Por Cleber Aguiar – Folha de pagamento é moeda de troca da Caixa para apoio a times pequenos

Fonte: O Estado de São Paulo

Patrocínio de instituição financeira a clubes de Santa Catarina, Alagoas e Rio Grande do Sul só se concretizou depois de convênio para administração de folhas municipais

MURILO RODRIGUES ALVES, BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O artilheiro isolado da Série B do Campeonato Brasileiro, Bruno Rangel, só ostenta a marca da Caixa na camisa 9 do Chapecoense porque os quase 5 mil funcionários da prefeitura de Chapecó, no oeste catarinense, recebem os salários pelo banco estatal. Para patrocinar clubes que não estão na elite do futebol brasileiro, a Caixa usou como “moeda de troca” a folha de pagamento das administrações municipais ou estaduais.

É por isso que as negociações dos dirigentes dos clubes com os executivos da Caixa incorporaram tanto parlamentares influentes em Brasília quanto prefeitos e governadores dos Estados onde estão as sedes dos times. O papel deles era negociar a administração das folhas de pagamentos com o banco.

O prefeito de Chapecó, José Caramori (PSD), disse que um dos “requisitos básicos” impostos pela Caixa nas negociações com o Chapecoense era gerir a folha de pagamento do município, que gira em torno de R$ 12,6 milhões por mês. Segundo ele, foi firmado um “compromisso tácito” com o presidente da instituição, Jorge Hereda, de manter a parceria até julho de 2014, período de validade do patrocínio.

O presidente do Chapecoense, Sandro Pallaoro, considera natural ser esse um dos critérios para escolher os clubes patrocinados. “A parceria é de via dupla”, resumiu.

Alagoas. O lobby do senador Fernando Collor (PTB) para o amparo do banco estatal à Agremiação Sportiva Arapiraquense (ASA), de Alagoas, seria infrutífero se a prefeita de Arapiraca (AL), Célia Rocha, correligionária do senador, não mantivesse a administração das contas dos servidores nas mãos do banco estatal.

Dois meses antes da liberação do patrocínio para o time da Série B, Célia assinou um “convênio pioneiro” com o banco, que na prática colocou dentro da prefeitura um funcionário da Caixa, responsável por “agilizar” programas e contratos. A folha de pagamento do Estado de Alagoas também é da Caixa.

O presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves (PMDB-RN), bem que tentou, assim como Collor, canalizar os “louros” da ação de marketing, pedindo publicamente, pelo Twitter, que a Caixa patrocinasse os dois principais times de Natal: ABC e América.

As negociações até chegaram a um “estágio avançado”, mas terminaram no zero a zero porque o prefeito da capital potiguar, Carlos Eduardo Alves (PDT), chegou a cogitar rescindir o contrato firmado pela administração anterior com o Banco do Brasil, mas não tinha dinheiro para pagar a multa. Sem a folha de pagamento dos servidores, o patrocínio não saiu para nenhum dos times que estão na lanterna da Série B.

Em Caxias do Sul (RS), a Caixa conseguiu tirar a folha de pagamentos da prefeitura do Banrisul. A condição imprescindível, segundo o prefeito Alceu Barbosa Velho (PDT), foi Hereda ter assegurado o patrocínio aos dois times da cidade. O Caxias, que está na Série C, levaria R$ 600 mil, e o Juventude, da Série D, teria R$ 400 mil.

“A parte da prefeitura, eu já fiz. Só falta agora os clubes conseguirem apresentar as certidões negativas de débito”, orgulhou-se.

Pela folha de 6 mil funcionários, que soma R$ 20 milhões por mês, o prefeito conseguiu ainda R$ 10 milhões extras, além dos R$ 5 milhões acertados para as próximas duas edições da Festa da Uva.

Baixa inadimplência. Os bancos disputam as folhas de pagamentos de servidores municipais e estaduais pela atratividade de ofertar crédito consignado a uma clientela de bons pagadores. Enquanto os atrasos de mais de 90 dias chegam a 7,2% de todo o crédito oferecido para o público geral, o nível de calote do crédito com desconto na folha é de 2,8% nos empréstimos a servidores públicos e de 5,1% nas operações com trabalhadores da iniciativa privada, de acordo com dados do Banco Central.

João Augusto Sales, analista de bancos da consultoria Lopes Filho & Associados, estimou que a inadimplência de servidores de prefeituras é somente um pouco superior à dos beneficiários do INSS (1,7%), a mais baixa entre todas as modalidades.

“É um bom começo os bancos terem a folha de pagamento também porque a possibilidade de reter essas contas, embora os funcionários tenham a opção de fazer a portabilidade, é muito grande”, explicou. De acordo com Sales, é razoável supor que a Caixa compense os patrocínios só pelo fato de ter conseguido esse “ativo”, que traz mais retornos do que os batimentos fiscais.

A Caixa confirmou, por meio de nota, que, “do ponto de vista negocial”, para avaliação e valoração das propostas foram considerados, dentre outros critérios, a existência da folha de pagamento do Estado ou município no banco.

O Banco Central (BC) informou, em nota, que patrocínios proporcionados por instituições financeiras não é tema regulado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), órgão do qual participa.

Já o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) argumentou que só pode se manifestar sobre denúncias de práticas anticompetitivas em procedimentos administrativos oficialmente instaurados. Segundo o órgão, até o momento, não foi recebida nenhuma denúncia nesse sentido.

Por Cleber Aguiar – No Flamengo: ‘Cair não passa pela cabeça’

Fonte: O Globo – RJ

O presidente Eduardo Bandeira de Mello e seus vices Wallim Vasconcelos, de futebol; Luiz Eduardo Baptista, o Bap, de marketing; e Rodrigo Tostes, de finanças, traçam um panorama do Flamengo

Carlos Eduardo Mansur 

Eduardo Zobaran

Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo Foto: Ivo Gonzalez / Agência O Globo

Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo Ivo Gonzalez / Agência O Globo

RIO – Em entrevista ao GLOBO, integrantes da cúpula da diretoria rubro-negra mostram convicção sobre priorizar a quitação de dívidas, mesmo com impacto no futebol, defendem os jogos em Brasília e dão explicações sobre o alto preço dos ingressos.

Ao planejar 2014, vocês temem estar na Série B?

Wallim: De jeito nenhum. Não passa pela cabeça.

O plano inicial era ser mais forte no Brasileiro, não?

Wallim: O elenco não é uma seleção, mas pode estar entre os dez. A situação financeira melhorou, mas ao assumirmos não sabíamos que devíamos R$ 750 milhões, que tinha Timemania vencida… Mas o time foi reforçado. Tem Elias, Mano Menezes, André Santos, Chicão, Marcelo Moreno, Gabriel e Carlos Eduardo, que ainda não performou, mas que, quando trouxemos, tinha vários times disputando a tapa. A gente acredita nele.

Vários deles são emprestados. Se o clube não puder comprá-los, o time terá que ser refeito em 2014?

Wallim: Esse risco sempre há. Vamos trabalhar para manter quem rendeu bem. Para o Elias, vamos montar uma operação eventualmente com a torcida.

Por que uma tradição foi rompida e o banco de reservas passou para o lado direito do Maracanã? Foi para pressionar bandeirinha?

EBM: Sou contra. Um monte de gente reclamou. Talvez Mano não soubesse da tradição.

Wallim: Pode ser revisto. Mas se o Mano quiser ficar do lado direito…

Para ter a Certidão Negativa de Débito(CND), gastou-se R$ 40 milhões e se gasta R$ 7 milhões mensais. Isto engessou o futebol…

Tostes: O Flamengo precisava renegociar a dívida para se livrar de penhoras, da imprevisibilidade. A CND representou legitimidade no nosso trabalho, trouxe redução de juros, liberou penhoras. O patrocínio da Caixa não cobre o gasto com a CND. Mas eu seria executado numa penhora de R$ 130 milhões. O Flamengo ia quebrar. Eu posso te garantir, em seis meses o Flamengo estaria falido. Qualquer dinheiro que entrasse seria penhorado. Só para sentar e conversar com a Procuradoria da Fazenda Nacional, tínhamos que pagar R$ 40 milhões. E isto nos dava o benefício da CND.

Wallim: Ninho do Urubu, todos os ativos iriam à penhora.

E já houve impacto?

Tostes: Da dívida de R$ 750 milhões, a auditoria mostrava que deveriam ser provisionados R$ 730 milhões. Hoje, este número é R$ 654 milhões. Já matamos quase R$ 80 milhões.

EBM: E há argumentos éticos e morais para pagar impostos. Temos 40 milhões de torcedores. Devemos dar exemplo.

O Flamengo tem identidade popular. Não temem perdê-la com ingressos caros?

Bap: Não vai perder. O que leva o torcedor a se envolver com o clube é a vontade de vê-lo ganhar. Para ser grande, o Flamengo precisa arrecadar. Com o tempo, com o clube melhorando, teremos time melhor, ingressos mais baratos. No Rio, de cada quatro pessoas, uma entra de graça, duas pagam meia, sendo uma sem direito. É perverso. Contra o Botafogo, ficamos com R$ 1,08 milhão e o Consórcio com R$ 1,2 milhão. Em Brasília, de cada R$ 2, ficamos com R$ 1. E o valor médio do ingresso é R$ 65 em Brasília e R$ 59 no Rio. Em Brasília sobra mais para o Flamengo, é onde o clube ganha mais dinheiro.

Ao pôr 53 mil pessoas em Brasília, contra o Coritiba, o Fla levou R$ 1,6 milhão. Com 38 mil no Maracanã, contra o Botafogo, ficou com R$ 1,25 milhão. Não é pouca diferença para mudar o clube de lugar?

Bap: Para a situação atual do Flamengo, desculpe: faz muita diferença. Sou carioca, acho que o Flamengo deve jogar no Maracanã. Mas temos obrigação de fazer o Flamengo grande. O valor que os profissionais ganham terá que ser arrecadado. A precificação é mais complexa do que o romantismo. A atratividade do jogo é mais relevante que o valor do ingresso para trazer público.

Ao resolver problemas imediatos, não se estará descaracterizando o clube popular, o clube do Maracanã?

Bap: Em absoluto. Então, o Barcelona deveria ser só amado em Barcelona.

Mas ele não se mudou de Barcelona para isso…

Bap: No longo prazo, vamos duplicar a torcida. Vamos construir um Flamengo muito mais forte. O Flamengo é líder de torcida em 23 estados.

Se for preciso, o Flamengo continuará itinerante?

Bap: Jogar em lugares diferentes tem uma limitação física, logística. Este é um ano de exceção.

Não há compromisso com a identidade, com um extrato da sociedade que sempre foi a cara do clube? Não deveria haver uma cota para eles?

Bap: O Flamengo é grande em todas as camadas sociais. A TV cumpre um papel complementar, leva a todas estas pessoas o Flamengo. O estádio não tem lugar para 40 milhões. Quando você fala de cotas eu me arrepio. De cada quatro pessoas no Maracanã, três entram de graça ou pagam meia. Não sei que cota mais podemos colocar. O compromisso maior é com a vitória. É o que o torcedor quer. Se o Flamengo fosse um saco de pancadas jogando a R$ 1 no Maracanã, o ingresso seria popular e ninguém iria ver. Se for grande e ganhador, vai atingir corações e almas da torcida.

Mesmo que se chegue no Maracanã e não se reconheça o Flamengo, o público tradicional do Flamengo?

Bap: Isso não vai acontecer.

Tostes: O estádio mudou. O consórcio tem custos maiores do que no passado. Isto tem que ser passado para algum lugar. E não foi opção do Flamengo.

Uma cota de 5 mil ingressos populares destrói o projeto financeiro do clube?

Bap: O Flamengo vai viver dos pobres, jogar um futebol pobre e ser um time pobre, porque o negócio futebol mudou. Atlético-MG x Olimpia deu R$ 14 milhões. Você acha que a torcida do Atlético-MG é só classe A?

Então para o assalariado, mais pobre, que não falsifica carteira de estudante, é ponto final do estádio?

Bap: Pode virar sócio-torcedor e pagar R$ 25.

Só se ele tiver carteira de estudante e pagar mais R$ 39,90 por mês.

Bap: Mas eu não pago Mano Menezes, Marcelo Moreno ou Messi com gratuidade. Isso sai da arrecadação do Flamengo. A questão é: o clube pode vender ingresso mais barato? O Consórcio vai dar alguma coisa de graça? Vai dar cota de ingresso barato?

Isso não impedirá a criação de torcedores nas classes baixas? Neymar e Messi jogam de graça na TV…

Bap: No estádio só cabem 50 ou 60 mil, não 40 milhões. A garotada torce para o time que é grande, vencedor. Se o Bonsucesso jogasse de graça no Maracanã, o menino pobre não iria querer ver. A fase que o Flamengo mais cresceu, em todas as classes, foi na geração do Zico. Porque era vencedor.

Wallim: Antigamente não tinha custo de estádio, jogadores ganhavam menos. Hoje tudo está em outro patamar. Em determinado jogo, de menor apelo, pode abrir atrás do gol para R$ 10.

O Corinthians tem setor de ingressos mais baratos.

Wallim: São Paulo tem gratuidade? Gratuidade e meia entrada nos impedem de subsidiar ingresso popular.

Tostes: E joga num estádio público. Quanto paga para jogar no Pacaembu?

EBM: Se um patrocinador bancar a arquibancada popular e distribuir este ingresso, num jogo de grande apelo, quem vai chegar lá de madrugada para comprar? Vai ser o assalariado ou o cambista? Aquele pessoal sem camisa, que aparecia no Maracanã, hoje não tem dinheiro nem para pegar o ônibus.

Bap: Quando o sócio-torcedor crescer e der previsibilidade de receita, o preço do ingresso ficará menos relevante. Nosso projeto não é elitista. Começa com preços mais caros, mas nada obriga que fiquem altos sempre.

Como será decidido o preço do jogo com o Cruzeiro, pela Copa do Brasil?

Bap: Primeiro, temos que fechar se vamos conseguir jogar mesmo no Maracanã. Se pudermos, será de acordo com a situação do time, a atratividade do jogo: se o Flamengo ganhar em Minas, se perder…

Por Cleber Aguiar – ‘Estou feliz porque hoje falam do meu nome’, diz Maxi Biancucchi

Fonte: O Estado de São Paulo

VÍTOR MARQUES – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Ele é argentino, natural de Rosário, e é um dos artilheiros do Campeonato Brasileiro. Chama-se Maxi Biancucchi, tem 28 anos e joga no Vitória. O parentesco com o primo Messi – lembrado muitas vezes de maneira maldosa pela comparação injusta com o melhor jogador do mundo – já não incomoda como nos tempos de Flamengo, em 2007. “Naquela época, isso me atrapalhou”, disse ele ao Estado. “Estou feliz porque hoje falam realmente do meu nome, seja de bom ou seja de ruim, independentemente do Messi.”

Maxi Biancucchi é argentino, natural de Rosário - Lucio Tavora/Agência A Tarde
Lucio Tavora/Agência A Tarde
Maxi Biancucchi é argentino, natural de Rosário

A seguir, leia trechos da entrevista exclusiva, em que ele fala da infância, de um trauma sofrido no início da carreira e da filha que vai nascer no Brasil e se chamará Vitória em homenagem ao clube baiano.

ESTADO – Como você explica esse bom momento do Vitória no Campeonato Brasileiro?
MAXI BIANCUCCHI –
Nós estamos com uma equipe boa, ordenada e que está fazendo um bom campeonato. Sabemos que é difícil, como foi o jogo que fizemos com a Portuguesa, que vencemos de virada. São equipes qualificadas, mas estamos focados.

ESTADO – Como analisa o time do Corinthians, que vem oscilando na competição?
MAXI BIANCUCCHI –
No Brasileiro, pode acontecer qualquer coisa. Você pode ganhar dentro de casa, como pode ganhar fora. Sabemos que vamos enfrentar uma equipe com grandes nomes, que vem de conquistas como a Libertadores e o Mundial. É uma equipe não temos nada para falar da qualidade dos jogadores. Mas temos um estilo de jogo e condições de ganhar.

ESTADO – Você é um dos artilheiros do Brasileirão, com oito gols. É a melhor fase da sua carreira?
MAXI BIANCUCCHI –
Como disse, nossa equipe é ordenada e estou jogando próximo ao gol, finalizando mais. Estou contente. Com certeza é a minha melhor fase, quando você consegue fazer gols, o que é bom para um atacante. Levando em conta os jogadores que disputam esse campeonato, para mim é muito importante ser o artilheiro.

ESTADO – Por que você nunca jogou na Argentina como profissional?
MAXI BIANCUCCHI –
Saí muito cedo de lá, eu joguei na base do San Lorenzo, mas me procuraram para jogar profissionalmente no Paraguai (no Libertad) e eu tinha 17 anos. Aconteceram muitas coisas, sofri um traumatismo craniano e fiquei sete meses sem poder jogar. Isso atrapalhou minha estreia como profissional. A recuperação demorou mais do que eu imaginava.

ESTADO – Como você se machucou?
MAXI BIANCUCCHI –
Em um treino, pulei para cabecear a bola, mas bati cabeça com cabeça. Não abriu nada, não foi uma batida forte. Mas eu levei a pior. O outro jogador só colocou gelo e eu tive de passar por uma cirurgia. Foi muito ruim, tinha 17 anos, fiquei sete meses sem jogar, em recuperação. Não fiquei com medo (de não jogar mais), mas fiquei triste pela situação. Mas depois, já como profissional, tive propostas de voltar à Argentina, inclusive do San Lorenzo, mas segui outros caminhos.

ESTADO – Como você chegou ao Flamengo, em 2007?
MAXI BIANCUCCHI – Estava
no Sportivo Luqueño (do Paraguai), nós fomos campeões depois de 54 anos e todo mundo ficou com moral. Aí chegou uma proposta do Flamengo, e era uma aposta do Flamengo, até pela minha idade. Tive uma primeira fase boa, fiz gol no Fla-Flu, mas depois me machuquei e perdi espaço, fui para a reserva. E jogador precisa de sequência.

ESTADO – Ficava incomodado quando se referiam a você apenas como primo do Messi?
MAXI BIANCUCCHI –
Era novo, e cheguei com esse nome, e quando você chega a um lugar e falam que você é primo de um jogador querem dizer que você é como esse jogador. Isso atrapalha, e naquela época atrapalhou. Mas hoje trabalho para fazer minha própria história, para que todo mundo me conheça pelo que eu faço, por isso neste momento estou feliz porque hoje falam realmente do meu nome, independentemente do Messi. Naquela época, ninguém me conhecia, quando jogava estavam sempre de olho se era pior ou melhor, comparações absurdas, porque o Messi é o melhor do mundo.

ESTADO – Como foi a infância de vocês em Rosário?
MAXI BIANCUCCHI –
Minha mãe é irmã da mãe dele e nós sempre andávamos juntos. Sempre, em aniversários… Ele morava a uma quadra da minha casa, a gente jogava bola, ele era mais novo, eu tinha uns dez anos, era normal, como qualquer família. Começamos a jogar num clube onde toda a família jogava bola, seu irmão maior, o outro do meio, depois eu, depois Messi, meu irmão, passávamos o sábado inteiro nesse clube de bairro.

ESTADO – Vocês já viam que o Messi era um craque desde pequeno?
MAXI BIANCUCCHI –
Sim, era um cara diferenciado do resto, ele tinha uns cinco anos e pegava a bola e ia de uma trave à outra driblando todo mundo, um absurdo, e isso num campo pequeno, de terra, sete contra sete.

ESTADO – Quando ele foi para o Barcelona, ainda menino, como sua família viu tudo isso?
MAXI BIANCUCCHI –
A primeira coisa que imaginávamos era que o menino seria profissional, isso todo mundo já tinha certeza, e isso já é o mais difícil. E que ele iria ser diferenciado, mas nunca imaginamos que ele teria toda essa genialidade no futebol.

ESTADO -Você mantém contato com ele?
MAXI BIANCUCCHI –
Muito pouco, falei agora antes da Copa das Confederações, conversei pelo WhatsApp (troca de mensagens por celular). Nós dois somos assim, não somos muito de falar.

ESTADO – O Messi vai ofuscar o Neymar no Barcelona?
MAXI BIANCUCCHI –
Os dois são craques, não tem como não dar certo. Acho que o Neymar vai ter de se adaptar, é normal, jogava no Santos, um campeonato diferente, e agora vai jogar em uma equipe já formada, mas vai dar tudo certo lá.

ESTADO – Você será pai outra vez. Sua filha se chamará mesmo Vitória?
MAXI BIANCUCCHI –
Temos uma filha mexicana e minha esposa é paraguaia. E vamos ter uma filha brasileira. Se fosse menino, até disse brincando que levaria para a Argentina. Conversei com minha mulher e vamos colocar o nome de Vitória, minha esposa gostou do significado e eu estou agradecido com o pessoal daqui, que me abri
u as portas.

Por Cleber Aguiar – ‘Já morri uma vez. Não tenho mais medo’, diz ex-goleiro Doni

Fonte: O Estado de São Paulo

Um ano depois de sofrer uma parada cardíaca, jogador larga o futebol de vez e se reinventa como empresário

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GONÇALO JUNIOR – O Estado de S. Paulo

RIBEIRÃO PRETO – Antes de morrer, Doni sentiu uma ânsia doida, uma vontade de vomitar. Aí, seu coração parou: 10, 15, 20 segundos… Os médicos conseguiram ressuscitá-lo com 25. Quando voltou, estava zonzo como se tivesse dormido cem anos. Só conseguiu falar depois de meia hora. E não se lembrava da ânsia. Lembrava de coisas antigas, da infância.

Os 25 segundos, mais ou menos o tempo de leitura do parágrafo anterior, mudaram a vida do goleiro. O exame foi feito no dia 3 de julho de 2012 e conduzido pelos médicos do Liverpool, clube inglês em que jogava. O objetivo era verificar uma arritmia, problema diagnosticado em 2004. Com as complicações, os médicos decretaram o fim de sua carreira. Esperançoso, refez os exames meses depois, na Itália. Dessa vez, ele não morreu, mas a arritmia continuou lá.

Em janeiro, última tentativa no Brasil. Nada feito. Com tantos “nãos”, abandonou o projeto de voltar a jogar futebol pelo Botafogo no Campeonato Paulista de 2014 e agora planeja um jogo de despedida com os amigos.“Deus não quer que eu jogue”, conforma-se tocando o terço prateado, contraponto à camiseta da moda, à calça larga e ao tênis caro.

Largar o futebol não é tão simples assim. Quando o filho Nicholas, que herdou dele os olhos puxados e a fome de bola, diz que gostaria de ver o pai jogando, o gigante de 1,94m e 104 quilos (dez a mais do que nos tempos de bola) treme na base. “Queria jogar um pouco mais por ele. Isso pega. Mas esse é o único ponto que me faz ter saudade do futebol. O resto já está ok”, conta o ex-jogador, que evita assistir aos jogos para sufocar o desejo de voltar.

Também amordaça a vontade de retornar ao futebol a vida atribulada de empresário em ascensão. A d32 eventos é uma empresa de entretenimento responsável pela exposição O mundo dos dinossauros, que fez sucesso no interior de São Paulo e vai rodar por 12 endereços, entre eles o Shopping Vila Olímpia e o Morumbi Shopping, ambos localizados na capital paulista. O próximo passo do ex-goleiro é trazer ao País uma roda gigante de 30 metros da Itália para grandes eventos, como o Lollapalooza (festival de música). Coisa inédita por aqui. Seus projetos incluem a criação da primeira escolinha brasileira da Roma, clube no qual atuou entre 2005 e 2011. Pretende instalar câmeras em todos os campos para que os pais – e os diretores da Roma, preferida para eventuais negociações – possam assistir aos pimpolhos em ação. O trabalho de Doni virou tratamento. “Tenho pouco tempo para pensar no que aconteceu.”

EXCESSOS DE TREINOS
Nabil Ghorayeb, maior autoridade brasileira em Cardiologia do Esporte, explica que arritmia designa as alterações do ritmo de batidas do coração. Pode ter causas genéticas (arritmia pura), decorrer de outras doenças, como mal de Chagas, ou do excesso de treinos. “O excesso de treinos pode deixar o coração suscetível às arritmias”, explica o médico, que é autor da Diretriz em Cardiologia do Esporte, documento da Sociedade Brasileira de Cardiologia e que, entre outras funções, normatiza os procedimentos preventivos no esporte.

Cardiologistas ouvidos pelo Estado avaliam que as paradas cardíacas estão diretamente associadas à arritmia. No caso de Doni, no entanto, pode ter havido erro médico. A hipótese foi levantada também na Itália, onde o ex-goleiro refez exames em novembro do ano passado e não teve nova parada cardíaca. Mesmo depois de fazer testes em que seu coração foi submetido a altas doses de adrenalina, o bichinho não parou. Aos 33 anos, e com o retorno ao Brasil em mente na época, Doni não quis levar a polêmica questão adiante com os médicos ingleses. Deixou para lá. “Não tinha a intenção de jogar até os 40. O futebol é muito desgastante.”

MESMA ROTINA
A arritmia não é uma coisa do outro mundo para um esportista. Estudos conduzidos por Ghorayeb com 12 mil atletas no Hospital Dante Pazzanese e no Incor mostram a incidência de arritmia em 15,5% dos casos. Na população em geral, o porcentual é de 10%. As medidas restritivas, naturalmente, variam de caso para caso e vão desde a inatividade, em que a pessoa não pode nem subir escada, até o uso de medicamentos, passando por restrições alimentares. Doni parou de jogar futebol, mas mudou pouco sua rotina. O prato de salada não é a regra, mas a exceção. Ele não dispensa uma costela no bafo com o amigo e empresário Bordon, ex-zagueiro do São Paulo, e brinca dizendo que adora carboidrato. Da cerveja. Com moderação, tudo bem.

Stela Sampaio, diretora do Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, explica que o problema são os alimentos que aceleram a frequência cardíaca, como café e energéticos – esses são os pecados de Doni. Academia, ok. Isso pode. “Eu não me sinto como um cardíaco porque não tomo remédio. Já morri uma vez. Não tenho mais medo”, brinca o campeão da Copa América em 2007.

Doni fala bem, olha nos olhos e diz frases com começo, meio e fim. Está feliz da vida porque finalmente participou de um aniversário dos filhos. Thalita, a mais velha, fez nove anos na sexta. Seu projeto é a família.

A cabeça também não mudou. Continua brincalhão. Vai à missa, mas com moderação. Ele só contou para a mãe a história da parada cardíaca dez dias depois, mas não perdeu o bom humor mesmo diante do fervor católico de dona Rose. “Mãe, suas orações foram em vão. Eu fui lá e vi que não existe céu, nem inferno”, provocou. A mãe não respondeu na hora, mas retornou a ligação no dia seguinte. “Filho, 25 segundos é pouco tempo. Não deu tempo de você chegar ao céu.”