Por Cleber Aguiar – Muricy Ramalho: ‘Ganhar no São Paulo tem sabor diferente’

Fonte: O Estado de São Paulo

Técnico abre o jogo ao Estado e fala sobre desafio de reerguer o clube, carreira
e futuro

Fernando Faro – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Muricy Ramalho enfrentou 33 minutos de entrevista coletiva antes de se encontrar com a reportagem do Estado. Com semblante mais sereno, deu risada ao lembrar sua relação turbulenta com os jornalistas – “cara, que chatice que é isso” – mas garante estar mais tranquilo.

Muricy Ramalho tirou o São Paulo da crise - José Patrício/AE
José Patrício/AE
Muricy Ramalho tirou o São Paulo da crise

E de fato foi preciso serenidade para aceitar o convite para, quatro anos depois da última e vitoriosa passagem, comandar o São Paulo na crise mais grave da sua história. Menos de dois meses depois, o Tricolor deixou a zona de rebaixamento e ocupa a nona posição na tabela e está em vantagem nas quartas de final da Sul-Americana. Pouco para a tradição do clube, mas um céu de brigadeiro para quem tinha pesadelos com a queda.

Ainda sem renovar o contrato – o que não será um problema para acontecer – o treinador avaliou seu retorno ao Morumbi, analisou o que mudou no período de ausência e voltou a falar do desejo de se aposentar no clube de coração. “Cesci aqui dentro”.

ESTADO – O que mudou nesses quatro anos de ausência? MURICY RAMALHO – Perecebemos que a estrutura do CT melhorou muito, mas isso é uma coisa natural do São Paulo e da gestão do Juvenal, ele adora melhorar o clube, não só o CT como também Cotia e a sede, isso é uma coisa dele. Ouvia que estava melhor e de fato está. O que não estava bom era o ânimo das pessoas porque a situação não estava boa mesmo. Seguranças, funcionários, essas pessoas que trabalham e fazem a diferença, estavam com a autoestima baixa, mas é algo normal. Mas fisicamente o clube melhorou muito.

ESTADO – Mesmo de fora você imaginava o que daria para fazer para melhorar o time? MURICY RAMALHO – A gente imagina, claro, mas tomar a decisão no sofá é muito fácil, você sempre vê as coisas depois que elas aconteceram e você está sem nenhum tipo de cobrança, como era quando o Paulo estava aqui. Mas sei, como técnico, que não é assim, que as coisas não são como você pensa. Foi assim comigo aqui, não imaginei que estivesse tão ruim como de fato estava; de longe era ruim, mas aqui era pior. Claro que eu me punha às vezes no lugar dele, mas não dava para dizer que faz isso ou aquilo, o técnico que pensa assim não tem milagre. Fiz a diferença porque tem aquele lado da torcida estar comigo e vir junto. Meu perfil é muito voltado para ter o time mais determinado e vibrante, mas com certeza tinha muitas dúvidas em relação a isso aqui.

ESTADO – Acha que se tivesse vindo antes não teria conseguido arrumar o time? MURICY RAMALHO – Poderia acontecer igual ao Paulo (Autuori, demitido após dois meses). Não tem milagre. Aquele momento foi muito ruim para o time porque desgastou, ele não conseguiu treinar o time em momento algum e depois teve que jogar terça, quinta, sábado e domingo, não tem milagre para isso. As pessoas pensam, “ah, se ele tivesse chegado antes”…não teria acontecido nada porque as coisas não são assim. O Paulo um p… técnico, foi campeão aqui e em todo lugar, a questão é que ele pegou um momento muito ruim que foi o da viagem, infelizmente.

ESTADO – Em algum momento achou que o time de fato fosse cair? MURICY RAMALHO –

Só achava que estava muito difícil mesmo. A autoestima estava muito baixa e o ambiente pesado, se você não ganha a desconfiança é grande. A gente sempre tem esperança e não pode desistir, o cara que comanda não pode baixar a cabeça nunca, tem sempre que estar com a cabeça erguida e dando força para quem precisa. Mas achava, e continuo achando, que a coisa está muito difícil e precisamos trabalhar muito duro para sair dessa situação.

ESTADO – E por que você conseguiu e eles não? MURICY RAMALHO – Se você não ganha, não tem jeito. Não vão te olhar com carinho, as pessoas aqui gostam de mim porque ganhei muito. O torcedor acredita em mim porque acha que eu posso mudar o ambiente, sou um treinador que vai atrás dos objetivos traçados pela diretoria, me entrego demais e o torcedor acredita nisso. Claro, tem o trabalho do dia a dia, saber escalar, tirar, mexer, treinar o time. Isso é muito importante, não dá para ficar só no “vamos lá”.

ESTADO – Se ganhar da Portuguesa dá para pensar só na Sul-Americana? MURICY RAMALHO – Não podemos ter esse pensamento até porque há um mês ninguém falava de Sul-Americana de tanto desespero. Temos que continuar trabalhando forte no Brasileiro e sendo inteligentes porque temos jogado e viajado demais, mas o bom é que hoje temos um time recuperado, dá para fazer os dois campeonatos bem porque podemos usar os jogadores que estão à disposição.

ESTADO – Quantos minutos vai demorar para você renovar? MURICY RAMALHO – Dessa vez não deu nem para discutir (Risos). Foi muito rápido, não seria legal da minha parte em pensar em contrato. Tinha que vir para ajudar, outro pensamento não daria certo e meu contrato ficou para depois. Nunca tive problema com o São Paulo para renovar contrato e acho que dessa vez não vai ser diferente. Sou muito justo no que faço, não sou um maluco que se aproveita das oportunidades. Vai ser como das outras vezes, que demorou pouco para resolvermos. Não vai ser diferente agora.

ESTADO – Ainda sem falar em nomes, como vê o elenco para o ano que vem? MURICY RAMALHO – Nossa equipe é desequilibrada em alguns setores em que precisamos caprichar. O segredo é diminuir o erro, porque inevitavelmente você erra. Mas estamos numa situação que não deu para sentar e conversar, jogamos todo dia e precisamos planejar as partidas, infelizmente vamos sair atrás porque a situação levou a isso, não porque o clube não se planejou. Não dava para pensar no ano que vem sem pensar no agora, ficou uma situação muito ruim e vamos ter que caprichar muito, mas muito mesmo na montagem. Temos que olhar com carinho quem vai chegar, as datas, o calendário. Se não fizermos isso não teremos chances.

ESTADO – Qual sua participação na montagem do elenco? Vai aceitar quem a diretoria quiser trazer? MURICY RAMALHO – Em todo time que trabalho podem vender quem quiserem, não me meto nisso. Lembro de quando venderam o Josué e o Mineiro e foi uma luta, mas disse que iríamos nos virar e surgiu o Hernanes e o Jean. Quem sai não me importo muito, mas tenho que dar opinião de quem chega, senão não adianta. De que serve se a diretoria chegar e me dizer que vai contratar um jogador? Vai trabalhar com eles ou comigo? Quando vão atrás de um jogador precisa perguntar para mim, não sou o técnico? Sou eu que tenho que concordar ou não e vou opinar. Se for o técnico do São Paulo, claro.

ESTADO – Você cobrou duas vezes a diretoria para renovar com o Rogério. Eles te passaram algo? MURICY RAMALHO – Não tive nenhuma conversa sobre esse assunto e nem sobre o ano que vem porque preciso estar focado no que estamos fazendo agora. Não recebi nada oficial, mas o que percebemos é que o Rogério está mais aliviado e mais feliz com o momento do clube, é difícil você encontrar alguém motivado em um momento ruim como era o nosso, ele estava tenso como todos. Agora pode ser que ele pense diferente; claro que é um cara muito definido no que faz, tem uma família acertada e seus objetivos. Mas a gente vê que ele está diferente, mais feliz. É hora que dá para conversar com um pouco mais.

ESTADO – Cogita conversar com ele para pedir que fique? MURICY RAMALHO – Sou amigo particular dele, mas é uma situação profissional e cabe a ele decidir. Ele sabe o que penso porque já falei publicamente, mas sou muito frio para analisar. Acho que ele está num momento muito bom físico, para agarrar – porque eu não confundo com essa história de bater pênalti. Ele como goleiro está muito bem, fisicamente está muito bem numa fase complicada, porque nessa idade o joelho do cara complica, a parte lateral fica bastante prejudicada. É uma opinião que tenho, mas ele que tem que definir.

ESTADO – O clima político se deteriorou muito desde sua saída. Como enxerga esse ambiente? MURICY RAMALHO – É como todo processo, todo mundo tem opiniões diferentes. Mas é claro que todas as opiniões têm que estar voltadas para o São Paulo, todos no processo têm que pensar no São Paulo. Não existe ninguém maior e mais importante que o clube. Ninguém. Nenhuma pessoa é mais importante que o clube, as pessoas que estão no processo precisam saber disso.

ESTADO – A maior crítica ao seu último trabalho aqui foi a falta de títulos no mata-mata. Vencer um aqui tem sabor diferente? MURICY RAMALHO – Era a Libertadores que eles reclamavam porque é um campeonato muito importante para o clube. Ganhar é sempre bom e importante em todos os lugares, mas claro que no São Paulo passa a ser uma coisa muito diferente porque nasci aqui e tenho uma história aqui, e quando você tem uma história e ganha, essa história aumenta. As pessoas vibram mais, você sente. Para treinador é fundamental ganhar no Brasil, se não vence não tem chance independente do carinho que tenham por você e por isso que temos que ganhar sempre. Mas claro que ganhar no São Paulo é diferente.

ESTADO – Você sente seu trabalho reconhecido pelos outros? MURICY RAMALHO – Basta ver os convites que recebo. Não posso ficar na mão de pessoas porque pessoas têm sentimentos. Às vezes você depende de uma opinião de uma pessoa e ela é do mal, negativa. O ser humano é cheio de manias, alguém pode falar “aquele não é legal porque não é simpático” ou “esse não é legal porque não é brilhante intelectualmente”. Isso para mim não serve para nada, para mim o único parâmetro para reconhecer um profissional, não só um técnico de futebol, é resultado. É só isso que aceito, não adianta você ir numa revendedora de carros e ter uma bonitinha que não vende um carro e tem a feinha que vende um monte. A feinha que é a fera. Você vai deixar para os outros julgarem? Se o cara tem resultado bom, ele é bom e qualquer área. Sou um cara muito procurado e por times grandes demais, não pequenos. Alguma coisa devo ter.

ESTADO – Sua relação com a imprensa às vezes é tensa… MURICY RAMALHO – (Interrompe rindo) Quando estava em casa há três meses sem trabalhar eu assistia a umas entrevistas chatas do caramba. “Ah, e o jogo?”, “ah, e não sei o quê?”…pô, os caras não ganham nada, nem uma porradinha (risos)? O que me tira do sério é cara maldoso e a gente sabe quem é. Às vezes o cara faz uma pergunta dura para você, mas você conhece a índole e sabe que o cara é correto e não tem maldade e então eu aceito. Acredito numa opinião limpa, se merece elogios, elogia; se merece uma crítica, critica, mas sei que às vezes têm maldade. Não aceito cara negativo e no nosso meio na imprensa sei que tem cara que vê o mundo em preto e branco, que nada presta, que só o que antigo é bom. Preservo muito o que é o ser humano e para mim se o cara é correto, ele pode ser duro, mais ou menos ou como quiser porque minha entrevista vai ser numa boa. Mas desde que voltei do Rio e fui para Santos melhorei bastante. Acho que é a idade também, você vai ficando mais velho e a bateria vai caindo um pouco e vamos deixando as coisas um pouco de lado. Só sou assim com os caras malas. Tenho inclusive muitos amigos na imprensa, amigos de sair junto mesmo.

ESTADO – Já resolveu quando irá se aposentar? MURICY RAMALHO – Não defini, mas não vou me alongar muito mais porque tive vários exemplos de pessoas que tentaram esticar a carreira porque isso aqui é muito desgastante. Comecei a ter um monte de coisas que não tinha; tive problema de coluna, já tive diverticulite e várias coisas que vejo como um sinal.

ESTADO – E seleção, ainda pensa nisso? MURICY RAMALHO – Não, não passa mais pela minha cabeça.

ESTADO – Então o São Paulo é seu último clube? MURICY RAMALHO – Pode ser que seja sim. Recebo muitos convites para ir para fora do país, mas não mexe comigo. Não tenho essa ambição, sou muito feliz aqui. Tomara que eu acabe aqui no São Paulo.

ESTADO – E o que pretende fazer quando parar? MURICY RAMALHO – Sou um cara de família. Não sou um cara vaidoso ou de costumes muito diferentes, gosto de ficar com minha família e minha turma, meus amigos de bairro. Minha vida é pautada pela simplicidade, de ir num boteco – o que não consigo fazer hoje em dia. Devo ficar mais ou menos como nesses três meses que estive de férias.

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