Por Rogerinho – Sem sinal de celular, estádio da Copa do Brasil usa fio de telefone de 3,5km

Localizado à beira de uma estrada entre duas cidades no interior do ES,
palco de Real Noroeste x Ipatinga tem peculiaridades do século passado

FONTE – globoesporte.com

Na era da tecnologia, praticamente não há mais distância que não possa ser superada pela comunicação. É possível acompanhar em tempo real o andamento de uma partida de futebol com total tranquilidade em qualquer lugar do mundo. A menos que essa partida aconteça no Estádio José Olímpio da Rocha, no pequeno município de Águia Branca, no noroeste do Espírito Santo. É lá que nesta quarta-feira o Real Noroeste recebe o Ipatinga, a partir das 20h30m (de Brasília), pela Copa do Brasil, com ares de desafio para a imprensa, mas também para orgulho do empresário Flaris da Rocha, presidente do clube capixaba.

Foi dele a ideia de erguer no meio do nada o estádio que serve de casa para o clube fundado em 31 de julho de 2010. E “no meio do nada” não é mera expressão. O José Olímpio da Rocha, que leva o nome do pai de Flaris, fica no meio da Rodovia ES-080, que liga os municípios de Águia Branca e Barra de São Francisco – separados por 40km -, no chamado Córrego do Café, sem outras construções de porte ao redor. Com um detalhe: no local, cercado de várias formações rochosas, não há sinal de celular. Achar Flaris da Rocha, por exemplo, foi simplesmente impossível. Mas o supervisor do clube, Crauber Portelo, conhecido no futebol local como Binha, foi localizado enquanto estava na sede de Barra de São Francisco, a 25km do estádio, a ponto de dar um depoimento único.

Estádio José Olímpio da Rocha, do Real Noroeste (Foto: Igor Gonçalves/Globoesporte.com)
Estádio do Real fica a 16km da zona urbana de Águia Branca
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– Esse é um problema sério nosso. Ninguém consegue falar conosco. O único telefone que tem é o de uma linha que compramos numa vila, chamada Boa Vista, que fica a três quilômetros e meio do estádio. Daí, nós puxamos um fio de lá até o estádio. É uma gambiarra mesmo, como qualquer um pode puxar um fio do telefone da sala para a cozinha. A diferença é que o nosso tem três quilômetros e meio. O fio vem passando no meio de mato, pasto, coqueiro, pé de manga, pé de eucalipto… Tem de tudo. Mas de vez em quando, se chover, cair um galho em cima ou um passarinho bicar, acontece de a linha ser cortada. Normalmente ficamos uns dois dias procurando o ponto do fio onde deu o problema. Nós colocamos até no contrato dos jogadores que aqui não pega celular e eles não conseguirão se comunicar com a família por telefone. Costumo brincar que nossos jogadores não se concentram, eles já vivem concentrados – diz Binha.

‘Motoqueiro fantasma’ salva a imprensa

A história contada por Binha é folclórica por si só. Mas em Águia Branca a diretoria do Real Noroeste anda, de fato, temerosa de que as rádios capixabas e mineiras não consigam transmitir a partida desta quarta-feira. Talvez a única de toda a Copa do Brasil em que haja esse problema. Não será a primeira vez. Equipes de TV e rádio já desistiram de transmitir do local, até mesmo em finais. Na imprensa capixaba, em geral, é difícil encontrar quem não tenha vivido o drama de uma apuração por telefone. Sidney Magno Novo, hoje editor do GLOBOESPORTE.COM no Espírito Santo, relembra um episódio ocorrido nas quartas de final da Copa Espírito Santo de 2010, entre Real Noroeste e Rio Branco-ES, num sábado à noite, em que ninguém na capital conseguia obter o resultado do jogo.

Estádio José Olímpio da Rocha, localizado no Córrego do Café, nem aparece no Google Maps (Foto: Reprodução/Google Maps)
Estádio José Olímpio da Rocha nem aparece no Google Maps
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– Nenhuma rádio arriscou-se a transmitir, nenhum veículo enviou repórter de Vitória. E ninguém no clube atendia aos telefonemas. Mas tínhamos o número de um orelhão que fica em frente a um bar, no meio da estrada, a uns quilômetros do estádio. Telefonei, um rapaz que estava bebendo atendeu e se ofereceu para ir de moto até o estádio. Liguei seguidamente até que, após uns 20 minutos, ele voltou a atender e confirmou o placar de 1 a 1. Internamente, na redação, ele foi apelidado de “motoqueiro fantasma”, porque ninguém sabia seu nome, nem nada, mas foi ele quem salvou a pele dos jornalistas.

Há alguns meses, o clube providenciou uma internet via rádio, que permite que os atletas, por exemplo, possam ser contatados por e-mail ou pelas redes sociais. É, muitas vezes, a única maneira de que sejam entrevistados. A internet local promete solucionar o drama da imprensa escrita na cobertura do jogo de quarta-feira. Ainda assim, há uma preocupação geral. Tanto que nesta segunda-feira, a Federação de Futebol do Espírito Santo (FES) emitiu uma nota confirmando para esta terça a instalação de 20 linhas telefônicas no estádio do Real.

‘Polacos’ têm melhor estrutura do ES

O Estádio José Olímpio da Rocha localiza-se a 16km da sede de Águia Branca, município cujo nome é inspirado na ave símbolo da Polônia, país do qual vieram várias famílias de imigrantes a partir de 1929. A ocupação da região data de 1925, quando o pioneiro Antônio Perigoso ergueu uma casa rústica às margens do Rio São José. Ou seja, tem menos de um século. Inicialmente, Águia Branca foi distrito de Colatina e, depois, de São Gabriel da Palha, e só foi elevada à categoria de município em 1989. Sua população atual é de cerca de dez mil habitantes somente. Mas o “time polaco”, também apelidado de “merengue capixaba” – em alusão ao Real mais famoso, de Madri -, e que foi criado há apenas um ano e meio, nasceu com mania de grandeza.

O “calo” que é a comunicação não impede o Real de sonhar. O clube chegou às finais de todas as três competições que fez em sua curta história: foi vice na Copa Espírito Santo de 2010 e da Série B do Capixaba de 2011 e venceu a Copa Espírito Santo de 2011, em novembro passado, o que garantiu ao Real a vaga na Copa do Brasil. A ascensão meteórica no futebol capixaba não é à toa. Dinheiro não parece ser o problema. Pelo menos não para se impôr no Estado.

O presidente do time, Flaris da Rocha, garante ter investido mais de R$ 6 milhões na construção do estádio do Real Noroeste, para quatro mil pessoas, cheio de detalhes em mármore e granito, desde a fachada aos bancos de reserva. E uma ampliação para 15 mil já está em curso. A expectativa é que as obras sejam inauguradas até novembro, em uma partida da Seleção Brasileira Sub-20. Além da estrutura o time faz questão de dizer que tem uma gestão diferenciada dos demais clubes capixabas, o que o dá esperança de redimir o Espírito Santo, estado que está há mais tempo sem ter um time passando da primeira fase. Já são 14 anos.

– Temos planejamento, pagamos em dia, a maioria dos nossos contratos dura três anos, com atletas que têm postura profissional. E temos a melhor estrutura do Estado, com certeza. O alojamento dos nossos atletas é de quatro estrelas. Estamos ampliando o estádio, construindo mais dois campos ao lado, uma quadra de areia e uma piscina semiolímpica. O Real Noroeste está pensando grande. O clube já surgiu com a intenção de mudar essa história de fracassos do futebol capixaba. Podemos até não ganhar do Ipatinga. É futebol, e respeitamos muito o time deles. Mas vamos honrar nosso Estado, pode ter certeza. Já imaginou o Grêmio (possível adversário da segunda fase) aqui? Com Luxemburgo, o (Kleber) Gladiador, um goleiro de Seleção (Victor)… Será uma honra – afirma Binha, o supervisor.

Obras no estádio José Olímpio da Rocha (Foto: Reprodução/TV Gazeta Noroeste)
Ampliação do José Olímpio da Rocha deve ser concluída já em 2012
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Queda de rendimento no Estadual não preocupa

Depois de ter liderado de forma invicta por seis rodadas, o Real Noroeste ocupa atualmente a quinta colocação do Campeonato Capixaba e vem de quatro derrotas seguidas, a última, de 2 a 0 para o lanterna Serra, mas só com jogadores reservas. O elenco tem jogadores do próprio Espírito Santo, mas é reforçado com vários de fora. Uma parceria, segundo o Real Noroeste, feita com César Sampaio, atual gerente de futebol do Palmeiras, permitiu ao clube contratar quase um terço de seu elenco, entre eles o zagueiro Riso Surubim, o lateral-esquerdo Chiquinho, os volantes Diogo e Abimael, o meia Cristian Almas e os atacantes Rivelino e Casagrande.

O goleiro Marcão comenta, confiante – via internet, já que celular, nem pensar -, as chances do Real Noroeste contra o Ipatinga, velho algoz dos capixabas na Copa do Brasil, já tendo eliminado Serra (2006), Vitória-ES (2007) e Rio Branco (2011).

– Apesar de termos perdido as últimas partidas, estamos confiantes de que podemos fazer um bom jogo e tentar ganhar do Ipatinga. Já joguei em outros clubes do Estado e não vi estrutura melhor que a do Real Noroeste. A vantagem de estarmos isolados aqui é que nos tornamos uma família. Só vejo vantagens nisso. Espero que nosso bom ambiente se reflita em campo.

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