Por Cleber Aguiar – Entrevista co o Presidente Paulo Nobre do Palmeiras para o Estadão.

Fonte: O Estado de São Paulo

Sônia Racy – Direto da Fonte

‘Dirigente que contrai dívida tem de ser responsabilizado civilmente’

Foto: Paulo Giandalia/Estadão

O presidente do Palmeiras sabe que corre contra o tempo para sanear as finanças do clube. No horizonte, a primeira divisão e o novo estádio no ano do centenário

Segundo presidente mais jovem da história do Palmeiras, Paulo Nobre, 44 anos, tem um desafio e tanto pela frente. Chegar a 2014, quando o clube completa seu centenário, com mais fontes de receita para começar a abater uma dívida estimada, hoje, em R$ 300 milhões.

Como? Investindo no programa de sócio-torcedor, em marketing e na capacidade do novo estádio, o Allianz Parque, que será entregue no segundo trimestre do ano que vem.

Fã de ralis (já foi campeão em diversas modalidades e disputou o Dakar), este advogado paulistano, cujo apelido ao volante é Palmeirinha, sabe bem o que é correr contra o tempo. Afinal, no Palestra, o mandato de presidente é de apenas dois anos.
A experiência como dono de fundo de investimentos tem ajudado. E até parte da oposição (sempre feroz pelos lados do Parque Antártica) anda positivamente interessada nos rumos que Nobre tenta dar ao Verdão.

Em seu dia de 12 horas entre reuniões e planilhas (a maioria delas desalentadora), ele encontrou uma brecha para conversar com a coluna na Academia.

A seguir, os melhores momentos do bate-bola.

Você disse, recentemente, que o Palmeiras ainda não entrou no século 21. Por que?

Porque o Palmeiras ganhou o título de “campeão do século 20” e se orgulhou muito disso. Só que também se abraçou a isso. Já estamos na segunda década do século 21. É muito bom ter um passado glorioso, mas é preciso pensar no presente e no futuro. Como um clube como o Palmeiras, em 2013, tem sistema operacional DOS nos computadores? É piada. Quer outra? Os departamentos não se comunicam. Às vezes, duas equipes estão fazendo a mesma coisa e não sabem. Olha o gasto de tempo! O Palmeiras não tem processo, é uma bagunça. Não sabe agir como aquele jogador mais velho, que vai pelos atalhos do campo, sabe? Por que o Seedorf joga o que joga até hoje? Porque não corre à toa. É questão de processo. Por isso eu digo que o campeão do século 20 ainda não entrou no século 21. Mas vai entrar.

Qual a grande dificuldade, hoje, do Palmeiras?

O clube está há alguns anos num quadro de geração de prejuízo todos os meses. O que você tem de fazer antes de tudo? Reverter a tendência. Para isso, você precisa gerar receita e cortar despesa. É o que estamos fazendo, respeitando duas premissas básicas: o futebol não pode perder a competitividade e você não pode deixar o clube social parar.Muitos conselheiros palmeirenses reclamam que o grande problema é a desunião, todo mundo briga com todo mundo.Eu comparo o Palmeiras com o período que antecedeu o Primeiro Reich alemão. Um monte de feudos que brigavam entre si. Quando se juntaram, se tornaram uma potência.

Há como unir o Palmeiras?

Lógico, mas você precisa despolitizar certas coisas, parar de lotear a diretoria para ganhar uma eleição. E, depois de ganhar a eleição, ter a liberdade de chegar em qualquer grupo, inclusive na oposição, e escolher as melhores cabeças para ajudar a administrar.

Está conseguindo fazer isso?

Meu diretor financeiro fazia parte da chapa da oposição. Por que eu o escolhi? Porque ele é bom, eu confio nele.

A imprensa atrapalha?

O problema é que muita gente usa a imprensa para lavar a roupa suja do clube. O foro para isso é o Conselho Deliberativo. Além disso, o vazamento de certas informações para o chamado grande público nem sempre ajuda. Até porque pressão externa não muda nada. Eu estou na política do Palmeiras há 16 anos. Quando a gente caiu para a segunda divisão em 2002, a pressão externa foi imensa, muito maior do que agora. E não mudou uma vírgula. A mudança tem de partir de dentro, nunca de fora. O conselheiro tem de se conscientizar de que roupa suja se lava em casa. E tem de lavar! As pessoas precisam ter a liberdade de criticar, de falar o que pensam. E quem está no poder tem de aceitar crítica. Se não aceita, está no lugar errado.

As críticas têm ajudado?

Muito.

Qual o papel do Mustafá Contursi na administração do clube?

O Mustafá é membro nato do Conselho de Orientação e Fiscalização (COF), conselheiro vitalício, líder político, uma pessoa muito crítica e de opiniões contundentes. Mas, até agora, eu só tenho a agradecer o Mustafá. Sempre que precisei dele, esteve presente, deixando claro que não quer influenciar na administração. Eu digo a ele: “Presidente, fique tranquilo. Toda vez que o convoco, é porque acredito que o senhor tem experiência para ajudar”. Mas eu ouço muita gente, são opiniões que norteiam a minha decisão.

Muita gente diz que o COF atravanca a administração.

Muito pelo contrário. Ele é o órgão de fiscalização do clube e exerce a sua obrigação estatutária. Sempre que eles fiscalizam, fazem o papel que se espera deles.

O Roberto Frizzo (vice de futebol do Palmeiras na gestão do ex-presidente Arnaldo Tirone) está voltando à vida política do clube. Como você vê isso?

Com naturalidade. Ele, e quem quiser no Palmeiras, tem todo o direito de militar politicamente no clube.

Em relação ao estádio, quanto ele será capaz de ajudar a desafogar as contas do Palmeiras?

Primeiro, os custos com a manutenção do estádio deixam de existir quando ele estiver pronto, algo que deve acontecer no segundo trimestre. O Palmeiras tem participação (em vários graus) nas receitas que a arena gerar. Além disso, teremos entre 33 mil e 34 mil cadeiras. Esta, sim, será uma fonte de receitas importantíssima. O caminho para que o clube saia do cenário em que se encontra está aí.

Mas os preços dos ingressos vão subir, haverá uma elitização?

É natural que isso aconteça. Até por todo o serviço que será oferecido aos torcedores.

E como ficam as torcidas organizadas? Porque elas fazem muita pressão política no clube.

Nossa obrigação é financiar um time competitivo. Haverá, claro, áreas mais populares, mas menores. Quem terá vantagem, sempre, será o sócio-torcedor. Não digo garantia de ingresso, porque teremos mais sócios-torcedores do que lugares no estádio, mas prioridade sobre qualquer outro torcedor. E é muito justo, porque ele é 100% comprometido com o clube, ajuda a financiar o Palmeiras, participa de fato.

O Palmeiras tem hoje quantos sócios-torcedores?

Quando eu assumi o cargo, eram 8.700. Agora, seis meses depois, estamos com 30 mil.

Qual a meta?

Olha, o Inter de Porto Alegre tem mais de 100 mil sócios-torcedores. Eu tenho uma inveja positiva do Inter. Admiro quem faz um trabalho bem feito. E a nossa torcida é muito maior que a deles. Aliás, justiça ao Grêmio também. Inter e Grêmio são os melhores exemplos no Brasil de como fazer um programa de sócio-torcedor. A gente aqui no Palmeiras olha muito para exemplos como esses. E temos a humildade de copiar o que dá certo.

Como está a busca pelo patrocínio master para o time?

As empresas todas fecham o budget de patrocínio para o ano seguinte no mês de setembro. E nós assumimos em janeiro. Além do mais, a gente não pede R$ 2 milhões, pede o que vale a marca Palmeiras. Mas, para o ano que vem, a chance de conseguir é imensa.

É a favor do Proforte, programa de reestruturação das dívidas dos clubes que está para ser enviado ao Congresso como medida provisória?

Sou 100% a favor. Desde que não se brinque com dinheiro público. Como futebol é quase uma religião nacional, acho que o governo pode ter um pouco de compreensão com a situação dos clubes. Mas só se passar a régua e começar vida nova. Precisa haver punições muito severas aos clubes que voltarem a contrair dívidas. Fez dívida, perde ponto no campeonato, cai de divisão. E, principalmente, os dirigentes têm de ser responsabilizados na sua pessoa física. Criminalmente e civilmente, para doer no bolso. Sou a favor, desde que a ajuda venha junto com as regras. Porque é muito fácil dirigente populista adiantar receitas de várias gestões futuras para tentar, na sua administração, ganhar títulos e sair bonitão na foto. Só que, depois, a instituição fica enterrada em dívidas por anos.

É a favor da Copa?

(pensa um pouco) Sou, mas, de novo, acho que não se pode brincar com dinheiro público. Acredito que algumas arenas do torneio custaram caro demais e também que a iniciativa privada deveria ter participado mais do projeto do Mundial.

Sua experiência como dono de fundo de investimento ajuda no dia a dia como presidente do Palmeiras?

Ah, sim. Claro que é preciso fazer adaptações, mas, por exemplo: eu estou tentando implementar um sistema de produtividade no ‘bicho’. Em vez de ser um ‘bicho’ mais substancial a cada jogo, vai ser bem pequenininho. Atingido um objetivo, ele se multiplica. É legal, para mostrar ao jogador que a gente está no mesmo barco, vamos ganhar juntos.

Voltando à primeira divisão no ano do centenário, haverá investimentos no time?

O Palmeiras não será refém do ano de seu centenário. Pode escrever isso: eu não vou fazer loucuras para ter um time capaz de ganhar tudo. A gente já viu isso acontecer em vários clubes. Dá uma dor de cabeça danada e prejuízo. O Palmeiras tem de ser competitivo todos os anos, não apenas no ano do centenário. Nossa equipe é boa, tem raça e respeita a camisa do Palmeiras. Algumas contratações pontuais podem vir a acontecer, caso a comissão técnica julgue necessário. Mas a ideia é ter esse grupo mais entrosado ainda no ano que vem.

Ser o segundo presidente mais jovem da história do clube ajuda ou atrapalha?

Acho que é uma questão de quebra de paradigma. Fui eleito com 44 anos, num meio em que as pessoas se acostumaram a ver dirigentes sempre com mais de 60.

Quantas horas tem o seu dia como presidente?

No mínimo 12 horas.

E vida pessoal?

Não existe. (risos) Meu grande hobby era correr rali, e não sei nem o resultado do mundial. A única certeza é que o campeão do mundo de rali vai ser um palmeirense, o francês Sébastien Ogier.

Ele é palmeirense?

Desde que eu dei uma camisa do Palmeiras para ele, virou palmeirense. Mas voltando à pergunta sobre vida pessoal, o problema é que não dá tempo de fazer mais nada. Eu realmente me preparei, durante a campanha à presidência do Palmeiras, para passar dois anos aqui. Quando é possível, tiro o domingo de folga. Aí, hiberno em casa. E sabe de uma coisa? Nunca dei tanto valor a chegar em casa. Aprendi que o problema de amanhã você resolve amanhã. Não adianta ir dormir pensando no problema, porque você vai dormir mal e, no dia seguinte, resolver mal o problema. Ainda bem que minha namorada é compreensiva e está sabendo administrar a situação. Ela é muito parceira. Até o pessoal da diretoria tem agradecido muito a ela. /DANIEL JAPIASSU

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