande margem de indeterminação não quantificável, têm um papel muito grande, o atacante driblador e o defensor entram numa zona de fricção cinzenta onde reina a ambiguidade da intenção e do julgamento. No “Bem Amigos”, o Belletti falou que, já na sua fase tardia, marcando o Cristiano Ronaldo, ele ia no carrinho para acertar a bola, mas sabendo que, se não acertasse, já embutia no lance acertar o jogador, ficando tudo por conta das ambiguidades da intenção e da interpretação.

No mesmo carreto…
No mesmo carreto do carrinho já ia a dupla encomenda, a bola e o jogador. Como ex-jogador que virou comentarista, o Belletti pode explicitar o procedimento que acontece no campo a toda hora, do qual os defensores se saem levantando os braços em sinal de isenção, quando não afetando sentimento de injustiça e reclamando ostensivamente. O jogador ao mesmo tempo tenta atingir a bola, mas já vai com todos os recursos para varrer o que tiver pela frente, fora o braço etc.

Se for na bola bem, se não for…
É a maneira de praxe de proceder com jogadores imarcáveis, entre os quais Neymar talvez seja o mais saliente. Objeto desse tipo de ação continuada, ele reage às vezes na mesma moeda, aproveitando a zona cinzenta. Mas recebe muito mais falta do que eventualmente finge.

E não teria razão alguma de ele ficar se jogando se ele pudesse ficar de pé com a bola.
Exatamente. Essas questões se tornam como se fossem a cena contemporânea da questão: existe lugar ou não para o driblador num futebol que se tornou compacto, disputado com força física, atlética, em que o posicionamento coletivo é tudo, e a diferença individual passou a ser como que minimizada? Sobram essas anomalias, que são esses jogadores que têm esse alto poder de inventar e decidir. Isso vai ser ao mesmo tempo admirado e estigmatizado. O Neymar, por todas essas características, tem que atravessar isso. Mas naturalmente ele vai ganhando espaço dentro dessa realidade, e deixando pra trás as críticas mais óbvias.

O livro foi lançado em 2008, vai até a Copa de 2006, valeria um capítulo hoje o 4 a 0 do Barcelona sobre o Santos na final do Mundial de Clubes? O Nuno Ramos escreve que é preciso situar o jogo como um trauma, um antes e um depois.
O Nuno Ramos é meu amigo e santista como eu.

É um exercício de masoquismo.
Ele é mais masoquista do que eu. O que eu acho sim é a questão do lugar que o Barcelona ocupou.

Você acha que o Barcelona valeria?
Sim, com certeza. Para atualizar o livro. No momento da final com o Santos, o Barcelona parecia até ter resolvido a “quadratura do circo” do futebol, que dá nome a um dos capítulos do livro. Se uma das características que distinguem o futebol dos outros esportes modernos é a contingência da posse de bola, em vez da alternância da posse ou do saque, como no basquete, no vôlei e no tênis, na época eu escrevi que o Barcelona tinha reduzido drasticamente essa característica estrutural do próprio jogo, o que chegou ao paroxismo nessa partida com o Santos. Uma distribuição coletiva implacável, em permanente deslocamento, um domínio irritante do passe, uma neutralização instantânea do espaço adversário fazia com que só o time catalão jogasse. No limite, isso parecia não ter mais as propriedades erráticas do futebol, sendo, no entanto, uma extensão paradoxal, às últimas consequências, dos fundamentos do futebol. Como se esse Barcelona de Guardiola desfizesse a oposição entre ataque e defesa, prosa e poesia, futebol europeu e sul-americano. Mas o futebol é apaixonante também porque ninguém toma, assim, o jogo para si, e o momento agora já é outro (Guardiola na Alemanha). A bola gira, o mundo roda.

Essa questão dos donos do campo, eles levaram isso ao máximo? Tem gente que acha chato ver jogo do Barcelona porque só eles jogam.
Exatamente, havia protesto, chegou a ser acusado de futebol totalitário. Tem a questão do dono do campo e dono da bola, que é a imagem do Chico Buarque. O dono do campo é aquele que se organiza no campo de tal modo que ele detém o domínio do jogo, do território. O Barcelona é dono do campo, no sentido que foi revolucionado pela Holanda, que deu uma outra dimensão e de fato transformou o futebol desde então, porque os jogadores não ocupam mais posições tácitas, mas passam a comprimir o espaço e se distribuir de tal modo que no Barcelona sempre que um jogador recebe a bola tem sempre três ou quatro à disposição para receber o passe. Então não é só o que o cara tem o fundamento do passe, mas um time inteiro se movimento o tempo todo para oferecer opções de passe. Isso não é fácil de se conseguir e ali vem de uma escola longamente aprimorada em contato com o futebol holandês, por um lado, mas com o brasileiro também, com o sul-americano também. Com o fato de ter Messi eles combinaram a circularidade do tal tiki-taka com a verticalidade ofensiva.

Zé Carlos Barretta/Folhapress
Wisnik assiste ao clássico entre Milan e Barcelona
Wisnik assiste ao clássico entre Milan e Barcelona

Quando o modelo dá sinais de fadiga material, eles trazem o Neymar para jogar, um outro sul-americano.
O Neymar quis estar lá, quis fazer parte disso. Ele parece bem acompanhado, já a partir do pai, não tem errado nem nas declarações nem nas decisões essenciais. Poderia ter ido por mais dinheiro para o Real Madrid, um time que parece entender o futebol como inseparável de dinheiro (como demonstra aliás a ostensiva operação Bale), e que várias vezes converteu sua pretensão galáctica num cemitério de elefantes. Neymar fez outra aposta, não entrou nessa enrascada, e por isso tudo eu acompanho o desenrolar com o máximo interesse.

Você leu o dossiê de uma aula que o Guardiola deu? É filosofia pura.
Não li. Isso é interessante. Quando eu fui escrever o livro, eu tinha a sensação de que o futebol estivesse acabando. Que houvesse uma coisa de um esgotamento, que, no entanto, não se confirmou. Poderia ser que eu estivesse falando daquele fenômeno de uma luz de uma estrela extinta. Não é, apesar da enorme capitalização. Foi a tese de fundo do livro. O futebol continua sendo, enquanto estrutura de jogo, o esporte com mais variáveis, e mais difícil de reduzir a uma lógica de planejamento empresarial, que, no entanto, vem vindo e comendo por dentro e por fora.

O caráter lúdico prevalece. O Keirrison está rico, mas num esforço tão obsessivo por jogar futebol. Entra em transe e chora, pelo mero prazer de jogar futebol.
Tem uma coisa no futebol que talvez seja, embora moderna, um negócio que não é moderno, que está ligado à festa, ao rito, ao lúdico, a uma certa gratuidade, a um certo espaço de gratuidade que o futebol admite. É mais difícil nos outros jogos. Você tem o duelo de ataque e defesa muito mais cerrado, você vai pontuando e aquilo vai sendo contabilizado. No futebol não é assim. Tem uma gama de acontecimentos dos quais essa lógica não dá conta. A mercantilização absoluta, que está em jogo no mundo, expõe ali suas contradições.

No futebol, hoje, prevalece a prosa, embora, de vez em quando, apareçam jogadores com estilos poéticos, como o Neymar?
Eu acho que existe uma grande pressão para que ele assuma a lógica da prosa.

Na Copa das Confederações, ele fez muita falta, teve de marcar. No Barcelona, o cabelo dele está contido.
No Santos, quando ele virou dono geral, ele podia fazer qualquer coisa, qualquer coisa com o cabelo, qualquer comemoração. Olhando de maneira geral, há uma pressão para que o futebol se torne planejado, racionalizado em campo. Tem todo um princípio de análise de jogo, análise estatística, dietética. Não vou me estender sobre isso agora. Saiu um livro agora sobre números [“Os Números do Jogo – Por que Tudo que Você Sabe de Futebol Está Errado”, de Chris Anderson e David Sally]. Eu li. Aquilo é a expressão sintomática de uma mentalidade: traduzir o futebol em números. O futebol não era o que você pensava, era uma outra coisa. Aí ele apresenta as estatísticas e acha que é por aí que vai o futebol. Que as crianças vão assistir jogos já com tabelas estatísticas. E isso é um sintoma de época forte. É uma das lógicas do futebol. Lá, [no meu livro] tem quatro lógicas, uma é a otimização do rendimento, que é aquela que rege o mundo que você vê à sua volta. Um complexo empresarial, midiático publicitário, todo voltado para a otimização do rendimento. Essa lógica é muito dominante. E ela pretende ir ganhando espaço e tal. E eu me divirto com o fato de que, no futebol, ela dança tantas vezes. Embora, claro que isso tenha transformado o futebol em ocupação de espaço, de território, esse negócio dos donos do campo, preparo físico, e análises estatísticas, todas essas coisas que transformaram a face do futebol. Agora, tem um fator que no livro não entra. Ele faz tabelas estatísticas de acontecimentos e acasos, mas só enquanto tabela estatística, enquanto número, mas não como o jogador como produtor do acaso, da diferença, do elemento imprevisível. Isso não existe naquela lógica, simplesmente não existe. Isso de fato são formas mentais que estão em jogo. O Neymar representa uma coisa no Brasil atual no qual existe, ainda, e não só ainda no sentido nostálgico, existe de fato essa cultura, essa forma mental, essa cabeça incorporada no corpo, inseparável dele. Isso é bacana e ao mesmo tempo também não é aquilo que se diz do Garrincha, não é um jogador que não é capaz de se adaptar ao futebol europeu, porque é um individualista estéril, e todo esse papo, isso não funciona para o Neymar. Isso é interessante. E o Messi também, é um jogador capaz dos mais espantosos gols e de jogadas totalmente imprevisíveis, um futebol de poesia e é o maior jogador do mundo, jogando num time no qual essa oposição prosa e poesia parece ter sido superada dialeticamente.

Que expectativa você tem em relação à atuação do Brasil na Copa do Mundo?
Até antes da Copa das Confederações eu tinha uma expectativa péssima. O futebol brasileiro tinha se transformado num espectro de si mesmo, uma coisa que você não reconhecia mais sob nenhum aspecto. Eu achei também que o Felipão não era a figura capaz de reverter esse quadro. E, nesse momento, eu sou obrigado a dizer que as qualidades do Felipão como animador psicológico da equipe, que cria um sentimento de identificação coletiva, juntaram-se com uma capacidade de resposta ao estado do futebol contemporâneo, combinando marcação determinada com algo da volúpia contra-atacante do futebol alemão recente, com a própria troca de passes espanhola (sem a retentividade tediosa com que às vezes se procurou manter o domínio de bola, como no estilo Parreira quando solo) e com algo que, renascido das cinzas, é o timbre inventivo, surpreendente e inconfundível do futebol brasileiro. Para provar, no entanto, que continua ele mesmo, Felipão saiu-se com o discurso patrioteiro sobre a opção de Diego Costa pela seleção da Espanha. A verdade é que, embora o futebol se mantenha como um dos poucos lugares em que a identificação nacional ainda faz sentido no mundo globalizado, ela foi amplamente relativizada pela realidade, e muitos desses jogadores circulando pelo mercado mundial se tornaram híbridos afetivos, linguísticos, identitários.

Mas você mudou de ideia a partir da Copa das Confederações?
É de ideia, de sentimento.

No seu livro, você fala muito do episódio das “Touradas em Madri”, da Copa de 1950, em que se achava, depois da vitória em cima da Espanha, que já se tinha ganhado a Copa. Não seria uma nova “Touradas em Madri”, de achar que ganhou a Copa das Confederações e se acabaram os problemas?
Não serei eu que terei essa atitude. Detesto “já ganhou” em qualquer plano da vida, e acho que a seleção brasileira, mais do que ganhar, tem que ser digna de si mesma (o que ela não foi nas duas últimas Copas). Antes da Copa de 2006, por exemplo, me incomodava profundamente o autêntico clima de “Touradas em Madri” que se instaurou em torno da seleção que tinha Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Robinho, Adriano, Ronaldo. O oba-oba generalizado, a espetacularização midiática dos treinos, a propaganda da Ambev, patrocinador oficial, que apresentava os craques descendo de uma espécie de caminhão-espaçonave para o campo enquanto os adversários entravam ao rés do chão, tudo era um verdadeiro revival, em clima de euforização publicitária, dos dias que antecederam a final de 1950. O complexo de vira-latas revirado em apoteose da mercadoria. No momento atual a instauração pura e simples desse clima ideológico-publicitário tornou-se difícil, e justamente por mérito da coisa forte que começou a acontecer no Brasil junto com a Copa das Confederações. Se sempre se disse que o brasileiro é incapaz de se mobilizar para problemas reais porque vive voltado para o lúdico, para o futebol, para a festa, o Carnaval, a música etc., os impressionantes movimentos desencadeados em junho, para surpresa geral, aconteceram sintomaticamente, e não por acaso, com o advento da Copa das Confederações tendo a Copa do Mundo no horizonte, num efeito paradoxal da droga-Brasil. Como se toda essa mobilização só pudesse acontecer, ainda assim, por um efeito de prova e contraprova do veneno-remédio do futebol, que agiu como um catalisador para que uma demanda localizada como o passe livre se irradiasse em escala nacional.

Não simplificamos essa questão ao nos esquecermos que, na história recente do Brasil, milhões foram às ruas pelas Diretas e pelo impeachment? Em que país que, em 30 anos, aconteceram tantas coisas deste porte?
É verdade. Não é agora. Agora talvez a surpresa e o desconcerto sejam que esses movimentos se deram fora de qualquer quadro afirmativo de identificação partidária e com lideranças marcadas. O movimento das Diretas Já era um movimento suprapartidário, parecido com o da música do Chico Buarque, “À Flor da Terra – O que Será que Será”, mas tinha suas figuras reconhecíveis e todo ele apontava para alguma coisa que diz respeito à ordem do Estado e da sucessão de poderes, as Diretas e a saída da ditadura. Enquanto que, agora, para o bem ou para o mal, é difícil decodificar como é que a sociedade está representada nos movimentos, porque há justamente uma espécie de crise das representações. Talvez fosse difícil que os acontecimentos se precipitassem e ganhassem essa extensão se o futebol não oferecesse, com a sua onipresença e o seu apelo, o quadro de referência para a reverberação dos protestos, se o país não estivesse posto no palco da Copa das Confederações na iminência de uma Copa do Mundo

Sob os ditames do padrão Fifa…
Exatamente, onde os estádios e a Fifa passaram a ser uma alegoria do sistema político como um todo, com os seus acertos de interesses. A exigência de extensão do padrão Fifa para o funcionamento da educação e da saúde no país, por sua vez, foi um achado.

E você vincula isso também à comoção que foram todos os momentos das cantorias à capela do hino do Brasil.
Curiosamente, o Hino Nacional foi cantado como eu nunca vi durante a ditadura, inclusive porque a ditadura se apropriava do hino e o hino era a ditadura. Mas em junho o hino foi cantado nas manifestações e nos estádios, que se colocaram como espaços opostos, ou seja, o hino foi de algum modo a própria droga-Brasil, a essência do veneno-remédio. O fenômeno futebolístico dava margem a que se rejeitasse o país que se apresenta e ao mesmo tempo se afirmasse o país, algum país, de um modo complexo a ser analisado.

Significa dizer que, para você, ao contrário de boa parte ou alguma parte dos manifestantes da rua, quem estava no estádio não era alienado, apenas estava se manifestando de outra maneira.
O livro recusa a separação nítida entre futebol como alienação e a consciência política como estando fora. Quem está ligado ao jogo de uma maneira quase infantil como nós (e como eu que preciso daqui a pouco ver o jogo) não está por causa disso ausente ou desatento à política.

Só tinha visto alguma coisa parecida na final da Copa do Mundo de 1998 quando acabou a Marselhesa.
Isso aqui não vou dizer e não vai aparecer na entrevista, isso aqui não é gravável [aponta para o braço, arrepiado].

Assim como em 1970 não se conseguiu torcer contra a seleção com o objetivo de torcer contra a ditadura, hoje também não se consegue torcer contra o país?
Há quem consiga, mas essa separação entre quem está ali voltado para o futebol esquecendo os movimentos que estão lá fora não é clara. Mas é preciso colocar também na conta a mudança da composição social dos estádios, promovida pelo padrão Fifa, e a desativação do estádio caldeirão social em nome das comodidades do estádio de consumo, incluindo o consumo de luxo.

Antes da Copa das Confederações, o Brasil estava na crista da onda, e a seleção brasileira, no fundo do poço. Depois do torneio, o Brasil estava aparentemente no fundo do poço, e o nosso futebol voltou a ser o que era.
Essa inversão simétrica é quase uma figura literária barroca, uma espécie de xis da questão recorrente: onde você pensa que respondeu de uma maneira positiva ou negativa, o processo brasileiro parece expor o avesso daquilo que estava aparentemente posto. O futebol tem sido um dos lugares onde isso se dá, talvez o mais visível, não necessariamente o mais inteligível. Essa síndrome pendular pode ser apontada como um eterno retorno ao ponto de não avanço (nunca saímos do mesmo lugar), ou como um modo singular de ir avançando. Como se vê, a ambivalência recomeça, mas ela vai passar por provas mais decisivas durante a realização da Copa do Mundo no Brasil, onde se juntam finalmente dois fios desencapados: a tradicional identificação brasileira com o lúdico, com a decorrente inconsequência, e as aberrações da sua conformação política ao longo da história, com suas consequências recorrentes. Insisto: é o futebol que é o mote, se não o motivo, desse confronto do país consigo mesmo. Não torço para que o rastilho dos movimentos de rua mele a Copa do Mundo. Se é para expressar um desejo, o meu é o de uma inédita ultrapassagem da eterna ambivalência brasileira entre a luta e a festa, a panaceia e o remédio amargo, num campo em que a negatividade e a positividade não se anulem. Mas isso não acontecerá sem grandes mudanças.

Como você vê o movimento Bom Senso F.C., que aparentemente é resultado das manifestações de julho.
Não sei se me vejo capaz de analisar isso. Mas tem uma passagem no livro que fala disso, que o futebol, como a festa, deixaram de pertencer ao ciclo tradicional do trabalho e do descanso para entrar no binômio frenético do labor e do lazer. O labor (o conceito é de Hanna Arendt) é na verdade essa atividade que não para, que não produz obra, como se fosse o próprio organismo se realimentando sem parar e dejetando tudo que usa. Você tem jogo terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo. Segunda-feira, que eu saiba, é o único dia que não tem jogo, mas todos os times são colocados para moer nesse calendário que obedece a uma lógica produtiva pelo avesso, em que o lazer é o labor permanente do consumo do entretenimento. O jogador é consumido nesse processo, e a gente tem visto aqueles que passam rapidamente da grande fase para a crise física ou psicológica, o que não deixa de ser um sintoma do ritmo do futebol atual. Kaká, Ronaldo, Ronaldo Gaúcho… e o próprio Messi agora dá sinais disso. Então, que haja um movimento de jogadores para colocar limite a essa estrutura futebolístico-midiática desmedida é um acontecimento positivo, um sinal a mais dos movimentos que vêm acontecendo no Brasil, nesse período, contra estruturas viciadas e inamovíveis.

Mané Garrincha faria 80 anos no dia 28 de outubro. Ele jogaria futebol hoje ao lado do Neymar?
Alguma dúvida? A tal história: Garrincha não era um mero driblador compulsivo, não era nenhuma enceradeira, não estava ali girando em falso nem fazendo mero brilhareco com aqueles negaceios. Aliás, é uma pena que, de toda a documentação do Garrincha anterior a 1962, só sobraram alguns tiques de dribles. Dá uma bola de calcanhar e não sei mais o quê. Isso é realmente uma pena. Há pouco tempo vi a partida completa Brasil x Suécia, a final de 1958, que estava na internet, e não sei porque não temos amplo acesso a esse registro que faz parte da memória nacional. A gente é obrigado a ver sempre o mesmo retalho de lance, o Garrincha chega, dribla, vai à linha de fundo, centra para Vavá, aí de novo parece o mesmo lance mas já é o segundo gol, e a gente não conhece a textura do jogo, não sabe como se construiu a jogada, e como se comportavam Didi, Zito, o jovem Pelé e Garrincha durante o todo da partida. Isso é uma mutilação da memória do sentido no futebol. É interessante ver como Garrincha também perdia muitas vezes a bola. Ele era, como todo driblador, alguém que está arriscando. Imagina-se que ele sempre driblava e que ele não driblaria mais porque não deixariam.

E driblador por driblador o Messi também é.
O Messi sim, o Messi, além de ser um driblador, o estágio atual dele é de alguma coisa conquistada, como domínio de si, do campo, do mundo do futebol. Mas o Messi perdeu muita bola durante esse tempo em que ele chegou a conquistar esse estilo. Mas, voltando à pergunta, não faz sentido achar que, pelo fato de que um jogador faz parte da história e que os jogos de que ele participou são datados, ele mesmo, enquanto virtualidade comparativa, é anacrônico e datado.

No seu livro, você chama o Garrincha de Macunaíma. Quem é mais “macunaímico”: ele ou o Lula?
O Lula é muito “macunaímico”, mas um Macunaíma com objetivos definidos, o que já é outra história. Macunaíma deve ser entendido na passagem em que, acordando-se para as consequências da industrialização em curso, depara-se melancolicamente com o mundo pré-industrial que vai se perder. É um transe da modernização brasileira, do qual Garrincha é um avatar esplêndido e trágico, e em que o trabalhador tem ainda um espaço de manobra facilitado pelo futebol, que lhe abre os caminhos do ócio. Macunaíma é versátil, adaptável, criativo, sedutor, mas não sustenta projeto, tem imensas oportunidades e desperdiça todas, é inconsequente e irresponsável. Agora nós estamos fases adiante, onde permanece muito dessa cultura, mas num contexto amplamente industrializado. Macunaíma não responde pelo que fez, só que fez. Fez o que…

O que tinha que fazer?
O Lula é sujeito de um projeto. Um metalúrgico que se torna um líder operário que participa da fundação de um partido e se torna presidente do Brasil. Tinha tudo para ser um fracasso, pensando na distância entre as pontas do percurso. O fato de ele atravessar todas essas instâncias, controlando o jogo da realidade política, mostra que o que há de Macunaíma nele não tem essa parte, a da não sustentação de projeto. Lula é própria expressão do Brasil industrializado, do qual Macunaíma é ainda o avesso e o susto. Porque o Macunaíma é o dilema da modernização brasileira, do qual vivemos a cada vez um novo capítulo. Àquela altura, para o Mário de Andrade, em 1928, era o dilema entre a originalidade ancestral do Brasil e o que vai se perder com a industrialização. “Se o Brasil se moderniza deixa de ser Brasil, se o Brasil permanece Brasil, não se moderniza”, como disse Fernando Novaes de “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda. Macunaíma é de certo modo esse impasse, como se nele não se resolvesse a questão, e como se esse traço de irresolução permanecesse sempre atual. Nesse sentido, Garrincha é bem a representação disso: a modernidade da seleção de 1958, contemporânea de Brasília, combinada com um mundo da gratuidade em estado puro. É tocante e patético o fato de ele não se submeter à lógica do contrato, ao funcionamento da lógica burguesa. Nilton Santos tinha que apadrinhá-lo e cuidar dele, porque ele não queria e não sabia negociar – não tinha por negócio o mesmo tesão que tinha pelas caçadas, pescarias, passarinhos, futebol e sexo, em suma, pelo ócio. Eu acho que está em Garrincha a manifestação ao mesmo tempo carnavalesca, esplendorosa e trágica de um mundo onde o trabalhador de uma indústria incipiente garante para si uma contraparte de ócio, facilitada justamente pelo futebol, ao qual dá dimensão de arte. No país urbanizado e mercantilizado de hoje, onde aqueles espaços idílicos, como o da praia em Caymmi, parecem não existir mais, chama a atenção que ainda haja a expressão de um certo culto da gratuidade combinada com eficiência, em campo, que essa tradição ainda fale, e da qual Neymar, tecnologia de ponta do ócio em um mundo pós-industrial, apareça, talvez por isso mesmo, como um caso-limite.

Mas mesmo no Mané, não tem uma contradição nisso que você está dizendo, quando a gente pensa 1962?
Sim, você se refere ao fato de ele mostrar-se capaz de, na ausência de Pelé, sair da ponta direita, comandar o time, bater falta, fazer gol de cabeça, lançamento, evidenciando que o extrema driblador e “dono da bola” é também “dono do campo”, senhor dos espaços, que a “lógica da diferença” do gerador de imprevistos não abole a “lógica dialética” da visão do jogo, que Macunaíma é capaz de ser não só camisa 7 ou 11, mas também uma espécie de camisa 10. A lenda diz, no entanto, que ele fez tudo isso por causa de Elza Soares e para Elza Soares, a Macunaíma do samba. A lenda quer que Macunaíma não deixe de ser Macunaíma.

Por Cleber Aguiar – Para Coutinho, gol mais bonito feito por ele foi anulado na Itália

Fonte: Folha Online

RAFAEL VALENTE

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De óculos escuros, chave do carro na mão, Coutinho, 70, chega à Vila Belmiro para atender a reportagem da Folha. Mas quem faz as primeiras perguntas é ele.

“Quanto tempo vai durar essa entrevista? Você vai gravar?”, diz o atacante bicampeão do mundo pelo Santos em 1963, que tem 457 jogos e 370 gols pelo clube alvinegro.

 

A preocupação com o tempo ficou de lado assim que o ex-jogador começou a falar da conquista contra o Milan após três jogos duros. Aí, ele voltou a viajar no tempo.

 

Entre as histórias relembradas, afirmou, com exclusividade, que foi na Itália, na derrota por 4 a 2, que fez aquele que considera o gol mais bonito da carreira.

 

Acompanhe esta história na terceira reportagem especial sobre o título de 1963.

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Folha – Foi o título mais importante da sua geração?
Coutinho – Todo título é importante, não dá para discriminar A, B ou C. Aquele foi um dos mais importantes e sabemos hoje. Na época, foi mais um jogo, mais uma taça.

Qual a principal lembrança que você tem da conquista?
No primeiro jogo, na Itália, a lembrança maior que tenho é um gol que fiz e foi anulado de forma errada. Acho até que foi um dos gols mais bonitos da minha carreira.

Na época, a Folha relatou que o gol foi anulado por ter tido um toque de mão…
Para mim isso é novidade. Não usei a mão. Usei as pernas, foi de bicicleta. Na verdade, foi de voleio. O árbitro deu pé alto no cara que estava chegando para me marcar.

Então, como foi esse gol?
O Dorval cruzou na área, aí teve um rebote e a bola veio viajando. Olhei para o gol e vi o que poderia fazer. Dei uma meia bicicleta. A bola entrou. Foi um dos gols mais bonitos de toda a minha carreira. Acho que seria o empate por 2 a 2. Foi um erro grotesco do árbitro. Mas tudo bem, passou e a vida continua.

A derrota por 4 a 2 na Itália preocupou o time?
Nada estava perdido para nós. Tínhamos uma equipe que dificilmente perdia duas seguidas. Que me lembro acho que nunca passei por isso. De perder em um sábado ou em um domingo e depois numa quarta ou numa quinta. No jogo de volta, no Maracanã, tivemos uma surpresa muito grande. Com 16 minutos, já estava 2 a 0 para o Milan. Mas fizemos um segundo tempo fabuloso debaixo de uma chuva tremenda. Foi magistral. Dois chutes do Pepe de longa distância, a especialidade dele, depois um gol do Lima e um gol do Mengálvio de cabeça… dá para imaginar, um gol de cabeça do Mengálvio? Era para o Santos ser campeão mesmo. Foi fabuloso.

O terceiro jogo também foi tão intenso?
Tivemos o heroísmo do falecido Almir. Pelé não jogou os dois jogos no Maracanã. O Almir o substituiu e foi uma das grandes figuras dos jogos. Até no pênalti que o Santos conseguiu ele foi leão, foi herói. Ele botou a cabeça no pé do goleiro [na verdade, o lance foi com o ex-zagueiro Maldini] e o juiz transformou em pênalti, que o Dalmo com grande maestria, muita calma, muita paciência, cobrou. Tem até o detalhe que ele correu para a bola para bater o pênalti, o goleiro saiu ao encontro dele e ele refugou, não bateu. Aquilo foi de uma calma do Dalmo fora do comum. Em seguida, ele bateu o pênalti, fez o gol, ganhamos por 1 a 0 e fomos campeões. Acho que foi importante pelos detalhes. Passamos um sufoco, perdemos lá de 4 a 2, tínhamos de ganhar por quatro gols aqui e sofremos dois gols, revertamos o placar e depois conseguimos uma vitória de 1 a 0 e fomos campeões. Tudo isso dá um sabor maior de satisfação.

Houve muita provocação por parte dos italianos? Os jornais relatam até que foi uma partida violenta.
Cara feia nunca me assustou. Eles chegavam junto nas jogadas. O futebol italiano é assim, de marcação forte. Vai de cada um saber se desvincilhar e rebater com a mesma moeda. Eu rebatia. Para mim não houve essa violência toda que falam. A marcação foi forte. Eles chegavam junto, fungavam no pescoço -como a gente costuma dizer-, mas vai da habilidade, da criatividade de cada para se sobressair. Não foi dessa violência toda. Foi um pouco de exagero. Se você é atacante, como eu, Pelé, Pepe, Dorval, ninguém vai olhar você e bater palma. Vão chegar juntos.

Uma das histórias é que o brasileiro Amarildo, então atacante do Milan, provocou muito e teve o troco no Rio.
Tanto é que o Almir deu uma pegada feia no Amarildo. Mas já era uma rincha de clube. O Almir jogou no Milan junto com o Amarildo. O Amarildo tinha um tantinho a mais de moral no Milan que o Almir. Então, ficava meio esquisito. O Almir gostava de tomar a cervejinha dele e talvez o Amarildo não o acompanhasse. Acho que a rivalidade veio disso. O Almir se sentiu humilhado quando passou pelo Milan e ele deu o sangue para ganhar. No lance do pênalti, ele deu a cara para o goleiro chutar e, assim, sofrer o penal. Por isso ele foi a grande estrela do Santos na vitória do Mundial. O Ismael também fez falta feia no Amarildo. Ele realmente falou umas graças, mas talvez não tenha sido intencional. Talvez ele falou uma coisa e a imprensa italiana colocou outra coisa.

É verdade que o Amarildo foi vaiado pelo Maracanã ou é exagero?
As vaias ao Amarildo aconteceram. O Maracanã era nosso. Tanto é que o segundo time da maioria dos cariocas é o Santos Futebol Clube. Não sei se é hoje. Na época nossa era. Tanto que disputamos Libertadores e Mundial no Maracanã. De todos os jogos, os mais importantes fizemos no Maracanã. E pegamos sempre aquele campo lotado com aquela torcida fabulosa. Somos agradecidos aos cariocas por ajudar bastante.

O que mudou da sua época para o presente?
O jogador de futebol muda muito de vida. Hoje você está no Santos, amanhã pode estar no Corinthians ou no Palmeiras. Hoje é uma várzea a troca de clube, uma vergonha. O cara sai de um time e chega no outro beijando a camisa. Se eu fosse diretor de clube ou presidente, jogador que chegasse beijando o distintivo estava fora. Acho de uma falsidade. De manhã joga em um clube, de tarde joga em outro e de noite joga em outro. Fica desagradável. Apesar que o amor como nós tivemos pelo Santos acabou, não existe mais, é passado. Aquele lance de joga no Brasil de manhã e de tarde joga na Europa.

Será que o fato de o futebol envolver muito dinheiro hoje ajudou a acabar com o amor que você descreve?
O dinheiro existe, se é muito ou é pouco, não importa. De graça ninguém joga. Acho que o amor acabou. O amor de você gostar. Eu gosto do Santos até hoje. Cheguei aqui com 13 anos de idade e hoje tenho 70. E sou Santos. Moro na Vila Belmiro. É uma questão de amor. Joguei 15 anos no Santos. O Pepe jogou 20 anos, o Pelé também. Dorval jogou 17. Mengálvio jogou 15. Isso chama-se amor ao clube. Não é uma coisa de passar um tempo e ir embora. Nós éramos muito amigos e somos ainda hoje. A amizade nossa é eterna. A gente se gosta muito.

Vocês tiveram oportunidade para sair do Santos, não?
Isso houve com todo mundo. Não só com o Pelé. A Juventus da Itália me queria. O Boca Juniors me queria. A Inter de Milão me queria. O Atlético de Madri me queria. O Valencia me queria. É que nunca nos preocupamos com isso. Outra coisa. A gente pensava da seguinte maneira: nós jogamos em um time que se jogarmos dez vezes em um mês vamos ganhar 11. O Santos era assim. A gente pensava: sair daqui para bater cabeça por aí, mas não vou mesmo! Nunca pensamos em sair. Nunca um diretor chegou na gente para isso. Eles tinham tranquilidade para trabalhar com a gente e nós também. Tínhamos diretores de moral. Nicolau Moran, Athiê Jorge Coury, Modesto Roma, Renê Ramos, Carlo Angerami, Augusto da Silva Saraiva… tínhamos gente de respeito na diretoria. Gente que se falasse ‘A’ era ‘A’. Nós confiamos neles e eles na gente. Foi por isso que o Santos conseguiu fazer um time fabuloso.

O que diferenciava aquele time do Santos dos outros?
Tínhamos craques em todas as posições e nosso time sempre foi moleque, com muitas brincadeiras. Isso continua até hoje. Só havia seriedade quando entrávamos em campo.

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Por Cleber Aguiar – Muricy Ramalho: ‘Ganhar no São Paulo tem sabor diferente’

Fonte: O Estado de São Paulo

Técnico abre o jogo ao Estado e fala sobre desafio de reerguer o clube, carreira
e futuro

Fernando Faro – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Muricy Ramalho enfrentou 33 minutos de entrevista coletiva antes de se encontrar com a reportagem do Estado. Com semblante mais sereno, deu risada ao lembrar sua relação turbulenta com os jornalistas – “cara, que chatice que é isso” – mas garante estar mais tranquilo.

Muricy Ramalho tirou o São Paulo da crise - José Patrício/AE
José Patrício/AE
Muricy Ramalho tirou o São Paulo da crise

E de fato foi preciso serenidade para aceitar o convite para, quatro anos depois da última e vitoriosa passagem, comandar o São Paulo na crise mais grave da sua história. Menos de dois meses depois, o Tricolor deixou a zona de rebaixamento e ocupa a nona posição na tabela e está em vantagem nas quartas de final da Sul-Americana. Pouco para a tradição do clube, mas um céu de brigadeiro para quem tinha pesadelos com a queda.

Ainda sem renovar o contrato – o que não será um problema para acontecer – o treinador avaliou seu retorno ao Morumbi, analisou o que mudou no período de ausência e voltou a falar do desejo de se aposentar no clube de coração. “Cesci aqui dentro”.

ESTADO – O que mudou nesses quatro anos de ausência? MURICY RAMALHO – Perecebemos que a estrutura do CT melhorou muito, mas isso é uma coisa natural do São Paulo e da gestão do Juvenal, ele adora melhorar o clube, não só o CT como também Cotia e a sede, isso é uma coisa dele. Ouvia que estava melhor e de fato está. O que não estava bom era o ânimo das pessoas porque a situação não estava boa mesmo. Seguranças, funcionários, essas pessoas que trabalham e fazem a diferença, estavam com a autoestima baixa, mas é algo normal. Mas fisicamente o clube melhorou muito.

ESTADO – Mesmo de fora você imaginava o que daria para fazer para melhorar o time? MURICY RAMALHO – A gente imagina, claro, mas tomar a decisão no sofá é muito fácil, você sempre vê as coisas depois que elas aconteceram e você está sem nenhum tipo de cobrança, como era quando o Paulo estava aqui. Mas sei, como técnico, que não é assim, que as coisas não são como você pensa. Foi assim comigo aqui, não imaginei que estivesse tão ruim como de fato estava; de longe era ruim, mas aqui era pior. Claro que eu me punha às vezes no lugar dele, mas não dava para dizer que faz isso ou aquilo, o técnico que pensa assim não tem milagre. Fiz a diferença porque tem aquele lado da torcida estar comigo e vir junto. Meu perfil é muito voltado para ter o time mais determinado e vibrante, mas com certeza tinha muitas dúvidas em relação a isso aqui.

ESTADO – Acha que se tivesse vindo antes não teria conseguido arrumar o time? MURICY RAMALHO – Poderia acontecer igual ao Paulo (Autuori, demitido após dois meses). Não tem milagre. Aquele momento foi muito ruim para o time porque desgastou, ele não conseguiu treinar o time em momento algum e depois teve que jogar terça, quinta, sábado e domingo, não tem milagre para isso. As pessoas pensam, “ah, se ele tivesse chegado antes”…não teria acontecido nada porque as coisas não são assim. O Paulo um p… técnico, foi campeão aqui e em todo lugar, a questão é que ele pegou um momento muito ruim que foi o da viagem, infelizmente.

ESTADO – Em algum momento achou que o time de fato fosse cair? MURICY RAMALHO –

Só achava que estava muito difícil mesmo. A autoestima estava muito baixa e o ambiente pesado, se você não ganha a desconfiança é grande. A gente sempre tem esperança e não pode desistir, o cara que comanda não pode baixar a cabeça nunca, tem sempre que estar com a cabeça erguida e dando força para quem precisa. Mas achava, e continuo achando, que a coisa está muito difícil e precisamos trabalhar muito duro para sair dessa situação.

ESTADO – E por que você conseguiu e eles não? MURICY RAMALHO – Se você não ganha, não tem jeito. Não vão te olhar com carinho, as pessoas aqui gostam de mim porque ganhei muito. O torcedor acredita em mim porque acha que eu posso mudar o ambiente, sou um treinador que vai atrás dos objetivos traçados pela diretoria, me entrego demais e o torcedor acredita nisso. Claro, tem o trabalho do dia a dia, saber escalar, tirar, mexer, treinar o time. Isso é muito importante, não dá para ficar só no “vamos lá”.

ESTADO – Se ganhar da Portuguesa dá para pensar só na Sul-Americana? MURICY RAMALHO – Não podemos ter esse pensamento até porque há um mês ninguém falava de Sul-Americana de tanto desespero. Temos que continuar trabalhando forte no Brasileiro e sendo inteligentes porque temos jogado e viajado demais, mas o bom é que hoje temos um time recuperado, dá para fazer os dois campeonatos bem porque podemos usar os jogadores que estão à disposição.

ESTADO – Quantos minutos vai demorar para você renovar? MURICY RAMALHO – Dessa vez não deu nem para discutir (Risos). Foi muito rápido, não seria legal da minha parte em pensar em contrato. Tinha que vir para ajudar, outro pensamento não daria certo e meu contrato ficou para depois. Nunca tive problema com o São Paulo para renovar contrato e acho que dessa vez não vai ser diferente. Sou muito justo no que faço, não sou um maluco que se aproveita das oportunidades. Vai ser como das outras vezes, que demorou pouco para resolvermos. Não vai ser diferente agora.

ESTADO – Ainda sem falar em nomes, como vê o elenco para o ano que vem? MURICY RAMALHO – Nossa equipe é desequilibrada em alguns setores em que precisamos caprichar. O segredo é diminuir o erro, porque inevitavelmente você erra. Mas estamos numa situação que não deu para sentar e conversar, jogamos todo dia e precisamos planejar as partidas, infelizmente vamos sair atrás porque a situação levou a isso, não porque o clube não se planejou. Não dava para pensar no ano que vem sem pensar no agora, ficou uma situação muito ruim e vamos ter que caprichar muito, mas muito mesmo na montagem. Temos que olhar com carinho quem vai chegar, as datas, o calendário. Se não fizermos isso não teremos chances.

ESTADO – Qual sua participação na montagem do elenco? Vai aceitar quem a diretoria quiser trazer? MURICY RAMALHO – Em todo time que trabalho podem vender quem quiserem, não me meto nisso. Lembro de quando venderam o Josué e o Mineiro e foi uma luta, mas disse que iríamos nos virar e surgiu o Hernanes e o Jean. Quem sai não me importo muito, mas tenho que dar opinião de quem chega, senão não adianta. De que serve se a diretoria chegar e me dizer que vai contratar um jogador? Vai trabalhar com eles ou comigo? Quando vão atrás de um jogador precisa perguntar para mim, não sou o técnico? Sou eu que tenho que concordar ou não e vou opinar. Se for o técnico do São Paulo, claro.

ESTADO – Você cobrou duas vezes a diretoria para renovar com o Rogério. Eles te passaram algo? MURICY RAMALHO – Não tive nenhuma conversa sobre esse assunto e nem sobre o ano que vem porque preciso estar focado no que estamos fazendo agora. Não recebi nada oficial, mas o que percebemos é que o Rogério está mais aliviado e mais feliz com o momento do clube, é difícil você encontrar alguém motivado em um momento ruim como era o nosso, ele estava tenso como todos. Agora pode ser que ele pense diferente; claro que é um cara muito definido no que faz, tem uma família acertada e seus objetivos. Mas a gente vê que ele está diferente, mais feliz. É hora que dá para conversar com um pouco mais.

ESTADO – Cogita conversar com ele para pedir que fique? MURICY RAMALHO – Sou amigo particular dele, mas é uma situação profissional e cabe a ele decidir. Ele sabe o que penso porque já falei publicamente, mas sou muito frio para analisar. Acho que ele está num momento muito bom físico, para agarrar – porque eu não confundo com essa história de bater pênalti. Ele como goleiro está muito bem, fisicamente está muito bem numa fase complicada, porque nessa idade o joelho do cara complica, a parte lateral fica bastante prejudicada. É uma opinião que tenho, mas ele que tem que definir.

ESTADO – O clima político se deteriorou muito desde sua saída. Como enxerga esse ambiente? MURICY RAMALHO – É como todo processo, todo mundo tem opiniões diferentes. Mas é claro que todas as opiniões têm que estar voltadas para o São Paulo, todos no processo têm que pensar no São Paulo. Não existe ninguém maior e mais importante que o clube. Ninguém. Nenhuma pessoa é mais importante que o clube, as pessoas que estão no processo precisam saber disso.

ESTADO – A maior crítica ao seu último trabalho aqui foi a falta de títulos no mata-mata. Vencer um aqui tem sabor diferente? MURICY RAMALHO – Era a Libertadores que eles reclamavam porque é um campeonato muito importante para o clube. Ganhar é sempre bom e importante em todos os lugares, mas claro que no São Paulo passa a ser uma coisa muito diferente porque nasci aqui e tenho uma história aqui, e quando você tem uma história e ganha, essa história aumenta. As pessoas vibram mais, você sente. Para treinador é fundamental ganhar no Brasil, se não vence não tem chance independente do carinho que tenham por você e por isso que temos que ganhar sempre. Mas claro que ganhar no São Paulo é diferente.

ESTADO – Você sente seu trabalho reconhecido pelos outros? MURICY RAMALHO – Basta ver os convites que recebo. Não posso ficar na mão de pessoas porque pessoas têm sentimentos. Às vezes você depende de uma opinião de uma pessoa e ela é do mal, negativa. O ser humano é cheio de manias, alguém pode falar “aquele não é legal porque não é simpático” ou “esse não é legal porque não é brilhante intelectualmente”. Isso para mim não serve para nada, para mim o único parâmetro para reconhecer um profissional, não só um técnico de futebol, é resultado. É só isso que aceito, não adianta você ir numa revendedora de carros e ter uma bonitinha que não vende um carro e tem a feinha que vende um monte. A feinha que é a fera. Você vai deixar para os outros julgarem? Se o cara tem resultado bom, ele é bom e qualquer área. Sou um cara muito procurado e por times grandes demais, não pequenos. Alguma coisa devo ter.

ESTADO – Sua relação com a imprensa às vezes é tensa… MURICY RAMALHO – (Interrompe rindo) Quando estava em casa há três meses sem trabalhar eu assistia a umas entrevistas chatas do caramba. “Ah, e o jogo?”, “ah, e não sei o quê?”…pô, os caras não ganham nada, nem uma porradinha (risos)? O que me tira do sério é cara maldoso e a gente sabe quem é. Às vezes o cara faz uma pergunta dura para você, mas você conhece a índole e sabe que o cara é correto e não tem maldade e então eu aceito. Acredito numa opinião limpa, se merece elogios, elogia; se merece uma crítica, critica, mas sei que às vezes têm maldade. Não aceito cara negativo e no nosso meio na imprensa sei que tem cara que vê o mundo em preto e branco, que nada presta, que só o que antigo é bom. Preservo muito o que é o ser humano e para mim se o cara é correto, ele pode ser duro, mais ou menos ou como quiser porque minha entrevista vai ser numa boa. Mas desde que voltei do Rio e fui para Santos melhorei bastante. Acho que é a idade também, você vai ficando mais velho e a bateria vai caindo um pouco e vamos deixando as coisas um pouco de lado. Só sou assim com os caras malas. Tenho inclusive muitos amigos na imprensa, amigos de sair junto mesmo.

ESTADO – Já resolveu quando irá se aposentar? MURICY RAMALHO – Não defini, mas não vou me alongar muito mais porque tive vários exemplos de pessoas que tentaram esticar a carreira porque isso aqui é muito desgastante. Comecei a ter um monte de coisas que não tinha; tive problema de coluna, já tive diverticulite e várias coisas que vejo como um sinal.

ESTADO – E seleção, ainda pensa nisso? MURICY RAMALHO – Não, não passa mais pela minha cabeça.

ESTADO – Então o São Paulo é seu último clube? MURICY RAMALHO – Pode ser que seja sim. Recebo muitos convites para ir para fora do país, mas não mexe comigo. Não tenho essa ambição, sou muito feliz aqui. Tomara que eu acabe aqui no São Paulo.

ESTADO – E o que pretende fazer quando parar? MURICY RAMALHO – Sou um cara de família. Não sou um cara vaidoso ou de costumes muito diferentes, gosto de ficar com minha família e minha turma, meus amigos de bairro. Minha vida é pautada pela simplicidade, de ir num boteco – o que não consigo fazer hoje em dia. Devo ficar mais ou menos como nesses três meses que estive de férias.

Por Cleber Aguiar – Presidente do Santos cobra Barça sobre valores da transação de Neymar

Fonte: O Estado de São Paulo

Diretoria do clube catalão diz que a diferença no valor deve estar na mão de empresários

Luiz Antônio Prósperi, Raphael Ramos e Sanches Filho

A venda de Neymar para o Barcelona rendeu, até agora, 25 milhões de euros (R$ 74,9 milhões pelo câmbio de terça-feira) aos cofres do Santos. O valor, no entanto, pode chegar a 31,5 milhões de euros (R$ 94,3 milhões) caso o craque seja finalista do prêmio de melhor jogador do mundo dado pela Fifa e se o Santos desistir de disputar um segundo amistoso com o time catalão – no primeiro jogo, perdeu por 8 a 0. Para chegar a esses valores, o Alvinegro fechou quatro contratos com o clube catalão, como explica o presidente Odílio Rodrigues Filho em entrevista ao Estado. O dirigente rebate até mesmo a diretoria do Barcelona, que anunciou ter gasto 65 milhões de euros (R$ 194,7 milhões) para contratar Neymar e diz que a diferença deve estar nas mãos de empresários. Odílio também disse que o Santos planeja assumir o Pacaembu depois que a Prefeitura privatizar o estádio e não garantiu Claudinei Oliveira para 2014.

Santos vendeu Neymar por R$ 194,7 milhões, mas só recebeu R$ 51,2 milhões - J. F. Diorio/Estadão
J. F. Diorio/Estadão
Santos vendeu Neymar por R$ 194,7 milhões, mas só recebeu R$ 51,2 milhões

ESTADO – Depois da saída de Muricy Ramalho, Neymar e outros jogadores importantes, ocupar a oitava colocação do Campeonato Brasileiro e ter chance de se classificar para a Libertadores chega a ser surpreendente?
ODÍLIO –
O Santos está numa fase de transformação. De 2010 para cá, vivemos o período mais vitorioso da história do clube desde a Era Pelé. Disputamos oito finais e conquistamos seis títulos. Quando você vence muito, há uma espécie de fastio de vitórias. O jornalista Mário Filho dizia que a vitória é uma doença que só a derrota cura. Estamos num período de remodelar o time, mesclando jogadores da base com atletas mais experientes. Dentro desse processo de adaptação, essa nossa posição no Campeonato Brasileiro, se não é a que o torcedor quer, é a que gente imagina que poderíamos conseguir.

ESTADO – Qual é a avaliação do trabalho do Claudinei Oliveira. Ele fica para 2014?
ODÍLIO –
Ele tem um carinho e uma convivência muito boa com os jogadores jovens e depois conseguiu criar um ambiente bom com os atletas mais velhos. Ele faz um bom trabalho, mas ainda estamos fazendo o planejamento para 2014 e vamos apresentá-lo na próxima semana ao Comitê de Gestão. Estamos fazendo uma série de análises e só então teremos uma ideia melhor do planejamento de 2014 com relação à comissão técnica e plantel.

ESTADO – Ainda existe a possibilidade de o Marcelo Bielsa ser contratado?
ODÍLIO –
O Santos acalentou o sonho de trazer o Bielsa ou algum treinador da chamada “Escola Bielsa”. Fizemos um esforço muito grande para trazê-lo, mas o Bielsa é muito minucioso e só trabalha em cima de um projeto. Infelizmente não chegamos a um acordo por causa das exigências dele. Ele, por exemplo, só trabalha com 18 jogadores e queria que os atletas ficassem o dia inteiro no CT e dormissem lá. É uma mudança de cultura que precisaria ser feita com cuidado, e no futebol a torcida tem pressa. Também conversamos com o Tata Martino, fomos até a Argentina para fechar com ele, mas aí apareceu o imponderável, que foi o Barcelona. Hoje, voltar a falar em contratar o Bielsa é mais difícil.

ESTADO – O Barcelona anunciou que comprou o Neymar por 57 milhões de euros (R$ 170,7 milhões) e depois disse que o valor, na verdade, era 65 milhões (R$ 194,7 milhões) porque 8 milhões (R$ 23,9 milhões) foram pagos para garantir a preferência na contratação de outros três jogadores. O Santos, no entanto, alega que recebeu apenas 17 milhões de euros (R$ 50,9 milhões). Afinal, por quanto o Neymar foi vendido?
ODÍLIO –
A primeira oferta do Barcelona foi de 16 milhões de euros (R$ 47,9 milhões), pagos em cinco anos. Depois de muita negociação, fizemos quatro contratos com o Barcelona. O primeiro de transferência do Neymar, no valor de 17,1 milhões de euros (R$ 51,2 milhões). Desse valor, 40% foram transferidos para a DIS e 5% para a Teisa. Depois, teve um outro contrato de 2 milhões de euros (R$ 5,9 milhões) caso o Neymar, no período em que estiver no Barcelona, seja indicado entre os três melhores jogadores do mundo pela Fifa. Desse valor, também são 40% para a DIS e 5% para a Teisa. Fizemos ainda um convênio com o Barcelona de troca de informações e tecnologia. Podemos mandar nossos técnicos da base para lá e vice-versa. Nesse contrato, eles têm preferência, em condições de igualdade, sobre três jogadores nossos e foi atribuído o valor de 7,9 milhões de euros (R$ 23,6 milhões), que o Santos também recebeu. E o Santos contratou também dois amistosos. O primeiro lá e o segundo será aqui. Não podendo realizar o segundo jogo, o Santos receberá 4,5 milhões de euros (R$ 13,4 milhões).

ESTADO – Mas por que a diretoria do Barcelona disse logo de cara que gastou 57 milhões de euros no Neymar?
ODÍLIO – Isso criou uma confusão danada. O Comitê de Gestão do Santos notificou o Barcelona exigindo explicação para quem ele pagou esses 57 milhões de euros. Recebemos uma carta deles confirmando que a nós foram pagos 17,1 milhões e que receberemos mais 2 milhões se o Neymar for indicado entre os melhores do mundo. A Fifa também questionou o Barcelona. Temos a cópia da resposta para a Fifa que diz a mesma coisa. Se o Barcelona gastou 57 milhões de euros e para quem foi o restante do dinheiro, o conselheiro do Barcelona é que tem de perguntar para o presidente do Barcelona. A gente até tem ideia que tenha ido de comissão para gente que estava trabalhando para eles na negociação, mas não sabemos para onde foi a diferença.

ESTADO – Como está a renovação do contrato do Neílton, nova joia da base?
ODÍLIO –
A gente fez uma proposta uniformizada para os garotos da base e renovamos com Alison, Jubal e Leandrinho. Quando a gente conversou com o representante do Neílton, fizemos a mesma proposta, mas ele falou que os outros meninos estavam ganhando mais. Mostramos os outros contratos e ele viu que era tudo igualzinho, inclusive com alguns gatilhos, estimulando a performance do atleta. O empresário disse que tinha pensado em um valor bem mais alto. É uma negociação difícil, mas estamos na expectativa de ele ter bom senso e responder. Se ele não aceitar, cumpre contrato até maio.

ESTADO – O Santos planeja construir um novo estádio em Santos?
ODÍLIO –
Não dá para os grandes clubes ficarem sem arena. É uma receita importante. Depois da Copa, o Santos será o único clube grande de São Paulo sem arena. Pela origem do clube, o local ideal seria Santos, mas lá não tem terreno. Na Baixada, participamos de dois estudos, com duas empresas diferentes, mas na hora que fechar o negócio não conseguimos. A arena precisa ter um shopping e escritórios e as taxas de retorno eram mais baixas do que o mercado esperava, então não conseguimos atrair o investidor.

ESTADO – O Pacaembu, então, surge como uma possibilidade?
ODÍLIO –
Nossa maior torcida é em São Paulo e o Santos precisa estar próximo da sua torcida. Então surgiu a possibilidade do Pacaembu. A Prefeitura vai lançar uma licitação e se perguntarem se o Santos quer o usar o Pacaembu e ter o estádio como segunda casa, a resposta é: “Queremos, sim, com muito prazer”. A Vila é nossa casa, nossa sede, mas podemos fazer uma reforma e deixá-la como um estádio-boutique, fazer um restaurante temático e ampliar o memorial. A Vila passará a ser um estádio para eventos menores e a gente vai jogar no Pacaembu, perto de uma grande massa. O Santos não iria investir um centavo, a gente não tem essa condição, mas podemos entrar com um investidor. A gente tem de pensar grande, ter um estádio maior. O Pacaembu é muito bem localizado e o santista gosta.

ESTADO – A participação da Teisa no Santos vai mudar?
ODÍLIO –
Lá atrás, a Teisa adiantou R$ 16 milhões e ajudou o Santos na participação de alguns jogadores. Hoje, ela tem participação no Mena, Cicinho e Arouca, mas isso pode ser ampliado No dia 29 deste mês, a Teisa vai apresentar um modelo novo, em que ela pode comprar jogador para ela ou para outro clube. O Santos tem a preferência e, se não quiser, ela pode emprestar para outro.

ESTADO – Após o afastamento do Luis Alvaro da presidência por problemas de saúde, o senhor remodelou a administração do clube. Quanto já foi economizado com essas mudanças?
ODÍLIO –
A gente está fazendo uma racionalização no custo administrativo do Santos. Quando você faz isso, você privilegia o futebol. Estamos remodelando o organograma do clube e diminuindo alguns salários. Desde janeiro, 39 pessoas já saíram e 15 entraram. Estamos trabalhando com menos pessoas e salários menores. Isso nos dá uma economia de R$ 550 mil por mês.

ESTADO – Quem são esses novos funcionários do clube?
ODÍLIO –
O Santos está investindo muito na profissionalização. Acabamos com a figura do diretor, que é um servidor voluntário e vai lá quando pode. Os tempos modernos não permitem mais isso. Reformulamos o estatuto, algo que considero um grande avanço. O presidente e o vice são eleitos e o Conselho Deliberativo é eleito por proporcionalidade. Assim, conseguimos democratizar o órgão. Entre os conselheiros, sete são escolhidos para formar o Comitê de Gestão junto com o presidente e o vice. O restante é tudo profissional. O Santos acredita em uma gestão colegiada e aposta muito nesse modelo. O clube não depende mais da cabeça de uma única pessoa.

ESTADO – Para o orçamento do clube é fundamental se classificar para a Libertadores de 2014?
ODÍLIO –
O orçamento do Santos é feito apenas em cima de receitas recorrentes. O clube não conta com itens como premiação e venda de jogadores porque isso pode acontecer ou não, mas é evidente que se você conquista títulos, você valoriza a marca. É importantíssimo fazer um bom Campeonato Brasileiro e ir para a Libertadores, porque isso faz a diferença.

ESTADO – O senhor é candidato à reeleição no próximo ano?
ODÍLIO –
Não temos interesse em antecipar o processo eleitoral. Quando se faz isso, você perde o foco da gestão. Existe um conflito no estatuto se eu posso ou não ser candidato, mas não tenho nenhum interesse em abrir essa discussão agora. Isso é a Comissão de Estatuto que tem de decidir e não posso falar sobre isso agora. Ano que vem estarei livre para pensar em eleição.

ESTADO – Como o senhor analisa o Bom Senso FC?
ODÍLIO –
O Santos já emitiu um comunicado de apoio aos jogadores. O clube saiu na frente lá atrás, quando fez um estudo sobre o calendário. Ninguém tem uma solução única, existem várias opções. Mas existem dois caminhos muitos importantes, que precisam ser discutidos. Uma alternativa é fazer uma mudança completa e se adequar ao calendário europeu, começando os campeonatos em agosto e terminando em junho. A segunda é mexer menos e mudar só os Estaduais, que eu acho a mais viável. O Santos está disposto a participar do debate, mas antes de qualquer coisa é fundamental que se reconheça que os atletas precisam ter 30 dias de férias e mais 30 dias de pré-temporada.

ESTADO – O senhor é a favor de que os clubes criem uma liga própria?
ODÍLIO –
Acho que a CBF devia lidar só com a seleção e os clubes deveriam ter uma forma de representação mais autônoma. O modelo da Uefa é perfeito. Lá, os clubes têm uma representação, um presidente e negociam com os patrocinadores. É um modelo de sucesso de gestão.

ESTADO – Como o Santos se posiciona no atual quadro político do futebol brasileiro? O clube está do lado de José Marin e Marco Polo Del Nero ou de Andrés Sanchez?
ODÍLIO –
É preciso esperar e deixar mais claro quem serão os candidatos para a sucessão da CBF e quais são as suas propostas. Por enquanto tem muita especulação. É preciso deixar o processo po
lítico amadurecer mais e, quem sabe, surgirem mais opções.

Por Cleber Aguiar – Entrevista – Juvenal Juvêncio para Folha de São Paulo

Fonte: Folha de São Paulo

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Eu troquei o planejamento por um choque

PRESIDENTE DO SÃO PAULO DIZ ACREDITAR QUE ESTILO DE MURICY PODE TIRAR TIME DA CRISE

BERNARDO ITRI DO PAINEL FC

O presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, decidiu na madrugada de domingo para segunda-feira que precisava trocar de treinador.

Precisou, segundo ele, de dois minutos de conversa para contratar Muricy Ramalho, a quem diz ter ordenado: “Vá lá e resolva”. À Folha, o cartola admitiu erros estratégicos de sua gestão na contratação e demissão de treinadores e disse ter confiança em uma reação do time.

Folha – Como foi sua decisão de trocar de treinador?
Juvenal Juvêncio – É uma situação dolorosa. Mas, num dia, eu via o semblante ruim das pessoas. No outro, também. Essas coisas começaram a se repetir. E eu sem poder contratar, com os mercados fechados. Comecei a temer que, se esperasse mais, pegaria o bonde ladeira abaixo. E queria pegá-lo no planalto. Então resolvi que o time precisava, emergencialmente, de um choque. E o Muricy tem esse jeito mais sanguíneo. Troquei o planejamento por um choque. Resolvi isso num telefonema.

A diretoria não admite haver risco de rebaixamento. Essa troca de técnico mostra que agora há o temor de cair?
Eu já vi isso [queda de divisão] com outros. Já acompanhei, de longe, dramas de outros. Eu não queria passar por isso. Eu queria algo que salvasse a minha honra. Precisava quebrar o diapasão que indicava um quadro ruim, precisava respirar. Ter só duas vitórias [Paulo Autuori venceu apenas duas vezes com o time no Brasileiro] é uma indicação ruim.

Qual foi a orientação para Muricy agora?
Falei para ele: “Você sabe quem está jogando, quem está no banco de reservas. Você conhece tudo lá dentro, a cozinheira, o roupeiro… Vá lá e resolva!”.

Nos últimos anos o São Paulo trocou muito de treinadores. Neste ano demitiu Ney Franco, agora trocou Paulo Autuori por Muricy. O senhor considera que foram cometidos erros neste percurso?
Houve erros ao longo do tempo. Mas temos uma situação complicada. Há uma carência de grandes técnicos no Brasil. Tem técnicos que não têm o perfil da torcida, do clube. Arriscamos com o Adilson Batista [em 2011]. Depois tivemos um cidadão ótimo [Autuori], mas a torcida preferia outro [Muricy].

O senhor acredita que se tivesse contratado Muricy há dois meses, no lugar de Autuori, a situação hoje seria diferente?
É um processo de adivinhação pensar nisso. Mas o estilo do Muricy, mais impetuoso, poderia mexer antes. Talvez ele já tivesse colocado uns dois na rua.

Muricy poderá reintegrar Lúcio, afastado do elenco?
Ele vai decidir quem escalar ou colocar no banco. A diretoria faz seu papel.

A disputa política atrapalha?
Isso é negativo para o clube agora. Alguns já se lançaram candidatos e já morreram. Nós [da situação] fazemos do nosso jeito. Vamos ter um único candidato.

Por Cleber Aguiar – Entrevista do Técnico Oswaldo Oliveira ao Estadão.

Fonte: O Estado de São Paulo

O mentor do milagre em General Severiano, a casa do Botafogo

Entrevista: Oswaldo de Oliveira – Técnico conduz bem um elenco abalado pelos atrasos de salário

Silvio Barsetti – O Estado de S.Paulo

RIO – Campeão da Taça Guanabara e da Taça Rio, o que o levou ao título estadual sem precisar de uma final, líder do Brasileirão até o início da rodada que terminará neste domingo, quando enfrentará o Atlético-PR fora de casa, e em situação privilegiada na Copa do Brasil: eis o Botafogo dirigido por Oswaldo de Oliveira, técnico que consegue a proeza de manter sua equipe no topo mesmo com problemas crônicos de atraso de salários. Em entrevista exclusiva ao Estado, concedida na noite de sexta-feira, o treinador contou como essa façanha é possível, mas também falou sobre sua carreira e sobre seleção brasileira, entre outros assuntos.

ESTADO – Como conciliar salários atrasados com um rendimento que credencia o Botafogo a candidato ao título brasileiro?
OSWALDO – São inúmeros detalhes. Passa pelo nível dos profissionais da comissão técnica e dos jogadores. Há um encontro muito feliz no Botafogo entre pessoas e personalidades. Em conjunção, buscam o mesmo objetivo. Não há segredo. Para ser vencedora, uma equipe não depende de uma comissão técnica competente e de um time de qualidade. Precisa disso, claro, mas também de muita humildade, muita entrega, de se doar para que haja essa combinação e o vento sopre a favor.

ESTADO – Quando começou essa mudança?
OSWALDO – No ano passado, quando houve um processo seletivo de contratação de jogadores e outros profissionais. Fomos muito felizes com a permanência de alguns atletas, entre os quais Jefferson, Marcelo Mattos e Rafael Marques, e com a chegada de outros, como Bolívar e Julio Cesar, por exemplo.

ESTADO – É um momento novo para o Botafogo, com tantos jogadores formados em casa?
OSWALDO – É fruto de um investimento mais recente do clube. Quando cheguei ao Botafogo, em dezembro de 2011, depois de cinco anos no Japão, vi que havia um trabalho bem desenvolvido na base. Aos poucos, fomos incorporando ao grupo alguns desses valores e os resultados começam a surgir.

ESTADO – Vitinho parece cada vez mais à vontade no clube, com desenvoltura de um veterano…
OSWALDO – No ano passado, a gente percebia o potencial dele, mas era muito instável ainda. Não conseguia discernir o momento do chute, do drible, de buscar se posicionar bem. Ele foi aprendendo, aceitando as orientações e se desenvolvendo. Não é surpresa para nós que esteja causando tanto sucesso. Mas ainda está numa fase preliminar, eu diria. Não tem a mesma constância que Dória e Gabriel, outros criados na base do clube.

ESTADO – E qual o papel de Seedorf nessa transformação do Botafogo?
OSWALDO – Ele é diferente. Não estamos acostumados a ver nada parecido aqui no futebol brasileiro, não temos referência para lidar com esse perfil. Tem experiência de sobra, jogou por grandes equipes da Europa, conquistou títulos muito importantes, é um vencedor nato, altamente cuidadoso e atento. Ele se importa com tudo, procura auxiliar o tempo todo. Mas, acima de tudo, mantém uma disciplina, uma obediência, quase que militar.

ESTADO – Até que ponto há uma dependência de Seedorf no Botafogo?
OSWALDO – O jogo da última quinta-feira (vitória sobre o Atlético-MG) responde isso. Ele não atuou e o Botafogo fez uma grande partida. O time já teve outras ótimas atuações sem a presença dele. Claro que o Seedorf acrescenta. Aos 38 anos, com sua exuberância física, técnica e, sobretudo, tática, ele acaba tendo uma influência inquestionável na equipe. Sem deixar de lado que se trata de uma atração midiática. Mas temos no grupo o zagueiro Bolívar, com muita representatividade também. Temos o Jefferson, não menos influente, mas de outro modo, do jeito dele.

ESTADO – Você é um técnico vitorioso, tendo até sido campeão do mundo em 2000, pelo Corinthians. Desde então, o que mudou no seu modo de ver o futebol?
OSWALDO – Muita coisa, a gente aprende algo a cada dia. A minha experiência anterior como preparador físico foi fundamental para a minha vida como treinador. Passei a ser mais criterioso nos últimos anos. Cada vez mais transferindo o foco para as competições, para a temporada. Tive uma passagem muito boa no Japão, onde ganhei nove títulos em cinco anos.

ESTADO –Tem um salão de troféus em casa?
OSWALDO – Nem tantos troféus, mas muitas medalhas, fotografias de jornais, revistas e trouxe um arquivo vivo dos meus cinco anos de Japão: tenho os 250 jogos que comandei lá em DVDs.

ESTADO – Muito se diz que para ser campeão brasileiro não basta ter um time, é preciso de um elenco, de um grupo forte. Como o Botafogo se encaixara nessa lógica?
OSWALDO – Se você for fazer uma análise de momento, há hoje clubes como Internacional, Fluminense, Atlético-MG, Cruzeiro e Corinthians com grupos fortíssimos, de jogadores muito conhecidos. Mas, por outro lado, o trabalho desenvolvido no Botafogo nos permite achar um ponto de equilíbrio.

ESTADO – Com o campeonato próximo da metade, já dá para apontar os favoritos ao título?
OSWALDO – Esse Brasileiro não é um campeonato de time. É de elenco. É muito difícil sobreviver na competição, especialmente neste ano, com a Copa das Confederações, e também vai ser assim no ano que vem, com a Copa do Mundo, sem um grupo forte. Então, a gente por um lado tem os elencos formados, com firma reconhecida e patenteados. E do outro, no nosso caso, a expectativa de que mais garotos apareçam e outros em quem apostamos cresçam. Ainda há, na minha opinião, vários favoritos. Pode surgir um clube que venha atropelando todo mundo. Acho que pode acontecer com os outros três cariocas, com o próprio São Paulo ou o Atlético-MG, sem contar os que já estão ali no alto da tabela. Faltam 69 pontos ainda.

ESTADO – A ida de Neymar para o futebol espanhol sinaliza que o Brasil não tem condições de segurar seus craques?
OSWALDO – Ele é um caso extra. Daqui a dez anos, vamos considerá-lo um dos dez melhores jogadores de todos os tempos do Brasil, mas acho que o futebol brasileiro tem se esforçado para manter aqui os grandes nomes. Perdemos também o Paulinho (ex-Corinthians), mas não vejo a saída do Neymar como uma ruptura nesse processo, lento, de permanência de nossos craques no País.

ESTADO – A seleção brasileira é a grande favorita para a Copa do Mundo de 2014?
OSWALDO – Se me perguntasse antes da Copa das Confederações, eu diria que não. Mas, depois, a confiança cresceu absurdamente. Somos, sim, os favoritos. Aquele descrédito com o ranqueamento da Fifa abateu muita gente, mas aquilo é muito estranho. Uma coisa é o técnico reunir os jogadores por dois dias e enfrentar a Inglaterra. Agora, se há tempo, foi o que se viu na Copa das Confederações, quando não deixamos jogar o badaladíssimo time da Espanha.

ESTADO – Você seria candidato a técnico da seleção depois da Copa do Mundo?
OSWALDO – Existem muitos grandes treinadores no País. Vamos ver o que vai acontecer. Eu já fui cotado duas vezes. Sinceramente, isso é algo que não me seduz, embora ninguém possa negar que esse é um trabalho bem específico e de excelência.

ESTADO – Recentemente, sua esposa, a atriz Jeniffer Setti, usou as redes sociais para criticar o Botafogo. Ela falou sobre o atraso nos salários e a necessidade de reforços. A repercussão daquelas declarações teve algum efeito?
OSWALDO – É melhor esquecer isso, botar um peso em cima. Quando o Botafogo está bem, qualquer coisa ganha uma dimensão negativa incrível.

ESTADO – Mas o atraso nos salários afeta bastante o grupo, não é?
OSWALDO – Claro que afeta, afeta muito. Ninguém está satisfeito com isso, todos nós reclamamos. Estaríamos muito mais tranquilos se os salários estivessem em dia. Sei e vejo que existe um esforço dos dirigentes para tentar resolver a questão.

Por Cleber Aguiar – Entrevista co o Presidente Paulo Nobre do Palmeiras para o Estadão.

Fonte: O Estado de São Paulo

Sônia Racy – Direto da Fonte

‘Dirigente que contrai dívida tem de ser responsabilizado civilmente’

Foto: Paulo Giandalia/Estadão

O presidente do Palmeiras sabe que corre contra o tempo para sanear as finanças do clube. No horizonte, a primeira divisão e o novo estádio no ano do centenário

Segundo presidente mais jovem da história do Palmeiras, Paulo Nobre, 44 anos, tem um desafio e tanto pela frente. Chegar a 2014, quando o clube completa seu centenário, com mais fontes de receita para começar a abater uma dívida estimada, hoje, em R$ 300 milhões.

Como? Investindo no programa de sócio-torcedor, em marketing e na capacidade do novo estádio, o Allianz Parque, que será entregue no segundo trimestre do ano que vem.

Fã de ralis (já foi campeão em diversas modalidades e disputou o Dakar), este advogado paulistano, cujo apelido ao volante é Palmeirinha, sabe bem o que é correr contra o tempo. Afinal, no Palestra, o mandato de presidente é de apenas dois anos.
A experiência como dono de fundo de investimentos tem ajudado. E até parte da oposição (sempre feroz pelos lados do Parque Antártica) anda positivamente interessada nos rumos que Nobre tenta dar ao Verdão.

Em seu dia de 12 horas entre reuniões e planilhas (a maioria delas desalentadora), ele encontrou uma brecha para conversar com a coluna na Academia.

A seguir, os melhores momentos do bate-bola.

Você disse, recentemente, que o Palmeiras ainda não entrou no século 21. Por que?

Porque o Palmeiras ganhou o título de “campeão do século 20” e se orgulhou muito disso. Só que também se abraçou a isso. Já estamos na segunda década do século 21. É muito bom ter um passado glorioso, mas é preciso pensar no presente e no futuro. Como um clube como o Palmeiras, em 2013, tem sistema operacional DOS nos computadores? É piada. Quer outra? Os departamentos não se comunicam. Às vezes, duas equipes estão fazendo a mesma coisa e não sabem. Olha o gasto de tempo! O Palmeiras não tem processo, é uma bagunça. Não sabe agir como aquele jogador mais velho, que vai pelos atalhos do campo, sabe? Por que o Seedorf joga o que joga até hoje? Porque não corre à toa. É questão de processo. Por isso eu digo que o campeão do século 20 ainda não entrou no século 21. Mas vai entrar.

Qual a grande dificuldade, hoje, do Palmeiras?

O clube está há alguns anos num quadro de geração de prejuízo todos os meses. O que você tem de fazer antes de tudo? Reverter a tendência. Para isso, você precisa gerar receita e cortar despesa. É o que estamos fazendo, respeitando duas premissas básicas: o futebol não pode perder a competitividade e você não pode deixar o clube social parar.Muitos conselheiros palmeirenses reclamam que o grande problema é a desunião, todo mundo briga com todo mundo.Eu comparo o Palmeiras com o período que antecedeu o Primeiro Reich alemão. Um monte de feudos que brigavam entre si. Quando se juntaram, se tornaram uma potência.

Há como unir o Palmeiras?

Lógico, mas você precisa despolitizar certas coisas, parar de lotear a diretoria para ganhar uma eleição. E, depois de ganhar a eleição, ter a liberdade de chegar em qualquer grupo, inclusive na oposição, e escolher as melhores cabeças para ajudar a administrar.

Está conseguindo fazer isso?

Meu diretor financeiro fazia parte da chapa da oposição. Por que eu o escolhi? Porque ele é bom, eu confio nele.

A imprensa atrapalha?

O problema é que muita gente usa a imprensa para lavar a roupa suja do clube. O foro para isso é o Conselho Deliberativo. Além disso, o vazamento de certas informações para o chamado grande público nem sempre ajuda. Até porque pressão externa não muda nada. Eu estou na política do Palmeiras há 16 anos. Quando a gente caiu para a segunda divisão em 2002, a pressão externa foi imensa, muito maior do que agora. E não mudou uma vírgula. A mudança tem de partir de dentro, nunca de fora. O conselheiro tem de se conscientizar de que roupa suja se lava em casa. E tem de lavar! As pessoas precisam ter a liberdade de criticar, de falar o que pensam. E quem está no poder tem de aceitar crítica. Se não aceita, está no lugar errado.

As críticas têm ajudado?

Muito.

Qual o papel do Mustafá Contursi na administração do clube?

O Mustafá é membro nato do Conselho de Orientação e Fiscalização (COF), conselheiro vitalício, líder político, uma pessoa muito crítica e de opiniões contundentes. Mas, até agora, eu só tenho a agradecer o Mustafá. Sempre que precisei dele, esteve presente, deixando claro que não quer influenciar na administração. Eu digo a ele: “Presidente, fique tranquilo. Toda vez que o convoco, é porque acredito que o senhor tem experiência para ajudar”. Mas eu ouço muita gente, são opiniões que norteiam a minha decisão.

Muita gente diz que o COF atravanca a administração.

Muito pelo contrário. Ele é o órgão de fiscalização do clube e exerce a sua obrigação estatutária. Sempre que eles fiscalizam, fazem o papel que se espera deles.

O Roberto Frizzo (vice de futebol do Palmeiras na gestão do ex-presidente Arnaldo Tirone) está voltando à vida política do clube. Como você vê isso?

Com naturalidade. Ele, e quem quiser no Palmeiras, tem todo o direito de militar politicamente no clube.

Em relação ao estádio, quanto ele será capaz de ajudar a desafogar as contas do Palmeiras?

Primeiro, os custos com a manutenção do estádio deixam de existir quando ele estiver pronto, algo que deve acontecer no segundo trimestre. O Palmeiras tem participação (em vários graus) nas receitas que a arena gerar. Além disso, teremos entre 33 mil e 34 mil cadeiras. Esta, sim, será uma fonte de receitas importantíssima. O caminho para que o clube saia do cenário em que se encontra está aí.

Mas os preços dos ingressos vão subir, haverá uma elitização?

É natural que isso aconteça. Até por todo o serviço que será oferecido aos torcedores.

E como ficam as torcidas organizadas? Porque elas fazem muita pressão política no clube.

Nossa obrigação é financiar um time competitivo. Haverá, claro, áreas mais populares, mas menores. Quem terá vantagem, sempre, será o sócio-torcedor. Não digo garantia de ingresso, porque teremos mais sócios-torcedores do que lugares no estádio, mas prioridade sobre qualquer outro torcedor. E é muito justo, porque ele é 100% comprometido com o clube, ajuda a financiar o Palmeiras, participa de fato.

O Palmeiras tem hoje quantos sócios-torcedores?

Quando eu assumi o cargo, eram 8.700. Agora, seis meses depois, estamos com 30 mil.

Qual a meta?

Olha, o Inter de Porto Alegre tem mais de 100 mil sócios-torcedores. Eu tenho uma inveja positiva do Inter. Admiro quem faz um trabalho bem feito. E a nossa torcida é muito maior que a deles. Aliás, justiça ao Grêmio também. Inter e Grêmio são os melhores exemplos no Brasil de como fazer um programa de sócio-torcedor. A gente aqui no Palmeiras olha muito para exemplos como esses. E temos a humildade de copiar o que dá certo.

Como está a busca pelo patrocínio master para o time?

As empresas todas fecham o budget de patrocínio para o ano seguinte no mês de setembro. E nós assumimos em janeiro. Além do mais, a gente não pede R$ 2 milhões, pede o que vale a marca Palmeiras. Mas, para o ano que vem, a chance de conseguir é imensa.

É a favor do Proforte, programa de reestruturação das dívidas dos clubes que está para ser enviado ao Congresso como medida provisória?

Sou 100% a favor. Desde que não se brinque com dinheiro público. Como futebol é quase uma religião nacional, acho que o governo pode ter um pouco de compreensão com a situação dos clubes. Mas só se passar a régua e começar vida nova. Precisa haver punições muito severas aos clubes que voltarem a contrair dívidas. Fez dívida, perde ponto no campeonato, cai de divisão. E, principalmente, os dirigentes têm de ser responsabilizados na sua pessoa física. Criminalmente e civilmente, para doer no bolso. Sou a favor, desde que a ajuda venha junto com as regras. Porque é muito fácil dirigente populista adiantar receitas de várias gestões futuras para tentar, na sua administração, ganhar títulos e sair bonitão na foto. Só que, depois, a instituição fica enterrada em dívidas por anos.

É a favor da Copa?

(pensa um pouco) Sou, mas, de novo, acho que não se pode brincar com dinheiro público. Acredito que algumas arenas do torneio custaram caro demais e também que a iniciativa privada deveria ter participado mais do projeto do Mundial.

Sua experiência como dono de fundo de investimento ajuda no dia a dia como presidente do Palmeiras?

Ah, sim. Claro que é preciso fazer adaptações, mas, por exemplo: eu estou tentando implementar um sistema de produtividade no ‘bicho’. Em vez de ser um ‘bicho’ mais substancial a cada jogo, vai ser bem pequenininho. Atingido um objetivo, ele se multiplica. É legal, para mostrar ao jogador que a gente está no mesmo barco, vamos ganhar juntos.

Voltando à primeira divisão no ano do centenário, haverá investimentos no time?

O Palmeiras não será refém do ano de seu centenário. Pode escrever isso: eu não vou fazer loucuras para ter um time capaz de ganhar tudo. A gente já viu isso acontecer em vários clubes. Dá uma dor de cabeça danada e prejuízo. O Palmeiras tem de ser competitivo todos os anos, não apenas no ano do centenário. Nossa equipe é boa, tem raça e respeita a camisa do Palmeiras. Algumas contratações pontuais podem vir a acontecer, caso a comissão técnica julgue necessário. Mas a ideia é ter esse grupo mais entrosado ainda no ano que vem.

Ser o segundo presidente mais jovem da história do clube ajuda ou atrapalha?

Acho que é uma questão de quebra de paradigma. Fui eleito com 44 anos, num meio em que as pessoas se acostumaram a ver dirigentes sempre com mais de 60.

Quantas horas tem o seu dia como presidente?

No mínimo 12 horas.

E vida pessoal?

Não existe. (risos) Meu grande hobby era correr rali, e não sei nem o resultado do mundial. A única certeza é que o campeão do mundo de rali vai ser um palmeirense, o francês Sébastien Ogier.

Ele é palmeirense?

Desde que eu dei uma camisa do Palmeiras para ele, virou palmeirense. Mas voltando à pergunta sobre vida pessoal, o problema é que não dá tempo de fazer mais nada. Eu realmente me preparei, durante a campanha à presidência do Palmeiras, para passar dois anos aqui. Quando é possível, tiro o domingo de folga. Aí, hiberno em casa. E sabe de uma coisa? Nunca dei tanto valor a chegar em casa. Aprendi que o problema de amanhã você resolve amanhã. Não adianta ir dormir pensando no problema, porque você vai dormir mal e, no dia seguinte, resolver mal o problema. Ainda bem que minha namorada é compreensiva e está sabendo administrar a situação. Ela é muito parceira. Até o pessoal da diretoria tem agradecido muito a ela. /DANIEL JAPIASSU