Por Cleber Aguiar – FRIEDENREICH – 1º Mito do Futebol Brasileiro !

Fonte: O Estado de São Paulo

FRIEDENREICH CONTA A SUA HISTÓRIA

Autobiografia, escrita há mais de 40 anos e agora descoberta, permite conhecer melhor o primeiro grande ídolo do futebol brasileiro

TIAGO ROGERO / RIO – O Estado de S.Paulo

Aos 7 anos, Arthur conheceu o futebol. Fosse hoje, no País da bola, até seria tarde. Mas o ano era 1900. Arthur e seus amigos ficaram surpresos ao ouvirem os estrondos da bola sendo chutada contra a parede: “Bum! Bum!” O garoto, de sobrenome Friedenreich, se apaixonou. Treinou, desenvolveu uma técnica até então incomum entre os praticantes do esporte e se tornou “El Tigre”, o primeiro grande craque do futebol brasileiro.

O primeiro contato com a bola e outras histórias são contadas por ele na autobiografia – desconhecida por mais de 40 anos e descoberta pelo editor de livros carioca Cesar Oliveira, de 59 anos. Em 150 páginas, Friedenreich – que contou com um ghost writer, o jornalista Paulo Varzea – narra detalhes de sua vida, como a disputa de até três jogos em um só dia (por equipes diferentes) e a capacidade de trocar de camisa “com a mágica de um transformista”. Nada absurdo para um atleta que defendeu mais de dez clubes, como São Paulo, Santos e Flamengo, além da seleção brasileira.

O material foi descoberto em julho. Nos anos 1980, então publicitário, Oliveira trabalhou com o filho de Milton Pedrosa, primeiro editor de livros de futebol do Brasil e autor da coletânea Gol de Letra. Oliveira largou a publicidade, fundou sua própria editora sobre o tema em 2008 e, este ano, resolveu retomar contato com o antigo colega.

“Liguei para o Carlos Pedrosa e perguntei: ‘Cadê o livro do pai?’ Queria juntar, em um só livro, tudo que o Milton havia feito ao longo da vida como editor de futebol”, disse Oliveira. Carlos e a irmã resolveram então doar ao editor parte da biblioteca do pai, que morreu em 1987.

Um dia, Oliveira começou a analisar as caixas, pacotes e bolsas. Em meio aos papéis, encontrou uma foto de Friedenreich fazendo um gol. Era o terceiro do São Paulo sobre o Corinthians, na final do Campeonato Paulista de 1932, disputada em 1933 e vencida por 4 a 1. Depois, achou outras 100 fotos, “algumas com mais de 100 anos de idade”.

“Então achei um documento da dona Joana, esposa do Friedenreich, autorizando ao Milton a publicação da biografia. Pensei: ‘Será que está aqui?’ E comecei a procurar”, contou. Em uma pasta rosa, surrada, a primeira página trazia, escrito à mão: “Friedenreich, El Tigre. De 1 a 150”. Na seguinte, já datilografada, começava o texto: “Apareço eu”.

A autobiografia não é datada. A carta de dona Joana, sim, de maio de 1969 (Friedenreich morreu no fim daquele ano). O editor liberou alguns trechos para divulgação. A maior parte deixará para o livro que pretende publicar em 2012, quando se completam 120 anos do nascimento de Friedenreich. Ele procura patrocínio.

Em um dos trechos, Friedenreich fala da influência do inglês Charles Miller – que trouxe o futebol ao País – e do alemão Hermann Friese na sua formação como atleta. Ele classifica Miller como seu “professor primário” no futebol. “Coube, porém, a Friese a tarefa de ensinar-me o secundário e o superior.”

Franzino numa época em que o futebol era basicamente um esporte de força, o craque desenvolveu sua habilidade – o chute com as duas pernas, por exemplo – graças às cobranças do alemão, seu técnico no Clube Paulistano.

Friedenreich segurava demais a bola. “Um dia, (Friese) disse-me: ‘Você está se apoderando de um soberbo domínio de bola. Precisa aproveitá-lo bem em favor do conjunto (…) Fique com ele (a bola, que chamava de ‘couro’) apenas o tempo necessário para atrair um adversário, dois quando muito. Manobra boa para abrir buraco na defesa”, escreveu.

Ajuda. A princípio, Oliveira achou que foi Friedenreich que escreveu tudo, mas disse estar convencido de que ele foi ajudado por Paulo Varzea, com quem chegou a trabalhar na revista Olympia, depois de se aposentar dos gramados. “Varzea não assinou o livro porque era amigo do Friedenreich. Fez aquilo por amor, por amizade mesmo.”

DRIBLE NO PRECONCEITO, UMA DE SUAS FAÇANHAS

Graças ao talento, Friedenreich burlou fronteiras do futebol elitista e foi o maior ídolo do Paulistano

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Filho de comerciante alemão com lavadeira brasileira, o mulato Friedenreich conseguiu “burlar as fronteiras do futebol elitista”, conta o historiador Alexandre da Costa, de 36 anos, autor da biografia O Tigre do Futebol, lançada em 1999. “Diziam: ‘Ah, ele é mulato? Passa um negócio no cabelo, alisa e vamos para o jogo!'”.

“Friedenreich foi ídolo no Clube Athletico Paulistano, até hoje um clube de elite”, disse. Costa já tomou conhecimento da autobiografia descoberta pelo editor Cesar Oliveira, com quem tem mantido contato, e leu trechos da obra.

Para o historiador, o jeito de Friedenreich se assemelha ao do ex-atacante Romário, hoje deputado federal. “Como alguém que falava, não se intimidava, uma figura representativa. Era baladeiro, do tipo que voltava às 4h da manhã e fazia quatro gols”, diz.

Apelido. Fried jogou até os 43 anos e, apesar de ter defendido a seleção brasileira várias vezes, nunca disputou uma Copa do Mundo. “Em 1919, no primeiro título da história do futebol brasileiro, o Sul-Americano, foi o pé esquerdo dele que colocou a bola para dentro”, disse Costa.

O Brasil venceu por 1 a 0 e Fried ganhou o apelido de “El Tigre”, dado por jornalistas uruguaios e argentinos.

Depois de se aposentar, foi representante comercial da Companhia Antártica Paulista (atual Ambev) e juiz de futebol, “dos bons”, contou Costa.

Casado por mais de 50 anos com dona Joana, teve um filho, Oscar, mesmo nome do pai do craque. “Quando pesquisei para o livro, tentei encontrá-lo. Coloquei anúncio do jornal, procurei o pessoal do Paulistano, e nada”, disse o historiador. Friedenreich morreu em setembro de 1969. “Esquecido, extremamente magoado com o futebol porque as pessoas não lembravam mais dele”, disse Costa. / T.R.

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