Por Cleber Aguiar – Paixão à prova da mudança de hábitos no Maracanã

Fonte: Jornal O Globo – RJ

Circular livremente pelo anel e trocar de lado na arquibancada são costumes que morrem, mas novos padrões de conforto e visibilidade prometem experiência única para o torcedor


RIO – O capitão perdeu na moedinha e os times trocaram de campo. A torcida se espreme nos apertados acessos da arquibancada para ganhar os corredores externos e garantir lugar do outro lado do anel. No compasso apressado da massa, uma parada para se aliviar num banheiro fétido, sem água e luz. Antes de se acomodar, uma ida ao bar, mas eles são distantes, não existem ou oferecem atendimento que não compensa a espera. Já sentado no córner oposto, a bola vai rolar. Costumes e sensações corriqueiras para os frequentadores do antigo Maracanã, eles prometem não se repetir. Ao padrão Fifa de se assistir ao futebol, que alguns veem como ameaça à legitimidade de uma paixão vivida pelo carioca por mais de meio século, o novo estádio anuncia mudanças de hábitos e percepções.

– Mudam comportamentos, não a sensibilidade – argumenta Ícaro Moreno, presidente da Empresa de Obras Públicas do Estado (Emop), parceira do consórcio encarregado da reforma do Maracanã. – Ele não foi abaixo como Wembley. O recheio da empada é outro, mas a alma continuará sendo a mesma.

Proximidade dos ídolos

Após dois anos do início das obras que preservaram a fachada e puseram abaixo mais de 80% da arquibancada, o Maracanã tem novamente uma cara. A parte bruta da reforma, de concretagem e montagem de estruturas metálicas, está pronta. O anel, com dois níveis e 110 camarotes a separá-los, fechado. Em números, corresponde a 66% do trabalho. Sessenta e dois por cento (R$ 248 milhões) do financiamento do BNDES já foram liberados. A entrega segue confirmada para a última semana de fevereiro de 2013. O preço final, não. Segundo Ícaro e representantes do consórcio, por se tratar de uma reforma, o custo pode ultrapassar os R$ 860 milhões atuais — a lei 8666, das licitações, impede que supere 50% do valor contratado, de R$ 705 milhões. O teto é de R$ 1, 057 bilhão. Os engenheiros afirmam, porém, que, fisicamente, o estádio ganhou contornos definitivos. Estará livre de investidas oportunistas que, na preparação para os Jogos Olímpicos de 2016, por exemplo, assaltem a saúde financeira dos cofres públicos.

O tempo é de acabamentos. Alvenaria, emboço e cerâmica, que farão predominar no estádio diferentes tonalidades de cinza como o original de 1950. Em novembro, serão içados os cabos que sustentarão a cobertura. Por último, a colocação dos assentos retráteis multicoloridos e o gramado, que está sendo plantado numa fazenda no Estado do Rio e será trazido em rolos, no início de fevereiro. Como o lençol freático fica a 80 cm abaixo do solo, a drenagem a vácuo, recomendada pela Fifa e motivo de polêmica, foi descartada.

Os caminhos para se chegar ao Maracanã farão parte da nova experiência. Além das rampas do Bellini e da Uerj, o torcedor poderá entrar e sair pelas ruas Mata Machado, Eurico Rabelo e pela Avenida Radial Oeste. Como a arquibancada foi aproximada do campo, as lajes de circulação serão mais largas e estarão vigiadas por câmeras a inibir os mijões que atentavam contra o pudor e disseminavam o mau cheiro por todos os pavimentos. Nos setores norte, sul e leste eles passam a ser três. No oeste, o da imprensa, cinco.

– O sistema de monitoramento, controle de acesso e tecnologia são ganhos que conferem modernidade e inibirão a ação de vândalos. O Maracanã será um grande Big Brother – explica o gerente de produção do consórcio, Eduardo Poley.

Os estreitos corredores que levam ao interior da arena, aqueles da primeira e inesquecível visão do tapete verde e do pânico de pais acompanhados de crianças em dias de lotação, também cresceram em tamanho e quantidade. Se a setorização acabará com a liberdade de circulação pelo anel, um dos charmes do antigo estádio que, mal aproveitado, facilitava a atuação dos baderneiros, a visão mais ampla, a proximidade do campo e a acústica amplificada pela cobertura quase completa da área construída aumentarão a percepção a emoção do espetáculo.

– A paixão será reafirmada por outras sensações – define Ícaro Moreno. – As novas visibilidade e acústica criarão um ambiente que resultará numa interação muito maior entre o público e seus ídolos. O Maracanã vai continuar lindo, criará cultura e exigirá educação.

Por Cleber Aguiar – Mano diz estar no caminho certo e ataca o baixo nível das críticas

Fonte: Folha de São Paulo

SELEÇÃO Técnico diz que problemas do futebol estouram em quem não é responsável por eles

MARTÍN FERNANDEZ
ENVIADO ESPECIAL A RECIFE

O técnico Mano Menezes, 50, tem convicção de que seu trabalho na seleção brasileira está no caminho certo. Em entrevista exclusiva à Folha, o treinador afirma ter a obrigação de pensar que estará no cargo na Copa de 2014.

Mano afirma que algumas críticas são “oportunistas” e de “baixo nível”, e que problemas do futebol brasileiro estão “estourando na mão de pessoas que não têm responsabilidade sobre eles, como o técnico da seleção”.

Folha – Este é o seu momento mais difícil na seleção?

Mano – Não. O mais difícil foi na primeira parte do trabalho, que durou até a Copa América [de 2011, na Argentina], onde unimos jogadores novos com alguns remanescentes da Copa de 2010, e o resultado não foi bom.

Em algum momento desses dois anos pensou em sair ou se arrependeu de ter entrado?

Não. Quando aceitei o convite não tinha a ilusão de que seria tranquilo, porque não foi para ninguém antes. Ao mesmo tempo que a função cria dificuldades e te expõe muito, dá orgulho e a satisfação de construir algo grandioso, que é representar o Brasil na Copa.

Tomando 2010 como ponto de partida e 2014 como de chegada, em que estágio a seleção se encontra?

O planejamento era estar depois dos Jogos Olímpicos com um grupo bastante definido, para fazer uma última parte do trabalho. E estamos com o grupo definido. O fato de termos mais dificuldade numa partida específica serve apenas para críticas pontuais, e às vezes oportunistas.

A impressão é de que o time chegou pronto à Olimpíada e saiu desmontado de lá.

Concordo em parte. Se no momento final, no mais importante, não atinge o objetivo, é porque faltou alguma coisa e algo precisa ser revisto. É o que estamos fazendo agora.

Quantas vezes você reviu a final da Olimpíada?

Dez vezes.

E que conclusões tirou?

Ficou claro que precisa-se de algo a mais para ser campeão. É uma questão coletiva que estamos analisando. Tomamos um gol a 20 segundos e não tivemos trabalho de equipe para conseguir reverter. Ainda nos faltam pequenos detalhes, ajustes finais.

Saiu Ricardo Teixeira, entrou José Maria Marin, o que isso mudou para o seu trabalho?

Mudou o estilo do comando, mas não internamente a autonomia que tenho para conduzir o trabalho.

Marin fala mais de futebol, gosta de ver as convocações…

O fato de compartilhar a informação com mais pessoas não quer dizer que você perde autonomia. A gente tem participação maior do presidente, está mais próximo. Eu tenho total respaldo para conduzir o trabalho. Nunca houve dificuldade de relacionamento ou de entendimento.

O que pensa sobre a vaia que a seleção recebeu no Morumbi?

O torcedor vaiou a seleção ao longo da história, mas também apoiou. A seleção já jogou bem e mal com todas as formações, em todos os momentos, em todas as circunstâncias. O que precisamos atacar é o baixo nível a que algumas coisas chegaram.

Por exemplo?

Os termos usados, a falta de respeito, isso não é bom para ninguém. Esse tipo de situação gera reação, daqui a pouco os atacados vão se sentir na obrigação de responder. E vai se estabelecer uma discussão de baixo nível, que não vai resolver os problemas do futebol brasileiro.

Você se sentiu pessoalmente atacado ou injustiçado?

De um modo geral, não. Não tenho do que reclamar da postura da imprensa. Mas existem as pessoas que colocam seus interesses acima, e isso também atrapalha.

A seleção paga por atrapalhar os planos dos clubes?

A seleção precisa estar acima dos clubes. Houve uma ruptura na boa relação que sempre tivemos. Parece claro que temos questões importantes a resolver no nosso futebol, e estamos protelando essas discussões há um bom tempo.

Mas não deveria partir da CBF resolver o calendário?

Esta é uma discussão bastante ampla. Temos que pensar nisso, todos. Não pode mais continuar como está, porque está estourando na mão de pessoas que não têm responsabilidade sobre isso, como o técnico da seleção.

O Brasil é favorito para a Copa das Confederações?

Ainda não. Temos seleções que estão à frente do Brasil, uma delas é a Espanha. O que não quer dizer que o Brasil não tem condição de ganhar.

Você se vê em 2014?

Eu estou trabalhando para isso. A cada dia, cada decisão que tomo é baseada em estar em 2014. É minha obrigação saber me conduzir no processo, com mais ou menos pressão. Sabia que seria assim.

Se você vem dirigindo à noite por uma estrada deserta e vê o Romário sozinho, pedindo ajuda, o que faria?

Eu o ajudaria.

por Cleber Aguiar – Torcedores e internautas

Fonte: O Estado de São Paulo

Gonçalo Junior e Paulo Fávero

Aficionados mostram paixão pelo futebol nos celulares, tablets e computadores

O celular de Camila Borsatto tocou quando ela estava começando a apresentação de um trabalho da aula de Tecnologia da Informação Aplicada ao Esporte. Até os alunos mais dispersos olharam para ela. Silêncio. O tum-tum do seu coração soou tão alto quanto o segundo toque do celular. Camila leu o visor do aparelho, leu e suspirou. A mensagem anunciava o empate entre Atlético-PR e Ipatinga, por 1 a 1, pela 21.ª rodada da Série B do Campeonato Brasileiro. O professor levou tudo na esportiva. Corintiano e bem-humorado, transformou o episódio em um momento de descontração. E a apresentação continuou.

O celular é indispensável para que os torcedores comentem os jogos e troquem informações - Alex Silva/AE
Alex Silva/AE
O celular é indispensável para que os torcedores comentem os jogos e troquem informações

Camila havia pedido para um amigo informá-la sobre o placar do jogo pelo Twitter, microblog que envia mensagens com até 140 caracteres. Como a aula era na hora do jogo, não dava para esperar. “Troco informações com uma rede de amigos na hora do jogo, sobre contratações, planos de jogo. Estou sempre conectada e torcendo”, diz a pós-graduanda do curso de Administração e Marketing do Esporte.

Com os estádios cada vez mais vazios, por causa do alto preço dos ingressos, e os fãs cansados da passividade de apenas contemplar as partidas pela TV, uma nova forma de torcer está surgindo no Brasil e ganhando cada vez mais espaço e adeptos. Se antes tínhamos o torcedor de estádio e o de televisão, agora existe o “torcedor de internet” que, independentemente de assistir aos jogos, faz questão de comentar pelas redes sociais usando o celular, tablet ou computador.

Estudante de Ciências Contábeis, Maurício Matsueda fica conectado 16 horas por dia – 80% do tempo respirando futebol. Além de contribuir com várias publicações do norte do Paraná e interior de São Paulo, Maurício fala diariamente com torcedores, jogadores e jornalistas. “Só não estou na internet quando estou dormindo”, brinca.

Interatividade. Em recente pesquisa do Ibope, o Brasil aparece como recordista mundial em porcentagem de internautas nas redes sociais. Segundo o documento, 87% dos internautas do País entram em sites de redes sociais, à frente de países como Itália (80%), Espanha (79%), Japão (79%).

Outro dado interessante é que, no Brasil, 27% da população consome simultaneamente TV e internet. “Assistir aos jogos e interagir com os amigos formam uma maneira mais divertida e dinâmica de participar do jogo. Os torcedores deixam de ser meros espectadores e se tornam mais ativos”, explica Marcos Bedendo, professor de Gestão de Marcas e Marketing Estratégico na ESPM.

Atento a essa tendência, o empresário Eduardo Ruschel ajudou a criar o PalpitEROS.com, uma rede social que reúne os amantes do futebol. Ela pode ser considerada a primeira torcida organizada virtual do Brasil e representa a ponta do iceberg de um movimento que toma conta do Twitter, Facebook, blogs, fóruns e sites.

“A discussão da mesa de bar foi para o online. Estamos com 81 mil usuários em quatro meses de atividade”, conta, lembrando que no espaço virtual o torcedor pode dar notas para os atletas e debater o assunto. Como essa rede, existem milhares de comunidades que seguem o mesmo princípio: aldeias virtuais que vivem da paixão do futebol.

Nova relação. Esse movimento está produzindo um barulho tão vibrante como o das massas nos estádios. As redes sociais abriram a porta para que os jogadores começassem a ouvir a torcida. Especialistas em Marketing Digital ouvidos pelo Estado afirmam que o contato com os jogadores não é mais a sensação das redes; a troca e a interação com os craques é o novo estágio. Neymar, por exemplo, sabe lidar com o público virtual. Até quando não está em campo, posta mensagens de apoio para o Santos, o que cativa o internauta. Mas nem tudo são flores nesse novo relacionamento. O meia Valdivia, do Palmeiras, abandonou o Twitter depois das críticas.

No caldeirão de novos hábitos aquecido pelo fogo brando das redes sociais, chama a atenção a participação feminina. “Somos tratadas de igual para igual nas redes. O que era preconceito virou admiração”, orgulha-se Camila.

Bedendo enxerga aí um novo movimento de afirmação. “A internet não é um ambiente que intimida como o estádio e, assim, as mulheres ocupam seu espaço”, argumenta o professor, pinçando outro significado do toque fora de hora do celular de Camila.

ALDEIA GLOBAL

– 50 milhões de mensagens são enviadas diariamente pelo Twitter no mundo todo. Em 2008, um ano depois de sua criação, o número era de apenas 300 mil por textos/dia.

– 120 milhões de usuários estão cadastrados no Twitter no mundo todo, que postam 36 mil mensagens por minuto, isto é, uma média de 51 milhões de tweets por hora. Só o Brasil possui 10 milhões de usuários cadastrados.

‘As redes criam uma nova forma de torcer’

Professor da ESPM diz que a internet permite chamar quem está longe para uma conversa, ampliando os laços

O torcedor que abre mão do amigo ao lado ou do sofá com a família para vibrar nas redes sociais não está se afastando do convívio social. Ele está chamando quem está distante para dentro da conversa.

Essa é a opinião de Marcos Bedendo, professor de Gestão de Marcas e Marketing Estratégico na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Tenho uma visão positiva sobre esse fenômeno. As redes sociais não substituem o contato físico, mas o complementam. Elas representam mais um canal de comunicação e aproximação. No caso do futebol, é uma nova forma de o torcedor mostrar sua paixão”, diz o professor, especialista em comportamento aplicado ao consumo.

Para Bedendo, o torcedor que digita durante o jogo não é menos apaixonado do que aquele se esgoela pelo seu clube do coração. “Quando falamos ou escrevemos, estamos racionalizando a paixão pelo clube. Não tem jeito. O único cuidado adicional que devemos tomar na hora de torcer pelas redes sociais é com as audiências. Pessoas de todos os nossos círculos – profissional, familiar e pessoal – podem receber as mensagens e a palavra escrita tem um peso maior do que a falada”, argumenta.

Embora o fenômeno seja recente, Bedendo acredita que ele tenha vindo para ficar. E a exemplo de inúmeros comportamentos modificados com o advento da internet, também vai deixar sua marca nas competições esportivas. Nos Jogos de Pequim, por exemplo, eram publicadas 300 mil mensagens por dia no Twitter, site criado em 2007. Atualmente, são mais de 50 milhões textos limitados a 140 caracteres.

O professor da ESPM estuda o tema, mas não passa da teoria para a prática. Definindo-se como um “são-paulino clássico”, aquele que torce apenas nos momentos decisivos e tem uma postura crítica, Bedendo evita os comentários fanáticos nas redes sociais exatamente em virtude do que citou no início: as audiências.

“Prefiro comentar nas redes sociais apenas os temas relacionados à minha área”, esquiva-se.

Por Cleber Aguiar – O lugar do torcedor

Fonte: Jornal O Globo – RJ

No caminho para a Copa do Mundo de 2014, o Brasil investe na modernização dos estádios, mas ainda busca uma forma de combater a violência de facções organizadas. Em meio a planos de reformulação e antigos problemas, que cara terão as novas arquibancadas do país?

Por Pedro Sprejer

Nas últimas semanas, dois assuntos têm causado repercussão no universo futebolístico. O primeiro é o anúncio de que, em outubro, o governo estadual lançará, enfim, o edital para a concessão do novo Maracanã, que poderá ter Flamengo e Fluminense como parceiros da iniciativa privada na administração. Outro tema, discutido dos noticiários aos botecos, é a enérgica ofensiva do poder público contra a violência de torcidas organizadas no Rio e em São Paulo, suspensas e banidas dos estádios.

Quando sobrepostos, o renascimento do Maracanã reconfigurado, carro-chefe de uma série de novas arenas em construção para a Copa de 2014 (como o Itaquerão, em São Paulo), e o combate à violência nos estádios — e fora deles — sinalizam um momento de mudanças no futebol nacional. Nesse novo cenário, qual será o lugar do torcedor comum e do modo de torcer “à brasileira”?


De acordo com o historiador Bernardo Borges Buarque de Hollanda, autor de “O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro” (7Letras), o primeiro registro de incidentes fatais entre torcidas no Brasil ocorreu em 1988, com o assassinato premeditado do presidente-fundador da palmeirense Mancha Verde. Sete anos depois, o rápido agravamento dos conflitos levou a Justiça paulista a banir torcidas violentas, após o episódio conhecido como “batalha campal do Pacaembu”, durante um jogo entre Palmeiras e São Paulo. No Rio, a mesma estratégia foi tentada na época. Nos dois casos, as medidas não tiveram o efeito esperado: as torcidas paulistanas ressurgiram como escolas de samba e as cariocas recuperaram na Justiça o direito a entrar nos estádios.

No mês passado, após as mortes de um vascaíno e de um flamenguista, a Justiça suspendeu por seis meses a presença da Torcida Jovem do Flamengo e da Força Jovem do Vasco nos estádios do Rio. Ainda em agosto, 21 integrantes da Young Flu foram presos por agressão a torcedores vascaínos antes de um clássico do Campeonato Brasileiro. No último ano, mais de 370 torcedores foram presos no Rio, segundo dados do Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (Gepe).

Para Buarque, medidas como essas podem ajudar a conter a “espiral de violência” entre torcidas e mostram a necessidade de um debate público sobre a relação entre as organizadas e os grandes clubes:

— Estamos vivendo os efeitos perversos deste tipo de política clubística — diz Buarque, lembrando que, desde os anos 1990, as instituições distribuem milhares de ingressos a torcidas organizadas. — Isso as fortaleceu e, ao mesmo tempo, as inchou. O agigantamento dessas torcidas fez com que elas se desmembrassem em subpoderes territoriais. Estes levaram os conflitos para longe dos estádios, mais precisamente para os bairros de origem dos torcedores.

Autor de “Ronaldo: glória e drama no futebol globalizado” (Editora 34), o historiador Jorge Caldeira atribui o aumento da violência no futebol a um “declínio civilizatório” ocorrido nas últimas décadas, dentro e fora dos estádios. Para Caldeira, ainda há uma grande indefinição sobre a forma como os gestores das novas arenas — pautadas pelas normas de conforto e segurança da Fifa — vão lidar com a questão. Torcedor da Portuguesa de Desportos, ele espera que as medidas para coibir a violência não passem pela elitização do estádio ou pela descaracterização de um modo de torcer à brasileira:

— Quem tem que ser protegido é o torcedor que quer se divertir, seja pobre ou rico. Isso precisa ser levado em conta por essas arenas. O grande torcedor da Lusa é o Sardinha, um cara cuja vida é ir para os jogos. O estádio não tem a mesma graça sem ele.

O paradigma mundial de controle da violência e dinamização econômica do futebol foi a transformação da Liga Inglesa, ocorrida a partir de fins dos anos 1980. A mudança radical nasceu de um trauma. Na verdade, uma tragédia anunciada: a morte de 96 torcedores asfixiados contra um alambrado em um superlotado Liverpool x Nottingham Forest, pela Copa da Inglaterra, em 1989.

Pondo fim a um longo declínio econômico e combatendo severamente o “hooliganismo”, o futebol inglês conseguiu, ao longo dos anos 1990, criar uma liga bilionária, turbinada pelo boom imobiliário dos novos estádios e por frondosas cotas de TV. Com isso, tornou-se um case de sucesso para o mundo, mas afastou parte do público tradicional e, como define o jornalista e escritor inglês radicado na Espanha John Carlin, “aburguesou-se”.

Tim Vickery, jornalista esportivo e correspondente da BBC no Brasil, frequentou os antigos estádios ingleses, ainda com preços populares, arquibancadas sem cadeiras e torcedores amontoados feito gado nos jogos mais importantes. O novo paradigma, diz Vickery, conseguiu conter a violência, pelo menos nos estádios. Mas, com preços inflacionados, acabou por renegar uma massa de torcedores tradicionais. O outro lado da moeda foi que mulheres, crianças e imigrantes de outras etnias, antes repelidos pelos arruaceiros mais sectários, ganharam acesso aos estádios:

— Houve exclusão, porém a inclusão de novos grupos foi maior e mais importante — aponta Vickery. — Só que o Brasil vive outra realidade, não pode copiar a Inglaterra. Aqui não há minorias étnicas proibidas de ir ao estádio. Muita gente poderá ser excluída pelos preços nesse processo, sem muitos ganhos em contrapartida.

O preço dos ingressos nas futuras arenas como o novo Maracanã e o Itaquerão ainda não foi definido, mas Vickery acredita que um aumento seria um erro estratégico no Brasil, uma vez que já vem sendo difícil encher estádios com os preços atuais. Em 2011, a média de público do Campeonato Brasileiro foi de 14.976 torcedores, enquanto a da Major League Soccer norte-americana, por exemplo, foi de 17.870 pagantes.

— Uma solução interessante seria fixar preços mais baixos para o ingresso e ganhar em cima de comida e bebida — sugere.

Caso o cronograma da obra se confirme, o novo Maracanã abrirá os ainda majestosos portões no dia 28 de fevereiro de 2013. Com capacidade reduzida para 79 mil lugares, poltronas de cinema, novos camarotes, áreas VIP (e até mesmo VVIP), será um estádio distinto de seu antecessor, do qual ostentará apenas a carcaça, como reza a cartilha do retrofit arquitetônico. Aquele que já foi “o maior estádio do mundo”, erigido sob o signo da grandiosidade nacional e da união das massas sublimada pela catarse futebolística, cederá lugar à moderna arena de espetáculo, com maior conforto, segurança e infraestrutura, telões de última geração e lojas em espaços anexos.

Estádios para poucos, pay per view para cada vez mais espectadores e TV aberta para a massa: será essa a nova lógica do espetáculo futebolístico? Autor de “Passes e impasses: futebol e cultura de massa no Brasil” (Vozes) e professor do departamento de Comunicação da Uerj, Ronaldo Helal aponta o crescimento do público espectador nos bares, mas acredita que há um contingente de torcedores, em parte oriundos da nova classe média, dispostos a pagar um pouco mais por um estádio mais sofisticado:

— O torcedor paga mais caro se o estádio é arrumado. É preciso ter preços mais populares, sim, mas as pessoas estão com mais dinheiro também — acredita Helal.

Autor de “Veneno remédio: o futebol e o Brasil” (Companhia das Letras), José Miguel Wisnik evoca o fantasma do “geraldino” — torcedor popular da extinta geral do Maracanã — para ilustrar uma transformação no conceito dos estádios.

— Em “Garrincha, alegria do povo”, de Joaquim Pedro de Andrade, os protagonistas do filme são Garrincha e o povo, unidos no Maracanã. O torcedor da geral é a cara de uma era do Brasil que já terminou. A reformulação estrutural do estádio arremata esse processo, que já vem se dando faz tempo, no mundo, com a substituição do estádio caldeirão social pelo estádio de facilidades ao consumidor.

Bernardo Buarque acredita que, mesmo em arenas projetadas para outro modelo de espetáculo, é possível reviver e reinventar a vibração e a alegria que marcaram as arquibancadas do país:

— Por mais que seja constatada a tendência a elitizar, a atomizar e a individualizar a experiência de torcer nos estádios, é sempre possível subverter, recriar e carnavalizar as formas estandardizadas — diz Buarque.

O futuro do ‘estádio-nação’

Especialista na história das torcidas, Bernardo Buarque de Hollanda discute transformações na dinâmica dos espectadores e analisa conflitos entre organizadas

 

Por Pedro Sprejer

Professor-pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas e autor de estudos sobre o futebol na cultura brasileira, o historiador Bernardo Borges Buarque de Hollanda criou o termo “estádio-nação” para definir um modelo monumental de arena que materializou um desejo nacional de grandiosidade, integração e modernidade. Em entrevista ao GLOBO, ele analisa o esgotamento desse padrão e outros temas, como a gênese das torcidas organizadas.

Você cita a Arena da Baixada, estádio do Atlético Paranaense inaugurado em 1999, como a primeira expressão no Brasil de um novo modelo internacional de estádio, surgido a partir dos anos 90. O novo Maracanã e o Itaquerão parecem se basear nas mesmas concepções. Que modelo é esse e como ele está associado a uma nova economia do futebol?

É o modelo de estádio inglês, criado com a Premier League. Um exemplo emblemático: em 1993, o Liverpool pôs fim no seu estádio ao setor atrás do gol onde se situavam os torcedores mais fervorosos, reduto dos hooligans. Este local, desvalorizado pela precariedade do ângulo de visão, era o preferido dos jovens proletários britânicos. Era um espaço aberto, no qual se podia transitar livremente. Nos anos 1990, uma cirurgia arquitetônica instaurou os all-seater, isto é, uma nova concepção de plateia esportiva. Esta compartimenta as tribunas e atomiza os torcedores nas áreas internas das arenas esportivas, de modo a inibir a liberdade de circulação. Com isto, induz-se o torcedor a assistir sentado às partidas, segundo um paradigma de conforto, segurança e individualidade definido como positivo pelos gestores do futebol.

Com capacidade de público reduzida, áreas vip e megatelões de ponta, o novo Maracanã parece diferir de aspectos da concepção original do estádio, na década de 40, como o caráter monumental da construção e a capacidade de reunir uma massa formada por classes sociais heterogêneas. Tais fatores perderam relevância no momento histórico atual?

Para entendermos a nova acepção social do torcedor de estádio, é preciso entender a presença crescente de outro personagem: o telespectador. A televisão tornou prescindível o modelo de estádio paradigmático dos anos 1950, aquilo que chamo de “estádio-nação”. O critério de grandeza era predefinido pela capacidade de afluência do público, principal fonte de renda do futebol até os anos 1980. Para dar um exemplo: na final da Copa do Mundo de 1950, 10% da população carioca compareceram ao Maracanã. À medida que o telespectador se torna mais importante que o torcedor, não há mais razão para estádios de grande porte. A inversão é simples: menos lugares, valores mais altos. Os ingressos a R$ 60 levam a uma espécie de asfixia das classes menos favorecidas economicamente, que tendem a ver o jogo em casa ou nos bares. A tendência, portanto, é a seguinte: o futebol continuará um esporte televisivo popular no Brasil, ao passo que seus estádios sofrerão um processo de homogeneização, com a frequência preponderante da classe média.

A analogia entre um show de rock e um jogo com astros do futebol é feita pelos que justificam que o estádio deve ser para quem pode pagar mais pelo espetáculo. Na sua opinião, a torcida pode ser vista apenas como plateia, ou é parte indissociável do espetáculo?

A analogia parece apropriada, mas também vale acionar as imagens do estádio-teatro e do estádio-shopping. A torcida é a participação contínua ao longo do jogo. Não se trata de uma espera, mas de uma ação continuada, que se quer interventiva. A diferença fundamental entre a atividade da plateia esportiva e a passividade da plateia teatral foi o que fez Bertolt Brecht encantar-se com o boxe na Alemanha dos anos 1920. Ter o público como ator, e não como mero espectador, levou-o a elogiar a modernidade dos espetáculos esportivos. Mas por mais que seja constatada a tendência a elitizar, atomizar e individualizar a experiência de torcer nos estádios, é sempre possível subverter, recriar e carnavalizar as formas estandardizadas.

Você descreve, em suas pesquisas, como as torcidas organizadas cariocas se configuram, nos anos 40, a partir da incorporação de elementos dos desfiles das escolas de samba, como animação, música, uniformização e organização. A partir de quando a violência se tornou elemento constante nas organizadas?

Não se deve cair na armadilha de contrapor um passado idílico — supostamente pacífico — a um presente exclusivamente violento. Os distúrbios estão presentes nas praças de futebol desde seu surgimento, no início do século XX. Nos idos de 1920, um cronista referia-se a “arremedos de guerrilha”, ensaiados por torcedores rivais. Havia brigas dentro e fora dos estádios. Durante a pesquisa, o mais surpreendente foi descobrir que as organizadas foram criadas nos anos 1940 justamente para enquadrar e disciplinar o comportamento “desviante” dos torcedores nas arquibancadas. O chefe da torcida era o auxiliar do chefe da polícia. Havia o medo generalizado com a multidão e com a conduta do indivíduo no anonimato de estádios cada vez mais agigantados. Este sentido disciplinador das torcidas foi alterado ao longo dos anos 1970, quando estas se desmembraram em mais de uma associação de torcedores por clube.

Há um novo modelo de torcidas organizadas surgindo?

Os “movimentos” de torcedores, que surgiram no Rio em 2007, em contraponto às Torcidas Jovens, canalizaram boa parte da insatisfação com o modelo vigente de torcidas organizadas e procuram reatar o elo originário com o clube. São, em parte, congruentes com as transformações em curso na gestão do futebol e na remodelagem dos estádios, mas não estão imunes, com o tempo, a vivenciar as mesmas contradições: crescimento, aumento de poder, conflitos internos e apelos por dissidências.

ICFUT – Mulher de Breno dá sua versão para incêndio que devastou casa e família

Fonte: globo

Renata rompe silêncio, nega caso com ex-empresário, critica defesa do jogador e detalha fatídica noite: `Chorei por 20 minutos a morte dele`

Quase um ano depois do fogo que destruiu a casa do zagueiro Brenoe levou a Justiça alemã a condenar o ex-atleta de São Paulo e Bayern de Munique a três anos e nove meses de prisão por incêndio proposital, a família do jogador tenta se reconstruir. O filho, Pietro, de apenas três anos, perguntou na última visita à cadeia quando o pai vai voltar do trabalho. Após amargar o silêncio e viver uma espécie de “prisão psicológica”, Renata Borges, a esposa, contou ao GLOBOESPORTE.COM detalhes do incidente, o que tem feito para seguir a vida com as três crianças do casal e como o marido vive a pena.

Proibida de dar entrevistas antes do veredicto, Renata contou que foi instruída pelo advogado que defendeu Breno a ficar calada durante todo o processo. Muitas versões para o problema que condenou o zagueiro foram dadas. Mas ela garante que o relato abaixo tem toda a verdade sobre o episódio.

– Acho que está na hora de as pessoas saberem a verdade – avisou Renata, que diz ter pensado no pior quando viu o incêndio na casa e ter chorado por 20 minutos a morte do marido.

Renata revelou que no dia seguinte ao incidente (19 de setembro de 2011), Breno ia fazer sua quarta cirurgia no joelho e que isso teria deixado o ex-são-paulino muito triste. Em detalhes, lembrou a data. O fato de não estar jogando e não estar recebendo salários (quando o atleta fica mais de 45 dias sem atuar na Alemanha, passa a receber um seguro no valor aproximado de € 10 mil, pouco mais de R$ 25 mil), teria feito com que o zagueiro bebesse algumas cervejas, uma garrafa de vinho do Porto e ainda uma de uísque. Essa mistura, segundo ela, deixou Breno “completamente alucinado”.

– Quando voltou para casa, ele olhou nosso filho, que estava dormindo, e pediu para eu tomar conta dele. Daí ele abriu a janela do quarto para pular. Eu o abracei e orei. Mas ele fez de novo, nessa hora eu já não conseguia mais segurá-lo (…) Ele caiu de uma altura de quatro metros. Daí eu falei: “Pronto, agora acabou o joelho.” Mas ele levantou na mesma hora e saiu correndo – contou Renata ao relembrar os tensos momentos que precederam o incêndio.

Renata esposa Breno Alemanha família (Foto: Clícia Rodrigues / Globoesporte.com)Renata com os filhos: Izabela, Flávio e Pietro (Foto: Clícia Rodrigues / Globoesporte.com)

Mãe de Izabela (11 anos), Flávio (7) e Pietro (3) – somente o mais novo é de Breno -, Renata, que criticou a defesa do advogado, contou como foi perder tudo. Hoje, ela vive em um pequeno apartamento de 50 metros quadrados em Munique e luta para recuperar bens materiais, mas também para provar na Justiça que seu marido é inocente. Abatida, a paulista desmentiu que teria um caso com o ex-empresário do jogador Guilherme Miranda, como consta do processo de defesa do atleta, feita pelo advogado Werner Leitner.
Confira na íntegra a entrevista emocionada de Renata Borges, feita em uma lanchonete de Munique na última quinta-feira:

GLOBOESPORTE.COM: Pela primeira vez você está falando abertamente sobre o caso. Por que resolveu falar um ano depois do incêndio?

RENATA: Eu fui proibida de falar durante todo esse tempo. Já queria ter falado antes, mas fui instruída pelo Bayern de Munique e pelo advogado Werner Leitner a não dar nenhum tipo de declaração. Mas agora acho que está na hora de as pessoas saberem a verdade.

O que de fato ocorreu na madrugada de 19 de setembro de 2011?

Breno recebeu a noticia de que teria que fazer a quarta cirurgia. Ele teria que fazer uma raspagem no joelho esquerdo. Quando ele chegou em casa, me chamou para almoçar em um restaurante, pois estava muito triste e queria relaxar um pouco. Estava querendo encontrar o Rafinha (lateral-direito do Bayern) e os amigos. O ex-empresário dele Guilherme Miranda estava com a gente, pois ia acompanhar a cirurgia. O Breno começou a beber cerveja e eu saí, pois tinha que buscar meus filhos na escola. Quando foi umas 5h da tarde, eu liguei e eles estavam indo para casa.

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ICFUT – Gol de bicicleta do ‘Cássio dinamarquês’

Fonte: globo

É muito comum ver goleiros irem para a área adversária paratentar tentar um golzinho de cabeça no fim de um jogo, mas é raro um que consiga concretizar a missão. O dinamarquês Jakob Kohler não só entrou para o hall de arqueiros bem sucedidos no ataque, como também deu inveja a muito centroavante por aí.

Isso porque o goleiro – muito parecido com Cássio, do Corinthians – fez simplesmente um gol de bicicleta! Depois da cobrança de um escanteio, a bola sobrou na entrada da área e o arqueiro, insistente, foi para o segundo poste esperando novo cruzamento. Quando a bola subiu, ele preparou a bicicleta, estufou as redes e saiu para comemorar com saltos mortais.

O golaço do “Cássio dinamarquês” foi responsável pelo empate do Frem por 1 a 1 com o Skjold Birkerod, pela segunda divisão dinamarquesa.