Por Cleber Aguiar – Infiel torcida

Fonte: O Estado de São Paulo

Quando falta a política, a cidadania morre e bestas-feras invadem CTs para esganar hoje seus heróis de ontem

Carlos Melo

Quando o Boca Juniors e o juiz Carlos Amarilla eliminaram o Corinthians na Libertadores da América de 2013, vi meu filho amargurado com a perda do bicampeonato. “Tá assim por quê?”, perguntei. “O Corinthians é isso. Demorei 47 anos para ver o título que você viu, ano passado, aos 7. A vitória é sempre passageira. Se não quiser viver nessa oscilação de euforia e sofrimento, esqueça o futebol. Esqueça o Corinthians. Melhor torcer pelo São Paulo“, provoquei.

Rostos da conquista do Mundial agora merecem 'porrada'. - Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão
Rostos da conquista do Mundial agora merecem ‘porrada’.

Mas mesmo os tricolores hão de convir: essa é a dor e a delícia do futebol. Felicidade que vem, tristeza que vai. Vice-versa. Tudo recomeça. A boa fase ilude, a má fase chateia. Tudo tem seu tempo. Os fantasmas – o rebaixamento, a aporrinhação dos adversários. Mas até o glorioso Palmeiras caiu duas vezes… Calma! Se nova queda for inevitável, sem tapetão, épica sempre será a volta. “Vida que segue”, dizia Saldanha.

O garoto pondera. Sabe que nada é tão racional. No fundo, intui, o pai também está aflito. Acerta. Mas o difícil mesmo é fazê-lo compreender que o que ocorreu agora, no CT Joaquim Grava, é muito mais grave que a perda de um título e nada tem a ver com futebol. Não foi paixão, não foi torcida, nem decepção. Vincula-se, antes, a problemas mais profundos que as mazelas de um time. Está atado aos nós de uma dinâmica social complexa, fruto da ineficácia da política brasileira.

O vandalismo, a miséria, a ignorância e a bandidagem, a confusão entre democracia e barbárie, a adesão à violência como método de ação. O mal-estar é evidente e está em qualquer canto. A política claudica quando seus mais relevantes atores abandonam a mesa e encerram a negociação. A tensão, a ameaça, a pancadaria, tornaram-se recursos de última instância. Partidos, movimentos, sindicatos, ilustrados intelectuais – à direita e à esquerda – não dialogam, não criam consensos. Há pouca, quase nenhuma tolerância. A fragmentação é evidente. Anomia? Talvez. O centro, por fisiológico, abre-se numa imensa rachadura, que se alarga no exaurido presidencialismo de coalizão.

Nessas condições, natural é a volta ao estado de natureza. Nas periferias, as chacinas; massacres nos presídios. O País assimilou o UFC como esporte nacional. “Quem nunca deu uma porrada no rosto de alguém?”, perguntou, quase inocente, um quase líder de torcida. Ora, ora, ora… Nem isso causa espanto. Impossível distinguir a barbárie do Maranhão da pancadaria das arquibancadas. Cabeças decepadas ou chutadas diferem na força que as agride, não na volúpia nem na intenção de quem as atinge. Repetidas, imagens da barbárie redesenham o ethos do País nos dias que antecedem a Copa. Que momento!

Vândalos em cólera, então, exalam suor de cachaça; dispostos a esganar pessoas como se fossem patos de verdade, vomitam um fel de muitas misérias. Estão em qualquer canto. Quem tiver estômago, que leia comentaristas de notícia na internet. Entre uma e outra “curtida”, um festival de “mata, esfola, prende” – nessa ordem. No velório da ponderação, enterrada foi também a ternura que o País, um dia, teve. Adeus bossa nova. Na era da comunicação total das redes, o diálogo escasseia; brotam o cinismo e a provocação. Cada qual com sua sede, discute se o copo está cheio ou vazio. A hidrofobia não consegue divisar o meio.

Não são apenas os pobres das fiéis torcidas. Às mancheias, playboys ateiam fogo a índios; atropelam, jogam pedaços das vítimas nos rios. Alguém, é claro, clamará por ordem, autoridade, força. A histeria já tem suas divas nos telejornais, mas quem relincha não escuta. No mais, com viseiras ideológicas não é possível enxergar pelo ângulo da construção política. A ausência de política é o maior e mais lamentável vazio.

No passado a Política amalgamava, dava sentido à massa. Mas, o cretinismo eleitoral, se expandindo, obscureceu quem aprendeu a somar, não dividir. Então, em cada bloqueio de rua, ônibus incendiado, revolta ou excesso policial, em cada quebra-quebra, saque ou arrastão, é a Política que falta. Nos motoboys que nos proíbem mudar de faixa, nos PCCs, nas milícias, nos justiceiros, na corrupção, na arrogância elitista, é a cidadania que morre. E as bestas-feras proliferam: invadem CTs; buscam esganar hoje o herói que adoravam ontem.

O que se entende por democracia é patético. Onde há violência, não há liberdade. E assim, o futebol imita a sociedade, no mesmo pacto de mediocridade. Exceções de praxe, jogadores de futebol são parte da mesma galera que os tocaia; notabilizam-se pelo mesmo individualismo. Mas – ironias do país do futebol -, talvez essa seja a chance de serem heróis de verdade. E, com todos os riscos, dizer “basta!”; paralisando a loucura, colocando-se como exemplos. Igualar 5 x 1 no placar não é tão difícil quanto recuperar uma oportunidade perdida, que, perdida, escapará para sempre. Cito Drummond para meu filho: “A vida é isso (…) hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será”. Pondero, quem não controla o tempo, jamais compreenderá o futebol, a política ou o amor. “Salve o Corinthians!”   CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO,  PROFESSOR DO INSPER, AUTOR DE COLLOR: O ATOR, SUAS CIRCUNSTÂNCIAS (NOVO CONCEITO)

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