Por Cleber Aguiar – ‘Cristiano Ronaldo não vai resolver todos os problemas’, diz técnico de Portugal

Fonte: O Estado de São Paulo

Paulo Bento se rende ao craque do Real Madrid, mas avisa que não adianta esperar que o atacante jogue sozinho

Raphael Ramos – O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO – Alvo de uma brincadeira de 1.º de abril do jornal Record, que publicou que a lista de convocados para a Copa foi esquecida num guardanapo de restaurante, o técnico português Paulo Bento faz mistério sobre quem serão os 23 escolhidos. Só há uma certeza: para fazer a sua melhor campanha no Mundial, superando o terceiro lugar de 1966, Portugal depende – e muito – de Cristiano Ronaldo. Mas o treinador evita colocar tanta responsabilidade nas costas do melhor jogador do mundo. “Ninguém pode esperar que faça as coisas sozinho”, diz em entrevista ao Estado.

Paulo Bento está otimista com Portugal - Brian Snyder/Reuters

ESTADO – Portugal possui grande número de torcedores no Brasil. Como isso pode ajudar a seleção?
PAULO BENTO –
Os portugueses sentem-se em casa no Brasil, tal como os brasileiros se sentem em casa em Portugal. Isso deve-se não só à grande comunidade de portugueses e brasileiros que vivem no chamado “país irmão”, mas também porque há ligações históricas e culturais fortíssimas entre os dois povos. É normal que por isso estejamos muito entusiasmados com o apoio que acreditamos que vamos ter no Mundial, não só dos portugueses e descendentes, mas também dos brasileiros que obviamente vão torcer pela sua seleção acima de tudo, mas que por certo nos vão acolher. Já temos sentido esse carinho e esse apoio nas visitas que fizemos ao Brasil.

ESTADO – Na sua opinião, quem são as seleções favoritas ao título?
PAULO BENTO –
Num Mundial tudo pode acontecer, mas acho que pela qualidade futebolística, pela tradição e pela história, podemos afirmar que Brasil, Alemanha, Espanha e Argentina têm alguma dose de favoritismo.

ESTADO – O senhor acredita que teremos alguma inovação tática ou técnica na Copa do Mundo?
PAULO BENTO –
As equipes que estão no Mundial chegaram à competição através de um processo. Para se qualificarem, esse processo teve de ser bem-sucedido. Por isso, acho pouco provável que os técnicos mudem em pouco tempo processos que porventura estão treinados e preparados há bastante tempo. Mas como na preparação para o Mundial vamos ter entre três a quatro semanas de trabalho, o que só acontece antes da Eurocopa e da Copa do Mundo, é possível que sejam introduzidas algumas inovações ou aperfeiçoamentos táticos.

ESTADO – Na sua opinião, Neymar está no mesmo nível de Messi e Cristiano Ronaldo e poderá ser eleito o melhor jogador do mundo?
PAULO BENTO –
Essas classificações fazem mais sentido como fruto do interesse jornalístico e mediático. Os momentos de forma ditam muito o trabalho das equipes nas quais os jogadores estão integrados. Até lesões ou problemas físicos podem influir em classificações e rankings. O fundamental é que todos sabemos que o Brasil tem, com certeza, alguns dos melhores jogadores do mundo.

ESTADO – O senhor enfrentou recentemente Camarões, adversário do Brasil na Copa do Mundo. Quais foram as suas impressões sobre o time de Camarões?
PAULO BENTO –
O resultado foi muito favorável (5 a 1), mas não quer dizer que Camarões seja uma equipe menos forte. Têm valores individuais de grande qualidade e consegue criar dificuldades a qualquer adversário.

ESTADO –Portugal disputará dois jogos às 13h. O calor preocupa?
PAULO BENTO –
As condições serão iguais para as duas equipes em campo. Estou confiante que saberemos estar preparados para todas as condições que viermos a encontrar. Há locais mais quentes, mais úmidos, outros mais frescos e secos, mas, sejam quais forem as condições, temos de estar preparados para dar o máximo, estando concentrados naquilo que podemos e devemos fazer.

ESTADO – Além do senhor, mais dois treinadores portugueses estarão na Copa. O desempenho de Portugal, Grécia (Fernando Santos) e Irã (Carlos Queiroz) pode transformar os treinadores portugueses em referência mundial?
PAULO BENTO –
É um motivo de satisfação e orgulho para os portugueses que três técnicos do nosso país estejam no Mundial. Somos treinadores de gerações diferentes, com ideias diferentes, mas que demonstramos que os treinadores portugueses têm muita qualidade e são reconhecidos em todo o mundo. Espero que sejamos felizes na nossa participação.

ESTADO – Portugal enfrentou dificuldades nas Eliminatórias e se classificou apenas na repescagem. Em qual nível a seleção chegará à Copa do Mundo?
PAULO BENTO –
Espero que consigamos chegar nas melhores condições possíveis. Vamos ver como chegam os jogadores ao estágio de preparação, que começa no fim de maio. Depois vamos estabelecer um plano para que todos consigam chegar em condições ótimas à competição, tendo pelo meio três amistosos.

ESTADO – O que os torcedores podem esperar de Cristiano Ronaldo?
PAULO BENTO –
É natural que esperem muito porque ele é um jogador capaz de fazer coisas fantásticas, mas sempre tenho dito que apesar de ele ser extremamente importante para nós, não espero e ninguém pode esperar que faça as coisas sozinho. Temos de jogar como uma equipe que pode e deve aproveitar as melhores qualidade de cada um.

ESTADO – O senhor concorda com a avaliação de que o futuro de Portugal na Copa depende de Cristiano Ronaldo?
PAULO BENTO –
Repito o que disse anteriormente. Ele é muito importante para nós, mas não esperamos que resolva todos os problemas que os adversários nos vão colocar.

ESTADO – Qual é a sua expectativa para a estreia com a Alemanha, uma seleção que conta com uma das melhores gerações de sua história e está cotada para o título?
PAULO BENTO –
Vai ser um jogo muito difícil, contra umas das sempre candidatas ao título. Já jogamos contra eles no primeiro jogo da Eurocopa de 2012 e, apesar de termos perdido por 1 a 0, fizemos uma boa exibição. Esperamos repetir a boa partida, mas desejamos que o resultado não nos seja desfavorável desta vez.

Por Cleber Aguiar – Atentos e fortes

Fonte: O Estado de São Paulo

Ex-craque e sempre militante, Afonsinho pede vigor e intensidade contra preconceito em campo e declara:’Não dá mais para pôr panos quentes’

Mônica Manir – O Estado de S. Paulo

“Um momento, que doutor Afonso vai atender.” Doutor Afonso não atendeu de prima. Foi só na quarta ligação que ele se despiu do clínico geral para retomar o Afonsinho, engajado ex-craque do time do Botafogo. Ainda assim, demorou um pouco para entrar no jogo. “Aqui é fogo na roupa”, disse, expirando longamente ao telefone.

Armadilha em campo: torcedores jogam casca de banana em gramado durante partida de futebol  - Friso Gentsch/DPA
Friso Gentsch/DPA
Armadilha em campo: torcedores jogam casca de banana em gramado durante partida de futebol

Afonsinho está com 66 anos. Aposentou-se no ano passado, mas dá expediente três vezes por semana na Unidade de Saúde Manoel Arthur Villaboim, em Paquetá, RJ. Diagnostica gripe, hipertensão, diabete, erisipela e tem fôlego para outras mazelas da vida. O racismo, por exemplo, entrou em seu protocolo depois que três episódios praticamente seguidos enfeiaram os gramados do Brasil. Os insultos aos jogadores Tinga e Arouca e ao árbitro Márcio Chagas da Silva o levaram a concluir o seguinte: “Não dá para pôr panos quentes”.

Afonsinho se injuriou na quinta-feira com a pena branda dada ao Esportivo, que não perderá pontos nem será expulso do Campeonato Gaúcho, mesmo depois de o juiz anotar na súmula o que ouviu da arquibancada: “Volta para a selva, seu negro macaco, ladrão, safado, imundo. Temos que matar todos, seus negros sujos”. O clube terá de desembolsar R$ 30 mil. Para esse crítico contumaz do neoliberalismo, dinheiro não compra tudo. “Tem que punir o preconceito com o maior vigor possível e com muita intensidade.”

Quando jogador, Afonso Celso Garcia Reis conseguiu sua liberdade na Justiça. Foi um dos pioneiros do passe livre, e por esse motivo sentiu olhos tortos na sua direção, inclusive dos colegas de campo. A barba de matusalém também lhe fechou espaços entre as quatro linhas. Acabou por ser exilado no time do Olaria, período durante o qual terminou a faculdade de medicina. O meia-direita ainda atuaria no Flamengo, Santos, Vasco, América-MG e Fluminense. Sempre gostou de fazer política, mas se sentiu aliviado quando perdeu para deputado, na época da Constituinte. Acha que a bandeira do racismo pode ser uma para o Bom Senso Futebol Clube, “porque tem de lutar no profissional e no social”. Por isso ele participa de projetos no único campo de Paquetá, no qual reúne a garotada e os veteranos em torno do esporte que nasceu para agregar, não para discriminar.

A seguir, a entrevista desse pai de cinco filhos e avô de cinco netos. “Mas vai desempatar daqui a um mês”, avisa. Com filho ou com neto? “Poxa, agora você me deu uma moral legal.”

Você ficou surpreso com os últimos casos de racismo nos campos de futebol do País?

Afonsinho – O que chama a atenção é a frequência. Ela se acelerou. Mais que isso, ela se associou a outras manifestações de raiz semelhante. Aqui no Rio, outro dia, amarraram um camarada, um ladrão, no Aterro. Eu não sou de sofrer de véspera, mas acho que essas manifestações têm uma ligação e isso é muito preocupante, sim.

O brasileiro estaria perdendo o pudor de se mostrar racista?

Afonsinho – Não acho que esteja perdendo o pudor. Acho que isso faz parte de um conjunto de expressões. A gente também pode juntar a isso as brigas entre torcidas. Veja que o ano terminou de uma maneira horrorosa. E tudo é diretamente proporcional à baixa qualidade técnica do futebol. Quando o espetáculo é bom, isso não acontece. Eu me lembro dos melhores tempos do Flamengo, quando o time ganhou em Tóquio. A gente brincava que o chefe da torcida do Flamengo e todos os outros torcedores do time tinham ido estudar em Londres. Era um cavalheirismo, uma tranquilidade…

Diante do que aconteceu com o juiz Márcio Chagas da Silva, em Bento Gonçalves, o jogador Luís Fabiano teria questionado se era racismo de verdade ou se aquilo ‘era mera provocação’.

Afonsinho – Isso aí não procede. Existem resíduos, é racismo, sim. Não dá para pôr panos quentes. O esporte é um ambiente de lazer, de recreação, mas isso não permite que você o desassocie da questão social. É um espaço de expressão. Eu acho muito ruim a postura do Luís Fabiano. Procurar escapar, ficar fora… Acho muito ruim para ele mesmo como negro. E uma autonegação. Como disse o Tinga, “a gente fica fingindo que todos são iguais”.

O racismo em campo já foi muito pior?

Afonsinho – Não faz tanto tempo assim, existiam clubes só de negros e só de brancos no Brasil. Então eu acho que já foi pior, mesmo porque os recursos dos tempos modernos trazem mais informação e numa velocidade maior. E isso é um problema de esclarecimento, de conhecimento.

Como se pune o racismo?

Afonsinho – Com o maior vigor possível e com muita intensidade.

Você aprova que se fechem estádios, que os clubes percam pontos, que sejam expulsos de campeonatos?

Afonsinho – Sem dúvida, sem dúvida, é isso que chamo de ação vigorosa, que ainda não acontece, mas um dia pode acontecer. É rigor intenso, mas com zero ódio. Me preocupa a extensão. Propagar muito isso, e de qualquer maneira, estimula um exibicionismo. Acho que é mais correto como fez o juiz: ele fotografou a agressão, reagiu, se defendeu, aprofundou da melhor maneira, sem ficar com lamentação. Tem essas duas dimensões: tratar vigorosamente e não dar corda.

Acredita que o Bom Senso Futebol Clube poderia incorporar essa bandeira?

Afonsinho – Vi uma declaração do Alex a propósito de outra questão e achei interessante a resposta. Ele disse que o Bom Senso precisa ter firmeza nas bandeiras já propostas. Não querem perder a direção, não querem deixar diluir, enfraquecer. Eles estão atuando de perto e precisam ver que propostas têm condições de sustentar. Mas acho que o racismo é uma bandeira do mais alto significado, ainda mais no esporte, que consegue misturar a sociedade e é um ambiente de liberação.

O que é ter bom senso no futebol hoje?

Afonsinho – Eu acho que bom senso no futebol é mostrar como se situar nas questões não só profissionais, mas sociais. Bom senso também é o grupo encabeçado pela Ana Moser, a ONG Atletas pela Cidadania, que lutou pela limitação dos mandatos de presidentes e dirigentes a, no máximo, quatro anos. Conseguiu até mudança de estatuto no Comitê Olímpico Brasileiro. Penso que este é o caminho: juntar forças para conquistar direitos. Bom senso é praticar política de todas as formas.

Continua praticando política?

Afonsinho – Sim, embora eu não seja um político formal. Sempre procuro discutir, participar, dentro do meu perfil. Cheguei até a ser candidato na Constituinte por causa do movimento que a gente fez entre os esportistas. Mas, das encrencas em que eu me meti, essa foi uma das que mais me desgastaram pessoalmente.

Quando jogava, você foi vítima de preconceito por causa da barba e do cabelo compridos.

Afonsinho – Em relação ao cabelo e à barba, tive um confronto direto com os dirigentes, que alegaram isso para me proibir de treinar num primeiro momento e depois até de pegar material para o treino. No entanto, tive mais problemas com as reações dos próprios colegas por começar a jogar com passe livre. Na África, havia negros que vendiam negros. À medida que a gente vai abrindo os olhos, é uma coisa semelhante. Essa coisa do passe tem um paralelo muito forte com a escravidão, com o respeito.

Hoje o jogador tem de fato o passe livre?

Afonsinho – Tem uma porção de vínculos dissimulados. O jogador hoje é escravo do empresário? Pode ser, mas a comparação é impossível com a época do passe preso. Quando atinge um determinado nível, o atleta pode se libertar. O Romário largou o empresário pra lá, o Ronaldão fez o mesmo depois. Agora, esse negócio de um grupo de empresários ser mais forte que um clube é uma falta de vergonha na cara dos dirigentes. Pelo menos parece que chegamos ao fundo do poço, quer dizer, os clubes estão começando a deixar de ser reféns.

Você acha que os técnicos têm se preocupado com o lado social do futebol?

Afonsinho – Um ou outro pode ter essa preocupação, mas não é prioridade dele. O técnico é uma figura destacada na estrutura, mas o que ele significa nos clubes hoje é uma grande mentira. Parece que é um gênio, um superpoderoso. Dá palpite, fala das finanças do clube, do mercado. É uma piada. Técnico não é isso. Técnico é para cuidar do time, e olhe lá.

Romário disse durante a semana que podemos até ganhar a Copa dentro de campo, mas a Copa fora do campo a gente já perdeu. Ele se referia ao alto custo das obras e a suposto enriquecimento ilícito. Concorda?

Afonsinho – As notícias dos últimos dias não são boas. Aeroporto não sei de onde não vai ficar pronto, tal obra também não… O futebol é algo que o brasileiro adora, o envolvimento é muito grande. É um sonho receber amigos na sua casa para uma festa, esse é o sentido maior. Mas estamos promovendo uma Copa num dos períodos mais vergonhosos da sociedade humana. As premissas do neoliberalismo submetendo todas as inter-relações são vergonhosas. É o lucro acima de qualquer coisa. Em nome do quê marcar uma partida de futebol num horário criminoso? Em nome do quê você vai submeter as pessoas a isso?

Faremos uma Copa pela Paz e uma Copa contra o Racismo, como reafirmou a presidente Dilma na quinta-feira, no evento em solidariedade às vítimas de atos racistas?

Afonsinho – Não sei bem, não consigo avaliar essa extensão. Vivemos um momento de descontentamento. Quanto mais formos justos, melhor. A liberdade é filha da justiça.

Você já foi chamado por Pelé, quando ele saía do Santos, de o único homem livre do Brasil. Sente-se assim, totalmente liberto?

Afonsinho – Totalmente livre, eu não me sinto, não. O jovem pensa assim e taí fazendo manifestação, indo pra rua. Mas, à medida que a gente envelhece… Outro dia eu estava vendo uma entrevista do presidente do Uruguai e me identifiquei um pouco quando o repórter mencionou que ele foi um tupamaro, um radical, e tal e tal. Aí o Mujica falou com toda a sinceridade: “Sim, eu fui, mas, quando você vai ampliando seus horizontes, vê que as coisas são muito mais complexas”. Eu busco a liberdade e o equilíbrio o tempo todo, mas vivo em sociedade, com todos esses problemas que a gente está discutindo. De qualquer forma, em qualquer tempo, e o tempo todo, é preciso estar atento e forte, como diz o verso da canção.

 

Por Cleber Aguiar – Luto pela afirmação do Irã, país apaixonado por futebol

Fonte: Folha de São Paulo

Técnico do Irã, português reclama que sanções atrapalham o futebol iraniano e explica como a copa pode ajudar o país

carlosqueiroziran_576x324O português Carlos Queiroz, 60, assumiu a seleção iraniana há três anos com a missão de classificá-la para a Copa do Mundo no Brasil.

Cumprida a meta, Queiroz luta agora por outro objetivo: trazer orgulho e dignidade a um país com má fama e cuja qualificação para o Mundial gerou hostilidade –como por parte da Coreia do Sul.

Em entrevista à Folha, em Teerã, Queiroz disse comprar a briga do Irã, mas queixou-se das dificuldades de seu trabalho às vésperas do torneio, no qual enfrentará Argentina, Nigéria e Bósnia-Herzegóvina na fase de grupos.

Ele minimizou tensões pré-Copa no Brasil, dizendo que protestos são saudáveis e que atrasos nas obras não deveriam causar tanta preocupação, já que são comuns em grandes eventos.

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Folha – A federação iraniana reagiu depois que o senhor a criticou por não ter organizado nenhum amistoso de preparação para a Copa?

Carlos Queiroz – É impossível recuperar o jogo ou o treino que não se fez. Por isso impunha-se trazer esse problema à tona. Agora existe ao menos maior determinação para retomarmos o planejado. É a única maneira de termos participação honrosa e digna.

O Irã não tem os jogadores nem a experiência que outros países têm, mas podemos deixar a equipe bem preparada. Só isso pode nos levar a competir com esperança de atingir o único objetivo: a classificação para as oitavas.

É difícil trabalhar no Irã?

O futebol do Irã reflete dificuldades comuns ao resto da sociedade. A situação financeira é crítica. E, no futebol, o dinheiro fala. Se você for capaz de comprar um Neymar por € 90 milhões, fala mais depressa e fala melhor.

Falta de dinheiro prejudica infraestrutura, campos de treino, viagens, salários, planos… Afeta também a qualidade dos jogos de preparação. As melhores seleções cobram caro. Quem não tem recursos para bancar jogos privados fica em casa e não aprende com ninguém. Não são partidas com Tailândia ou Kuait que irão melhorar nosso rendimento.

Ou seja, as sanções sofridas pelo país afetam o futebol?

Sem dúvida. Mas há também um desgaste de imagem. O mundo tem uma apreciação errada do país. É preciso viver aqui para perceber que, no fim das contas, o Irã é um lugar como todos os outros. Pessoas choram, riem, levam filhos à escola, ficam presas no trânsito…

Seres humanos são todos iguais. Isso me inspira, porque vale a pena lutar pela afirmação de um país que está entre os mais apaixonados por futebol. O Irã não tem paixão artificial pelo esporte. Não é preciso promovê-lo, como nos países vizinhos do Irã ou nos Estados Unidos. O futebol está na alma dos iranianos.

A diferença cultural atrapalhou sua adaptação?

Não. Foi tudo muito simples para mim. Sempre achei que a vida é dos que se adaptam mais rápido, não dos mais fortes. Adaptar-se significa sermos capazes de entender a cultura e a identidade das pessoas.

O senhor está preocupado com a tensão no Brasil decorrente da Copa?

Não. É saudável que a sociedade viva alguma efervescência, porque é disso que surgem melhores patamares de vida, conforto e bem-estar.

Já estive em Jogos Olímpicos, campeonatos do mundo, feiras mundiais e posso dizer que essas manifestações fazem parte do pacote.

Mas eu tenho uma certeza em relação ao Brasil: quando a bola começar a rolar, será uma grande festa. Todo mundo vai se beneficiar.

Mas a preparação da Copa tem problemas concretos, obras muito atrasadas, Fifa pressionando…

Isso é comum em eventos desse porte. Na África do Sul, houve greves antes da Copa [de 2010]. Em Portugal, ninguém acreditava que os estádios ficariam prontos antes da Euro [em 2004]. Nos Jogos Olímpicos da China [Pequim-2008], todo mundo se lembra da polêmica acerca das obras.

A gente vai dar um jeitinho e a bola vai rolar. É normal que se faça barulho no período prévio para tirar melhor partido da situação.

Como vê a seleção brasileira?

Pelo que vi na Copa das Confederação, será, sem duvida, fortíssima candidata ao título. Joga bem, com consistência, norma, ordem, entusiasmo. O time conjuga três fatores: a enorme expectativa da nação pela vitória, a expectativa do próprio time e a qualidade dos jogadores. A equipe tem uma mestiçagem muito difícil de conseguir: identidade própria combinada com experiência internacional de todos os jogadores. O Felipão também traz essa bagagem, além de já ter dado uma Copa ao Brasil [2002].

Por que os técnicos brasileiros, salvo exceções, não emplacam na Europa?

A realidade do futebol europeu, sua dimensão, seu treino, sua intensidade de jogo são diferentes. Talvez seja um problema de adaptação à filosofia e ao jogo. Os argentinos se encaixam melhor.

Mas aconteceria o mesmo se treinadores europeus fossem trabalhar no Brasil. Seria muito difícil se adaptar à mentalidade e às nuances do futebol brasileiro. Em compensação, treinadores brasileiros dão certo no resto do mundo. E há casos de técnicos, como Paulo Autuori, que tiveram sucesso em Portugal.

O senhor trabalharia no Brasil?

Sonho há anos em treinar um clube brasileiro. Deve ser fantástico jogar com uma equipe na qual jogadores passam uma bola que sai redonda e chega redonda. Nós, treinadores, às vezes lidamos com situações em que a técnica de base não existe. Fazer uma orquestra tocar bem com pessoas que desafinam e não sabem os acordes básicos da musica é um milagre.

Por que votou no Messi para melhor do mundo, e não no Cristiano Ronaldo?

O voto que assinei representa a opinião coletiva do futebol iraniano, reunindo todos os treinadores do país da primeira divisão, de acordo com os critérios da Fifa. A decisão coletiva foi em favor do Messi, e eu preciso me subscrever a isso. Mas acho justo que os treinadores do mundo tenham premiado Cristiano Ronaldo. Esta é minha opinião pessoal.

Dito isso, é importante explicar algo que o grande público não percebe. O voto dos treinadores é feito com base em imagens e fatos. Se você for para a Tailândia ou África do Sul, as imagens da liga inglesa são muito mais fortes do que as do futebol espanhol. Se você for para o Qatar, que tem relação íntima com o Barcelona, as imagens do Messi são mais frequentes que as do Real Madrid. Estas questões influenciam o voto das pessoas.

Aquilo que é um critério de justiça para quem vê mais o Real Madrid e o Cristiano Ronaldo é um critério de injustiça para quem vê mais o Barcelona e o Messi.

Se pudesse naturalizar iraniano um jogador, quem seria?

O pé esquerdo do Messi e o direito do Cristiano [risos]. Esses jogadores não são humanos. Fazem-se controles antidoping, então deveria haver também controles para saber se os jogadores são humanos. Neymar, Ribéry e Robben também não são humanos.

Entre os humanos, quem realmente quero nacionalizar é o jogador da seleção iraniana. Quero a certeza de que este jogador está consciente da expectativa de 80 milhões de torcedores e da atenção com que o mundo vai olhar a participação do Irã, que não é muito querida nem foi bem recebida por certos países.

ICFUT – Entrevista de Juan zagueiro do Internacional para o ESTADÃO.

Fonte: O Estado de São Paulo

‘Pedir desculpas não adianta’, diz zagueiro Juan sobre o racismo no futebol

Almir Leite – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – O zagueiro Juan sabe bem o que é ser vítima da intolerância. Em março de 2012, quando jogava na Roma, foi alvo da sanha racista de parte da torcida da Lazio. Na época, ficou indignado com a decisão da Federação Italiana de aplicar uma multa de 20 mil euros à Lazio e encerrar o assunto.

Jogador se solidariza com Tinga, vítima de racismo na última quarta - Divulgação
Divulgação
Jogador se solidariza com Tinga, vítima de racismo na última quarta

Esta semana, Juan, agora no Internacional, reviveu o pesadelo, condoído pelas ofensas de que seu amigo Tinga foi alvo no jogo entre Real Garcilaso e Cruzeiro. “É muito triste. Não pelo jogador, a gente supera. Mas o mesmo cara que faz esse ato dentro de campo faz fora, e contra pessoas que talvez vão sofrer muito”, disse Juan ao Estado na sexta-feira, por telefone.

A exemplo de Tinga, o zagueiro considera que os que mais sofrem quando um jogador é vítima da intolerância são seus familiares. Ele alerta que o racismo existe além dos estádios, e clama por punição pesada para os responsáveis por atos como os ocorridos no Peru. Um dos líderes do Bom Senso FC, Juan entende que o movimento não deve erguer a bandeira contra o racismo, por se tratar de uma questão social.

ESTADO: Como você se sente a cada episódio de racismo?
JUAN:
É muito triste. Não pelo jogador, principalmente nesse caso do Tinga. Aconteceu comigo também. Somos pessoas esclarecidas, do bem, conscientes. A gente supera isso. Mas o mesmo cara que faz esse ato dentro do campo faz fora também, e com pessoas que talvez não tenham a mesma estrutura emocional e psicológica que a nossa e vão sofrer muito.

ESTADO: Você falou em estrutura emocional e psicológica…
JUAN:
Quando falo em estrutura emocional e psicológica é porque a gente sabe que o caso vai repercutir e vai ser sempre condenado, como está acontecendo com o Tinga e como aconteceu comigo. Mas existem muitas formas de racismo na nossa sociedade que as pessoas não têm condições de rebater, não têm a mídia a seu favor.

ESTADO: A sensação deve ser horrível, até porque a pessoa geralmente não sabe que será atacada…
JUAN
: É ruim para todo mundo, independentemente da estrutura que se tem e de a pessoa ser conhecida ou não. Até porque (no caso dos jogadores) você está trabalhando, está no seu direito e está sofrendo o preconceito num lugar em que não deveria acontecer, porque o campo de futebol é o lugar que tem mais mistura de povos, de raça, de classe social. Então é o lugar mais democrático, é o esporte mais democrático que conheço. Todos os tipos de pessoas podem jogar, independentemente de cor, religião, condição social. Quando acontece isso no futebol é chato porque às vezes a pessoa que está te insultando e tão negra quanto você.

ESTADO: Em relação a você, ficou muito marcado o episódio daquele Roma x Lazio. Mas você jogou seis anos na Alemanha, cujo povo muitos consideram intolerante. Aconteceu algo contigo lá?
JUAN:
Na Alemanha nunca tive problema e também não tinha tido na Itália até aquele momento. Claro que eu condenei na época, mas no meu caso, talvez… é um clássico muito sentido na cidade, era um momento que o jogo estava quente e isso talvez tenha influenciado. Acho isso porque era meu último ano e já eu havia jogado vários clássicos contra a Lazio e não tinha acontecido nada.

ESTADO: Mesmo assim, não ameniza…
JUAN:
Não, de jeito nenhum.

ESTADO: Como você se sentiu naquele momento?
JUAN:
Foi uma coisa nova, que nunca tinha acontecido. Mas estava um jogo tão quente, tão quente, que procurei não escutar muito para não perder a concentração. Lembro que tive um gesto de pedir silêncio para a torcida da Lazio. Os próprios jogadores da Lazio vieram falar comigo, para não me importar, porque a torcida deles era assim mesmo. Mas eu estava tão concentrado, tão ligado na partida, que deixei tudo no campo.

ESTADO: E depois, quando você encontrou a família?
JUAN:
Isso, para mim, foi a coisa mais chata. Minha esposa (Monick) e meu filho (João Lucas) estavam no estádio. Graças a Deus ele era menorzinho, não tinha consciência do que estava acontecendo. Nesse ponto eu fiquei mais tranquilo. Mas é chato por seus familiares, seus amigos, por pessoas que gostam de você passarem por isso. Talvez sofram até mais do que você, que está ligado no jogo. Essas pessoas sofrem mais.

ESTADO: Na Europa vocês são discriminados fora do campo, onde ninguém vê?
JUAN:
Comigo nunca aconteceu, mas que acontece, acontece. A gente sabe de histórias (de preconceito). Talvez você seja maltratado até que a pessoa fique sabendo que é jogador. No momento em que te reconhecem, o tratamento é totalmente diverso.

ESTADO: Isso não é até mais revoltante, porque até ser reconhecido a pessoa é tratada como se fosse um marginal?
JUAN:
É uma atitude que simboliza a palavra preconceito.

ESTADO: A Fifa faz campanhas contra o racismo e pede que federações apliquem punições pesadas. Essas campanhas ajudam?
JUAN:
Ajudam, mas se servissem 100% o mundo seria totalmente outro. Isso (o fim do racismo) é muito mais da consciência da população do que da propaganda. Campanha tem, mas ano a ano tem acontecido (casos de racismo). Talvez precise uma medida mais radical, com punições fortes.

ESTADO: O Bom Senso pode atuar também nessa área, em casos que envolvam o futebol brasileiro?
JUAN:
Isso (o racismo contra Tinga) é um problema que ocorreu dentro do esporte, mas como eu falei é um problema social, o que afasta um pouquinho o Bom Senso. Claro que a gente é contra qualquer tipo de preconceito. Mas hoje nossa preocupação é resolver nossas bandeiras, principalmente o fair play financeiro e o calendário. E eu também acho injusto, com o pouco tempo que tem o Bom Senso, jogar tudo na conta do movimento para resolver problemas que existem não só no futebol, mas no País. Hoje a gente não tem condição de levantar essa bandeira. Estamos concentrados em outras questões.

ESTADO: No caso do Tinga, o que você gostaria que acontecesse?
JUAN:
Acho que teria de haver uma punição para a equipe (Real Garcilaso), talvez para o estádio, coisa mais severa. Não adianta só pedir desculpa, porque o que aconteceu ninguém vai poder apagar.

ESTADO: Você conversou com o Tinga?
JUAN:
Não consegui falar com ele, até porque deve estar muito corrido para ele. Mas como falei, é um cara esclarecido, tem uma história muito bonita no futebol, é um vencedor e com certeza vai superar tudo isso.

ESTADO: O que você espera daqui para a frente?
JUAN
: No Brasil e na América do Sul faz tempo que não acontecia isso. Espero que seja a última vez. Que as pessoas aprendam, tirem lição disso e respeitem as outras pessoas, não só dentro como fora de campo.

ICFUT – Para ser o 10 do Palmeiras, é preciso ter o couro duro – Entrevista da Folha com Valdivia

Fonte: Folha de São Paulo

Índice

O chileno, que joga hoje, comenta as cobranças que recebe e critica a diretoria do Corinthians

DIEGO IWATA LIMA DE SÃO PAULO

Alternando jogos e descanso neste ano, Valdivia volta a campo hoje, contra o Audax, às 17h, no Pacaembu.

Com 100% de aproveitamento em seis jogos no Paulista, o Palmeiras talvez nem precisasse dele. Mas o técnico Gilson Kleina quer o meia em campo. E ele quer jogar.

Em entrevista exclusiva à Folha, fala sobre a Copa, tanto sobre o desejo de jogá-la pelo Chile quanto dos problemas de organização.

Também critica a conivência do rival Corinthians com as torcidas organizadas e a violência de um modo geral.

E revela se arrepender de ter jogado muitas vezes sem o tempo adequado de recuperação durante a última gestão Felipão no clube, em 2012.

Folha – Qual a sua expectativa para a Copa?
Valdivia – A ansiedade é grande. Disputá-la aqui seria maravilhoso. Por isso, tenho me preparado muito, para jogar bem pelo Palmeiras e para poder ser convocado.

Você acha que o Brasil está pronto para receber a Copa?
Não, não está. Rivaldo, Romário e muitos jornalistas dizem isso, e eu concordo. Aqui há problemas de segurança, trânsito, aeroportos.
Leio que há centros de treinamentos que não estão prontos, como o da Rússia, em Itu, que há ampliações com lonas em aeroportos. A imagem que vai ficar para os estrangeiros será ruim.
Mas será a melhor Copa de todos os tempos porque o Brasil é o país do futebol, e os melhores jogadores estarão aqui. O povo e os jogadores vão fazer a diferença.

A imprensa chilena diz que o técnico da seleção do país, Jorge Sampaoli, está questionando sua convocação. Como é sua relação com ele?
Ele foi um dos poucos a acreditar que eu ainda tinha como jogar pelo meu país. Para preservar a minha sanidade mental, não leio a imprensa chilena.

Você parece mais leve, mais feliz. Está mesmo?
Estou, mas não que eu fosse infeliz. No passado, havia muita fofoca no Palmeiras. Agora, comissão técnica, diretoria e jogadores não permitem isso. O Gilson Kleina deposita confiança em todos, a responsabilidade é dividida.

Você foi muito cobrado. Acha que foi injusto?
Sim. Quando o Palmeiras não conseguia os resultados positivos, o fato de eu não jogar era mais importante do que os erros dos que estavam em campo. Eu era culpado por derrotas em que não havia atuado. Aqueles que podem mais têm de ser mais cobrados. Mas a cobrança não pode ser sobre um jogador só. Isso mexia comigo.
Passei por cima dos protocolos médicos, voltei a jogar antes do tempo e me machuquei. Fiz isso muitas vezes. Até porque as pessoas me pediam “por favor, me ajude, jogue…”

Na época do Felipão?
Sim.

E por que você jogava?
Acho que faltou autoridade do departamento médico para me vetar. Eu poderia ter sido mais firme. Isso prejudicou minha imagem. Parecia que eu não queria jogar.

Hoje você sente dores?
Sinto. Mas hoje trabalho com um especialista cubano em reabilitação física, o José Amador, que atua também na seleção do Chile.

Como você vê os atos de violência contra jogadores?
Bater esperando mudança do jogador é um erro. Quando torcedores arremessaram uma xícara em mim no aeroporto da Argentina [em março de 2013, após jogo pela Libertadores], disse para a diretoria que queria ir embora. Mas uma parte minha queria ficar e dar a volta por cima.

Participa do Bom Senso F.C.?
Sim. Aos poucos, o movimento vai dar certo. Os jogadores do futuro é que vão se beneficiar. Se os sindicatos fossem mais duros, não precisaria do Bom Senso.

Você apoiaria uma greve?
Depende. Pela violência da torcida do Corinthians, como se comentou recentemente, não. Não adianta nada a gente fazer greve se a diretoria do Corinthians não fizer como o [presidente do Palmeiras] Paulo Nobre, que tem postura firme com as torcidas organizadas.

Olhando para sua carreira, acha que deveria ter saído menos à noite?
Muitos jogadores sempre saíram à noite e se tornaram fenômenos. E existem muitos jogadores crentes que nunca saíram e nunca jogaram bem. Quando mais saí, entre 2006 e 2008, foi quando joguei melhor. Não há regra.

É difícil ser o Valdivia?
Muito difícil. É muita responsabilidade. Para ser o camisa 10 do Palmeiras, que já teve Ademir da Guia e Alex, é preciso estar sempre de cabeça erguida para receber críticas. O couro precisa ser duro. Mas não tem problema. Pode vir que eu aguento. Responsabilidade e caráter há de sobra aqui.

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Por Cleber Aguiar – ‘Ser ídolo me deixa orgulhoso e também assustado’, diz Tite

Fonte: O Estado de São Paulo

Técnico admite que não esperava a reação da torcida na sua despedida e fala do legado que deixa no clube

Vítor Marques – O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO – Tite entrou na galeria dos treinadores mais vitoriosos da história do Corinthians. E também no coração da torcida. E ele está um pouco “assustado” com tudo isso. Em entrevista ao Estado, Tite relembra as homenagens que recebeu no último sábado, no Pacaembu, e fala do legado que deixou no clube, após ter conquistado cinco títulos em três anos. Abaixo, leia os principais trechos da entrevista.

Tite admite que sonha em substituir Felipão - Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão
Tite admite que sonha em substituir Felipão

ESTADO – 35 mil pessoas gritaram seu nome no Pacaembu. Um técnico de futebol pode ser ídolo?
TITE –
Sim, eu estou envergonhado, talvez não querendo ostentar, mas isso mostrou que daqui a pouco um técnico pode ser idolatrado. E isso me assusta, por dentro me assusta, um atleta, eu concebo. Estou um misto de orgulhoso e assustado…

ESTADO – No minutos finais do jogo de sábado, logo após Emerson perder um gol, a torcida gritou um “Olê, Tite” e o jogo ainda não havia se encerrado. O que você sentiu naquele momento?
TITE –
Eu não chorei porque estava com vergonha, mas por dentro eu estava chorando, eu acenei para o torcedor, mas queria ganhar o jogo, queria terminar com uma vitória.

ESTADO – O Tite, ao lado de Oswaldo Brandão, já é um dos maiores treinadores da história do clube?
TITE –
Não faço comparações, cada um teve sua etapa, suas características, eu estou no hall daqueles cinco maiores, isso tenho consciência. O simbolismo que tem o campeonato (Paulista) de 77 tem a Libertadores. Com cada um que falo, diz assim: ‘cara, a Libertadores do jeito que foi nos redimiu’. E eu falo: ‘não fui eu, foram os jogadores.’ E eles falam: ‘tu foi o técnico, nossa autoestima foi resgatada.’

ESTADO – Foi mais importante que o Mundial de clubes?
TITE –
Como resgaste de orgulho próprio, sim, o marketing do Mundial foi extraordinário, ecoou mais que a Libertadores, para o Tite mundialmente ecoou mais, mas o valor, o contexto geral, para o torcedor, a Libertadores foi mais importante.

ESTADO – Qual é maior legado do Corinthians de Tite?
TITE –
Vencer de forma leal e competente. Vencer sendo o melhor, competitivamente, tecnicamente, taticamente… Ganhamos a Libertadores e todo mundo dizia: ‘ah, tem malandragem, tem cusparada, tem que ser avião, malandrão, fomos o mais disciplinado e campeão invicto. Pegamos o Emelec, spray de pimenta, expulsão, arbitragem no mínimo tendenciosa, escambau, a equipe matou no peito e superou. Esse é o legado.

ESTADO – Após o anuncio de sua saída do Corinthians, quantas equipes procuraram você?
TITE –
Duas do exterior e cinco do Brasil, e algumas do Brasil repetidas vezes, mas eu não quero falar os nomes.

ESTADO – Do exterior, uma delas é da China, o time do Vagner Love (Shandong Luneng Taishan)?
TITE –
Sim, esse time me procurou pessoalmente, por telefone, sem passar pelo meu empresário, o Gilmar (Veloz).

ESTADO – E o outro clube de fora?
TITE –
Foi o time que o Maradona dirigiu, o Al Wasl, dos Emirados Árabes.

ESTADO – Ainda que esses clubes ofereçam propostas milionárias, vale a pena trabalhar lá?
TITE –
Profissionalmente não busco o lado financeiro, já tenho uma vida, não vou modificar, quero um lugar em que eu esteja feliz e cresça profissionalmente.

ESTADO – Dirigir um clube europeu passa a ser uma opção?
TITE –
São dois pré-requisitos, qualificação profissional e domínio do idioma. Se não tiver, não adianta. Não adianta ir para um clube inglês que vou me ferrar.

ESTADO – O cargo de técnico da seleção brasileira vai ficar livre depois da Copa e você foi um dos cotados antes de o Felipão assumir. Não pensa nisso?
TITE –
Eu penso e mais uns 15 técnicos pensam isso… tenho consciência dos meus passos, sou um dos postulantes por tudo que construí, pelos trabalhos que me credenciam.

ESTADO – 2013 foi um ano ruim para o Corinthians, com problemas extracampo. O quanto isso influenciou no time?
TITE –
Tiveram alguns componentes, jogamos sem torcida… Depois uma porrada de jogos, me perguntaram se tinha vontade de dirigir o time no Itaquerão, isso antes da minha saída, e eu respondi que queria voltar ao Pacaembu, foram muitos jogos fora de casa.

ESTADO – Todos sabem que o Mano Menezes é o novo técnico. Ficaria incomodado se o anúncio fosse feito com você ainda trabalhando?
TITE –
A partir do momento que sentamos, nos reunimos e decidimos (minha saída) é natural (a procura por um novo técnico), antes não, antes disso é deslealdade.

ESTADO – Mas acha que houve contato antes?
TITE –
Não quero julgar, eu fiz o que foi acordado.