Por Cleber Aguiar – Valcke: ‘Não se fará uma revolução no Brasil entre hoje e a Copa’

Fonte: O Estado de São Paulo

Secretário-geral da Fifa diz que não haverá tempo hábil para se investir em infraestrutura até 2014

JAMIL CHADE E LEONARDO MAIA – Enviados Especiais – O Estado de S. Paulo

RIO – Não haverá tempo hábil para, em um ano até a Copa do Mundo, o Brasil passar por uma “revolução” no que se refere à infraestrutura. Seis anos depois de o País ganhar o direito de organizar o Mundial, esse é o reconhecimento do secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, que sugere que até 2014 um novo esquema de transporte terá de ser implementado no Brasil para ligar as 12 cidades-sede. O cartola francês falou ontem com exclusividade ao Estado em seu escritório montado em um hotel de luxo em Copacabana.

Jérôme Valcke minimiza mudanças no País - Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão
Jérôme Valcke minimiza mudanças no País

A declaração vem num momento em que autoridades insistem em vender a Copa como uma oportunidade para realizar obras de que o Brasil precisava. Para isso, o governo promete R$28 bilhões em “investimentos”. Ele não deixou de alfinetar o governo, quando questionado sobre o motivo da demora, entre 2007 e 2010, para que um primeiro orçamento da Copa aparecesse.

Valcke ainda admitiu a “surpresa” diante dos protestos. Mas insistiu que manifestantes devem desistir de atacar a Fifa. “Não vamos embora. Não adiante brigar conosco.” O cartola admitiu que, diante das imagens de violência, uma das prioridades da Fifa a partir de agora será a de convencer torcedores pelo mundo a não desistir da ideia de viajar ao Brasil para a Copa.

Valcke chegou a ser declarado persona non grata no governo depois que sugeriu que o País levasse um “chute no traseiro” na preparação da Copa. Agora, sua preocupação deixou de ser apenas os estádios, mas salvar a imagem da Fifa para 2014 e garantir que os eventos dos últimos dias não afastem os milhares de turistas que estavam sendo esperados.

ESTADO – O senhor esperava este cenário de manifestações no Brasil?
VALCKE –
Não era o pior cenário esperado. Claro, não era uma coisa que se esperava, mas também ninguém esperava. Todos ficaram surpresos com a dimensão dos eventos. As pessoas também se surpreenderam com o fato de que uma minoria passou a fazer parte dessas manifestações de forma violenta. Isso é o que acontece sempre que há uma manifestação em qualquer país do mundo. Sempre há uma minoria que fica feliz em entrar em conflito com a polícia. Era algo que nem foi discutido antes do evento. Sempre que há um evento importante, e não só a Copa do Mundo, também há protesto. O que eu digo é que isso não tem a ver com o esporte. Sempre que temos a imprensa, onde a atenção do mundo está focada num lugar muito específico, potencialmente esse é o lugar para protestar.

ESTADO – Em Belo Horizonte, uma pessoa morreu. Como o senhor vê isso?
VALCKE –
Foi um acidente. Vamos ser claros, não foi uma pessoa que foi abatida pela polícia. Foi um acidente. É sempre triste quando alguém morre, mas foi só um acidente.

Vimos nas manifestações cartazes que pedem “Fifa, vá embora”. Nós somos o alvo errado. A Fifa não vai embora. É fácil focar na Fifa e dizer Fifa, vá embora, mas esse não é o ponto correto. Aquilo em que temos que nos concentrar é que o Brasil avance, e usar a Copa como um catalisador. Nunca vou admitir que dizer para a Fifa ir embora é a batalha correta a ser lutada. Não adianta pedir isso. Não é a batalha certa.

ESTADO – O que o senhor espera para a final no Maracanã, para quando está planejado um grande protesto?
VALCKE –
Em Belo Horizonte, vimos mais de 35 mil pessoas. Nas mídias sociais falava-se em mais de 200 mil, mas a realidade foi menor. A manifestação no fundo foi pacífica. Mas de repente tivemos um grupo que criou muitos problemas e uma pessoa que caiu e morreu. Seria triste resumir tudo que aconteceu dizendo que uma pessoa morreu. Apoiamos a família e todos os seus amigos, mas esse não é o ponto principal. Para domingo, de fato esperamos isso (uma grande manifestação), já que se trata do último jogo. E não há problema se ela for pacífica. O que eu espero é que não seja afetada por uma minoria.

ESTADO – O que o senhor espera fazer a partir de agora e até a Copa de 2014 para superar a imagem negativa que ficou?
VALCKE –
Sem a imprensa não há nada que possamos fazer. Teremos que trabalhar a mídia, a própria Fifa e o governo para que possamos explicar ao mundo que protestos podem ocorrer, que são parte da democracia e que não significa que as pessoas não devem participar junto com os 32 times e ir aos estádios. Eu espero que o movimento que estamos vendo nas ruas, e que chegou até Brasília, não continue até a Copa do Mundo. Claro que podemos esperar que algo ocorra durante a Copa do Mundo. E por que não pode acontecer até mesmo em 2016, quando toda a imprensa internacional estará aqui? O mais importante é o que faremos após a Copa das Confederações para explicar que manifestações são parte do que o país pode fazer. Trata-se de um país em desenvolvimento. Teremos que trabalhar na comunicação para dizer às pessoas que vocês podem vir, mesmo que haja protestos. Temos de dizer “olhe, os estádios estão cheios, na Copa das Confederações, e você também pode vir”. Podemos ter manifestações de um lado e jogos do outro.

ESTADO – Em 2007 já sabíamos que tínhamos de organizar a Copa do Mundo, mas até 2010 não se teve nenhuma informação sobre o orçamento. De quem era a responsabilidade?
VALCKE –
No que se refere aos investimentos em infraestrutura, como é o caso da Rússia para a Copa de 2018, é a própria Rússia que precisa apresentar os seus gastos. O que a Rússia chama de orçamento da Copa é cerca de US$ 20 bilhões, ainda que isso inclua também investimentos em aeroportos e transporte e apenas uma parte para a Copa em si. O governo é que tem que ter o orçamento. Desde o começo já tínhamos um orçamento com o COL. Na Fifa não temos nenhum poder sobre qual valor de recursos um governo quer gastar na Copa do Mundo.

ESTADO – Mas o senhor acha que é justo, num país com tanta desigualdade, usar dinheiro público para estádios?
VALCKE –
Mas esse dinheiro público são empréstimos. É um pagamento adiantado. Não é dinheiro público de verdade. Quando falamos de Maracanã, por exemplo, eu acho que eles conseguiram um bom acordo com Odebrecht e IMX para a concessão. Grande parte dos investimentos será feito por essas empresas. Esse é o modelo que está ocorrendo em todo o mundo. E o Brasil está apenas aplicando o mesmo modelo. Eu estaria de acordo com sua pergunta se o dinheiro fosse público. Mas esse não é o caso.

ESTADO – Mas o valor de R$ 1,2 bilhão do governo do Rio não vai voltar. Esses R$ 600 milhões da Concessionária que você diz são em obras do entorno, que não eram nem necessárias.
VALCKE –
Mas isso agrega valor. Veja o que está acontecendo com o estádio em São Paulo. Se olhar só o estádio, é um olhar míope. O que precisamos ver é o plano em torno de todo o estádio. Haverá muita coisa para milhões de pessoas que moram naquela região. Será dada uma nova área, até com hospitais e coisas que eles não têm hoje; trens que ligam ao centro da cidade. Isso é para garantir que o desenvolvimento não seja apenas nos estádios, mas sim para um perímetro maior. Isso levará a um aumento do valor das propriedades das pessoas que já estão lá, mas também trazendo uma nova vida e um novo futuro. Os estádios são apenas catalisadores disso tudo.

ESTADO – Como avalia os comentários de Romário sobre os gastos da Copa?
VALCKE
– Eu não quero nem falar de Romário. Eu não quero falar dele.

ESTADO – Faltando um ano para a Copa do Mundo, o Brasil está em dia com a preparação para 2014?
VALCKE –
Com o aprendizado do que aconteceu durante a Copa das Confederações, se conseguirmos manter os prazos até o final do ano, estamos num bom caminho.

ESTADO – Mas qual o grau de confiança que vocês têm de que os prazos serão mantidos, já que nenhum deles foi respeitado até agora?
VALCKE
– Esse torneio foi um bom ensinamento. Agora todos entendem porque pedimos que os prazos sejam cumpridos. Posso dizer que esta é a melhor Copa das Confederações que eu já vi. Isso em termos de nível esportivo, da paixão das pessoas e do apoio dos torcedores. As pessoas entenderam que a Fifa não pode receber um estádio em abril. Tivemos problemas, foram pequenos, mas tivemos problemas. Numa Copa das Confederações isso não é um obstáculo grande. Mas na Copa do Mundo pode ser um problema bem maior.

ESTADO – O que precisa mudar até 2014? A venda dos ingressos é uma das questões. Mas e transporte, hotéis, etc?
VALCKE –
Não se fará uma revolução no País entre agora e a Copa do Mundo. Parece que teremos que garantir uma melhor forma de conectar as 12 cidades para a Copa do Mundo, alguma forma mais fácil de voar entre as cidades. Tivemos a mesma situação na África. Quando queríamos ir da África do Sul para o Gabão, tínhamos que ir via Dubai ou Paris. Tentamos na África do Sul ter mais voos entre as cidades, e dar mais flexibilidade aos torcedores. No Brasil teremos que trabalhar com o governo para garantir que quem quiser voar entre as cidades-sede possa fazer sem problema. E que possa voar entre todas as cidades e o Rio. Talvez tenhamos de adicionar umas aeronaves.

ESTADO – Aparentemente, a Copa começou a funcionar com a saída do Ricardo Teixeira da CBF.
VALCKE –
Não há uma receita única. Cada país é diferente. Na África do Sul tínhamos um comitê com uns oito ministros. No Brasil, no início, havia o sentimento de que não se necessitaria de dinheiro público e que, portanto, não se precisava ter um representante do poder público no COL. Mas não podemos organizar uma Copa do Mundo sem o governo. Não funciona. Se não reconhecermos isso, temos um problema sério. Leva um tempo para aprender a trabalhar junto. Aprendemos. Houve também mudanças em Brasília. Ministros saíram e quando finalmente tivemos uma equipe estável, realmente a coisa ficou mais fácil.

ESTADO – O senhor se tornou um nome conhecido no Brasil depois de uma frase famosa. O senhor se arrepende de ter dito aquilo (“o Brasil precisa levar um chute no traseiro”)?
VALCKE –
Não vou responder essa pergunta diretamente. Eu disse o que eu disse e pedi desculpas. O passado é o passado. Agora temos que trabalhar para garantir que tudo funcione. Seja lá o que tenha sido dito, o resultado é que a Copa das Confederações é um sucesso. Há um momento em que podemos esquecer as coisas, não que elas tenham que ser perdoadas.

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