Por Cleber Aguiar – A seleção líbia parou a guerra civil

Fonte: O Estado de São Paulo

Rebeldes e governistas fizeram trégua para jogo crucial contra Moçambique pela Copa Africana

SÃO PAULO – Antes de chegar ao final da segunda linha, vale mais uma olhada na foto ao lado. Esse foi um dos momentos mais importantes da história recente da Líbia: a comemoração da vitória por 1 a 0 em setembro, sobre Moçambique, resultado que praticamente garantiu a classificação para a Copa Africana de Nações, o torneio mais importante do continente, que será disputado em 2012.

Seleção garantiu vaga na Copa Africana de Nações - Abdallah Dalsh/Reuters-03/09/2011
Abdallah Dalsh/Reuters-03/09/2011
Seleção garantiu vaga na Copa Africana de Nações

Feito histórico para o país que ocupa a 58.ª posição no ranking da Fifa, a melhor em todos os tempos. Sem nunca ter jogado uma Copa do Mundo, a seleção desbancou times tradicionais, como Nigéria e Camarões. “Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Foi como um título”, diz o técnico brasileiro Marcos Paquetá.

O brasileiro conta que a vitória alcançada no Cairo, no Egito, se esparramou pelas ruas líbias. Foi a primeira partida depois da queda de Muamar Kadafi, morto em outubro após uma sangrenta guerra civil. A Líbia mostrou ao mundo a nova bandeira, que era usada em 1951 quando o país se tornou independente da Itália, mas que havia sido trocada pelo ex-ditador. O uniforme também mudou: o verde deu lugar ao branco.

Esse foi um daqueles momentos em que o povo enverga a realidade e acredita que as coisas vão melhorar. Os rebeldes e governistas pararam de lutar para assistir ao jogo e a praça principal de Trípoli ficou lotada.

No placar das lembranças de Paquetá, as boas ganham por um apertado 3 a 2. O brasileiro foi contratado em julho de 2010. Sete meses depois, ele recebeu um telefone da embaixada brasileira. Os combates entre as forças rebeldes e as tropas leais a Kadafi se aproximavam da capital Trípoli, onde o brasileiro morava. A mulher e a filha já haviam voltado ao Brasil por não terem se adaptado. Desesperado, conseguiu o voo no dia 21 de fevereiro, a data em que o espaço aéreo foi fechado. “Foi um tumulto gigantesco. Tensão e loucura.”

Desde então, Paquetá não voltou mais ao país. Por causa dos confrontos que ocorreram até outubro, a Líbia jogou apenas uma das seis partidas das Eliminatórias em seu território. Todos os jogos foram feitos nos países vizinhos, como a Tunísia, onde atuam seis jogadores do time. Paquetá convocava o time, treinava – quando era possível- jogava e voltava ao Brasil. “O primeiro jogo contra Moçambique, em 2010, foi durante o Ramadã, mês sagrado do calendário islâmico, em que as pessoas fazem jejum. Os jogadores só haviam comido na noite anterior. Não sei como conseguimos segurar o 0 a 0.”

Em julho, no auge dos conflitos, quatro jogadores abandonaram os treinos para lutar a favor dos rebeldes. Trocaram a chuteira pelos fuzis. Eu não podia fazer nada. Tinha de respeitar.”

A guerra ainda não acabou. O governo provisório tem o poder, mas existem focos de resistência. As eleições, no fim do ano, são a esperança de paz. Paquetá vai treinar o time em Dubai na semana que vem. Por causa da guerra, o futebol líbio ainda não tem residência fixa.

Fã de Kadafi faz teste e agrada no interior de SP

Favorável ao regime destituído, Abdalhkem Ahamdda joga bem em Ribeirão Preto e tem promessa de emprego

SÃO PAULO – Abdalhkem Almahde Ahamdda fez o caminho inverso do técnico Marcos Paquetá. Depois de passar as férias no Brasil por vários anos seguidos, decidiu tentar a sorte em um clube em Ribeirão Preto, no interior paulista. “Gostaria de jogar no Brasil. Seria uma ótima oportunidade. Se não der certo, vou voltar para a Líbia”, diz com um português titubeante, mas correto.

Com doze convocações pela seleção da Líbia e estilo parecido ao de Roberto Carlos, Rakin, como foi apelidado pelos brasileiros, participou de um amistoso contra o Botafogo. Rakin integrou um combinado formado por jogadores sem clube da região e foi aprovado pelos olheiros. “Ele marca primeiro e, depois ataca. Faz o básico de um lateral, mas faz bem feito”, diz o ex-jogador Vladimir dos Santos, que acompanhou a partida.

O lateral já tem uma promessa de emprego. O treinador Nei Silva, que também acompanhou o jogo, prometeu contratá-lo assim que assinar com um time do interior.

Quando fala da Líbia, o português de Rakin trava. O lateral-esquerdo ainda se incomoda com as críticas ao seu país. Favorável ao regime destituído de Kadafi, ele conta que “tinha comida, tinha casa e a família vivia bem”. “Gostava de Kadafi. Tenho 28 anos e minha família nunca teve dificuldades. O governo ajuda muito. Tudo era fácil e acessível”, comentou. / G. JR.

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