Por Cleber Aguiar – Para Coutinho, gol mais bonito feito por ele foi anulado na Itália

Fonte: Folha Online

RAFAEL VALENTE

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De óculos escuros, chave do carro na mão, Coutinho, 70, chega à Vila Belmiro para atender a reportagem da Folha. Mas quem faz as primeiras perguntas é ele.

“Quanto tempo vai durar essa entrevista? Você vai gravar?”, diz o atacante bicampeão do mundo pelo Santos em 1963, que tem 457 jogos e 370 gols pelo clube alvinegro.

 

A preocupação com o tempo ficou de lado assim que o ex-jogador começou a falar da conquista contra o Milan após três jogos duros. Aí, ele voltou a viajar no tempo.

 

Entre as histórias relembradas, afirmou, com exclusividade, que foi na Itália, na derrota por 4 a 2, que fez aquele que considera o gol mais bonito da carreira.

 

Acompanhe esta história na terceira reportagem especial sobre o título de 1963.

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Folha – Foi o título mais importante da sua geração?
Coutinho – Todo título é importante, não dá para discriminar A, B ou C. Aquele foi um dos mais importantes e sabemos hoje. Na época, foi mais um jogo, mais uma taça.

Qual a principal lembrança que você tem da conquista?
No primeiro jogo, na Itália, a lembrança maior que tenho é um gol que fiz e foi anulado de forma errada. Acho até que foi um dos gols mais bonitos da minha carreira.

Na época, a Folha relatou que o gol foi anulado por ter tido um toque de mão…
Para mim isso é novidade. Não usei a mão. Usei as pernas, foi de bicicleta. Na verdade, foi de voleio. O árbitro deu pé alto no cara que estava chegando para me marcar.

Então, como foi esse gol?
O Dorval cruzou na área, aí teve um rebote e a bola veio viajando. Olhei para o gol e vi o que poderia fazer. Dei uma meia bicicleta. A bola entrou. Foi um dos gols mais bonitos de toda a minha carreira. Acho que seria o empate por 2 a 2. Foi um erro grotesco do árbitro. Mas tudo bem, passou e a vida continua.

A derrota por 4 a 2 na Itália preocupou o time?
Nada estava perdido para nós. Tínhamos uma equipe que dificilmente perdia duas seguidas. Que me lembro acho que nunca passei por isso. De perder em um sábado ou em um domingo e depois numa quarta ou numa quinta. No jogo de volta, no Maracanã, tivemos uma surpresa muito grande. Com 16 minutos, já estava 2 a 0 para o Milan. Mas fizemos um segundo tempo fabuloso debaixo de uma chuva tremenda. Foi magistral. Dois chutes do Pepe de longa distância, a especialidade dele, depois um gol do Lima e um gol do Mengálvio de cabeça… dá para imaginar, um gol de cabeça do Mengálvio? Era para o Santos ser campeão mesmo. Foi fabuloso.

O terceiro jogo também foi tão intenso?
Tivemos o heroísmo do falecido Almir. Pelé não jogou os dois jogos no Maracanã. O Almir o substituiu e foi uma das grandes figuras dos jogos. Até no pênalti que o Santos conseguiu ele foi leão, foi herói. Ele botou a cabeça no pé do goleiro [na verdade, o lance foi com o ex-zagueiro Maldini] e o juiz transformou em pênalti, que o Dalmo com grande maestria, muita calma, muita paciência, cobrou. Tem até o detalhe que ele correu para a bola para bater o pênalti, o goleiro saiu ao encontro dele e ele refugou, não bateu. Aquilo foi de uma calma do Dalmo fora do comum. Em seguida, ele bateu o pênalti, fez o gol, ganhamos por 1 a 0 e fomos campeões. Acho que foi importante pelos detalhes. Passamos um sufoco, perdemos lá de 4 a 2, tínhamos de ganhar por quatro gols aqui e sofremos dois gols, revertamos o placar e depois conseguimos uma vitória de 1 a 0 e fomos campeões. Tudo isso dá um sabor maior de satisfação.

Houve muita provocação por parte dos italianos? Os jornais relatam até que foi uma partida violenta.
Cara feia nunca me assustou. Eles chegavam junto nas jogadas. O futebol italiano é assim, de marcação forte. Vai de cada um saber se desvincilhar e rebater com a mesma moeda. Eu rebatia. Para mim não houve essa violência toda que falam. A marcação foi forte. Eles chegavam junto, fungavam no pescoço -como a gente costuma dizer-, mas vai da habilidade, da criatividade de cada para se sobressair. Não foi dessa violência toda. Foi um pouco de exagero. Se você é atacante, como eu, Pelé, Pepe, Dorval, ninguém vai olhar você e bater palma. Vão chegar juntos.

Uma das histórias é que o brasileiro Amarildo, então atacante do Milan, provocou muito e teve o troco no Rio.
Tanto é que o Almir deu uma pegada feia no Amarildo. Mas já era uma rincha de clube. O Almir jogou no Milan junto com o Amarildo. O Amarildo tinha um tantinho a mais de moral no Milan que o Almir. Então, ficava meio esquisito. O Almir gostava de tomar a cervejinha dele e talvez o Amarildo não o acompanhasse. Acho que a rivalidade veio disso. O Almir se sentiu humilhado quando passou pelo Milan e ele deu o sangue para ganhar. No lance do pênalti, ele deu a cara para o goleiro chutar e, assim, sofrer o penal. Por isso ele foi a grande estrela do Santos na vitória do Mundial. O Ismael também fez falta feia no Amarildo. Ele realmente falou umas graças, mas talvez não tenha sido intencional. Talvez ele falou uma coisa e a imprensa italiana colocou outra coisa.

É verdade que o Amarildo foi vaiado pelo Maracanã ou é exagero?
As vaias ao Amarildo aconteceram. O Maracanã era nosso. Tanto é que o segundo time da maioria dos cariocas é o Santos Futebol Clube. Não sei se é hoje. Na época nossa era. Tanto que disputamos Libertadores e Mundial no Maracanã. De todos os jogos, os mais importantes fizemos no Maracanã. E pegamos sempre aquele campo lotado com aquela torcida fabulosa. Somos agradecidos aos cariocas por ajudar bastante.

O que mudou da sua época para o presente?
O jogador de futebol muda muito de vida. Hoje você está no Santos, amanhã pode estar no Corinthians ou no Palmeiras. Hoje é uma várzea a troca de clube, uma vergonha. O cara sai de um time e chega no outro beijando a camisa. Se eu fosse diretor de clube ou presidente, jogador que chegasse beijando o distintivo estava fora. Acho de uma falsidade. De manhã joga em um clube, de tarde joga em outro e de noite joga em outro. Fica desagradável. Apesar que o amor como nós tivemos pelo Santos acabou, não existe mais, é passado. Aquele lance de joga no Brasil de manhã e de tarde joga na Europa.

Será que o fato de o futebol envolver muito dinheiro hoje ajudou a acabar com o amor que você descreve?
O dinheiro existe, se é muito ou é pouco, não importa. De graça ninguém joga. Acho que o amor acabou. O amor de você gostar. Eu gosto do Santos até hoje. Cheguei aqui com 13 anos de idade e hoje tenho 70. E sou Santos. Moro na Vila Belmiro. É uma questão de amor. Joguei 15 anos no Santos. O Pepe jogou 20 anos, o Pelé também. Dorval jogou 17. Mengálvio jogou 15. Isso chama-se amor ao clube. Não é uma coisa de passar um tempo e ir embora. Nós éramos muito amigos e somos ainda hoje. A amizade nossa é eterna. A gente se gosta muito.

Vocês tiveram oportunidade para sair do Santos, não?
Isso houve com todo mundo. Não só com o Pelé. A Juventus da Itália me queria. O Boca Juniors me queria. A Inter de Milão me queria. O Atlético de Madri me queria. O Valencia me queria. É que nunca nos preocupamos com isso. Outra coisa. A gente pensava da seguinte maneira: nós jogamos em um time que se jogarmos dez vezes em um mês vamos ganhar 11. O Santos era assim. A gente pensava: sair daqui para bater cabeça por aí, mas não vou mesmo! Nunca pensamos em sair. Nunca um diretor chegou na gente para isso. Eles tinham tranquilidade para trabalhar com a gente e nós também. Tínhamos diretores de moral. Nicolau Moran, Athiê Jorge Coury, Modesto Roma, Renê Ramos, Carlo Angerami, Augusto da Silva Saraiva… tínhamos gente de respeito na diretoria. Gente que se falasse ‘A’ era ‘A’. Nós confiamos neles e eles na gente. Foi por isso que o Santos conseguiu fazer um time fabuloso.

O que diferenciava aquele time do Santos dos outros?
Tínhamos craques em todas as posições e nosso time sempre foi moleque, com muitas brincadeiras. Isso continua até hoje. Só havia seriedade quando entrávamos em campo.

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