Por Cleber Aguiar – Pedrinho, o homem forte do Olaria

Fonte: O Globo – RJ

Pedro Motta Gueiros (pedromg@oglobo.com.br)

Foto: Jorge WilliamRIO – Com nome de fábrica de tijolos e fachada revestida em mármore, o Olaria é ao mesmo tempo alicerce e cobertura para a construção de uma vida toda. Criado no bairro vizinho de Vista Alegre, aos 34 anos Pedrinho volta às origens para se permitir os últimos momentos de prazer de uma carreira que já estava encerrada por três cirurgias no joelho e sucessivas lesões. Mais do que as dores do corpo, era a alma que se inflamava ao ouvir piadas sobre sua integridade. Nos dois anos em que chegou a se considerar um ex-jogador, ao se olhar no espelho, Pedrinho percebeu que havia crescido.

VÍDEO: A superação de Pedrinho

– Mudei o propósito, comecei a malhar muito. Não sei se era trauma porque todo mundo falava que eu era fraco – disse o meia, que iniciou na última quarta-feira sua preparação para o Estadual com 68kg. – Tinha 62 kg quando jogava e cheguei a 71kg com tanta musculação. Fiquei pesado, doía tudo para correr e percebi que estava me prejudicando.

Sorriso na face da dor

Ao botar a carreira na balança, Pedrinho se deu conta de que havia feito mais força do que precisava. Por excesso de empenho nos treinos, jogos e nos longos períodos de fisioterapia, entendeu que era credor de si mesmo. Embora as lesões tenham lhe deixado inativo por períodos que somados passam de dois anos, conseguiu aposentar a revolta para retomar a carreira. Campeão da Libertadores pelo Vasco, tinha 21 anos quando foi convocado pela primeira vez para a seleção. Dias antes da apresentação, o entusiasmo se rompeu junto com o joelho direito. Seis meses depois, voltava aparentemente bem até as dores indicarem que os ligamentos reconstituídos cirurgicamente estavam soltos.

– Vou falar o quê? Só Deus sabe – disse evitando se sentir vítima nem transferir responsabilidades. – Às vezes acontecem coisas erradas e você tem a chance de pegar o bom caminho.

Caçula, quarto filho do motorista Hélio com uma dona de casa Maria Filomena, conheceu as tradições portuguesas antes de chegar ao Vasco, com seis anos. Numa casa de dois quartos e um banheiro, Pedrinho dormia na sala com o irmão Ricardo, ou na cama dos pais. Até hoje a mãe faz pastéis portugueses e pizza de sardinha sem dar a receita a ninguém. À mesa, a família pratica a gratidão mesmo depois que Hélio morreu de câncer, em 2008.

– Estava nos Emirados Árabes e não pude vir no enterro. Foi a maior perda da minha vida justo no ano em que o Vasco foi rebaixado – disse Pedrinho – Logo que passa, a gente vê que ainda é privilegiado na vida.

Não foi fácil aceitar as dores. Após a terceira operação, dessa vez no joelho esquerdo, em 2003, já no Palmeiras, Pedrinho precisou de ajuda para se levantar após oito meses de tratamento, não apenas ortopédico. No momento em que seus pais enfrentavam problemas de saúde, a inatividade do jogador era sintomática:

– Chorei, entrei em depressão e tive que tomar remédio.

O sorriso para esconder a face do sofrimento completaria a recuperação. Em 2004, Pedrinho fez parte da seleção que jogou esperança no Haiti. Por maior que fosse seu empenho em levar alegria a um povo abandonado, dessa vez o jogador recebeu bem mais do que tinha para dar.

– Aquele foi dos jogos mais marcantes até para quem disputou Copa – disse, ao encontar sua identidade preservada nos achados e perdidos da carreira. – O mais importante é que eu sempre fiz muito mais do que eu prometia.

Com tatuagem de um leão num braço e de um tubarão no outro, brinca que a segunda era uma sardinha que cresceu com seu bícepes. Longe da academia, Pedrinho ainda faz força para cuidar da imagem.

– Talvez seja um defeito, mas me incomodo muito com o que as pessoas podem pensar.

Ao se aposentador em 2009, Pedrinho ouviu de muita gente que ainda “dava para roubar”. Sob a licença da ironia, o jargão fala sério sobre uma prática em que o jogador vende seu serviço mas não entrega.

– Mas não dava para roubar, porque nunca roubei.

Com o tórax expandido e as canelas finas, Pedrinho é um jogador fora dos padrões. Com humor, diz que ainda corre risco de ser preso por ter namorado uma menina de 13 anos quando tinha 16. Dezoito anos depois, o casal espera a alegria em dose dupla. Mesmo que a paternidade já esteja na cara do primogênito Enzo, de seis anos, o marido de Marcela ainda se preocupa em mostrar quem é o autor do gol. Como no bordão do radialista Edson Mauro, Pedrinho é o pai criança, foi ele que botou lá dentro:

– Ela está grávida de gêmeos, não foi inseminação artificial. Foi comigo mesmo.

Pudor em levar vantagem Foto: Jorge William

Parado, o craque teve tempo para a vida em família. De tanto vê-lo em casa, Marcela apresentou-lhe lista com profissões a seguir. Dono de duas franquias de uma lanchonete, evita a publicidade que muitos jogadores aproveitariam para fazer durante a entrevista. Ao contrário da linguagem padrão dos boleiros – “me dá uma moral aí” – Pedrinho só pede aquilo que julga merecer:

– Não posso dizer o nome das lojas para usar um espaço que os outros não têm.Tenho medo de usar meu nome para me beneficiar de algo que não seja correto. Sempre tive vergonha de querer aparecer.

Em campo, seu talento sempre saltou aos olhos. Apesar da técnica, da habilidade e do poder de finalização, Pedrinho considera a disciplina tática sua maior virtude. Operário e artista nas grandes construções vascaínas, está de volta para empilhar seus últimos tijolinhos.

Em Vista Alegre, reformou as casas que abrigavam a família de imigrantes. Após seu primeiro treino no Olaria, correu para lá, onde a mãe o esperava com arroz, feijão, bife e batata frita. De tanto engolir amarguras, o craque só aceita o que lhe dá prazer. No clube dos tijolos e do mármore, zela pela solidez e pela aparência para completar a obra, embora a vida já tenha atestado sua resistência. Com o corpo e a mente marcados pelas provações, Pedrinho já não precisa se olhar no espelho para ter a certeza de que é um homem forte.

A rivalidade com o Flamengo

Pedrinho chegou ao Vasco tão novo que ainda não podia ser federado. Ao ver o menino de seis anos sentando enquanto o time fraldinha jogava, sua irmã o pegou pelo braço e disse ao técnico que ele jamais voltaria porque o esforço da família não estava sendo recompensado. Ao explicar as razões da espera, Adamor, o descobridor vascaíno de talentos, disse que quando Pedrinho entrasse no time, seria para não sair mais. Mesmo sem jogar, já se alimentava de uma tradição transmitida desde a mamadeira. Ao crescer com o objetivo de vencer o Flamengo, Pedrinho aprendeu que a rivalidade deve ser consumida com moderação. Diante da chance de o Vasco ser campão em cima dos rubro-negros, sorri com o canto da boca, entre a cautela e o desejo de dar fim a uma escrita . Desde 1988 que o time de São Januário não vence uma decisão diante do maior rival, o que pode acontecer agora caso os dois times cheguem com chances de conquistar o título no clássico da última rodada

– Seria sonhar demais, mas seria muito bom – disse antes de admitir a necessidade por um acerto de contas. – Vai pagar e eles ainda vão ficar devendo, porque nunca um foi campeão Brasileiro em cima do outro.

Apesar das provocações rubro-negras que dão conta da freguesia, há dores e glórias dos dois lados do balcão desde 1988. No período em que o Flamengo estabeleceu grande vantagem na disputa regional, o Vasco se converteu no último time hegemônico do Rio no futebol nacional. Ao conquistar o Brasileiro de 1997, com direito a goleada por 4 a 1 sobre o rubro-negro na fase semifinal de grupos, o time de São Januário começava a fase mais vitoriosa de sua história. Enquanto os rubro-negros faziam a festa na província, o Vasco ganhava as Américas e chegava duas vezes à final do Mundial de Clubes.

– Acho que perdi mais que ganhei nos Estaduais, mas ganhamos mais no Brasileiro. Desde pequeno se aprende a jogar contra o Flamengo, é um clássico em que se carrega muita coisa – admite

Foto: Jorge William

Entre perdas e ganhos, Pedrinho se empenha para tirar o peso das cobranças excessivas e da intolerância que acompanha o futebol. Remanescente do período em que o Vasco viveu seus melhores e piores momentos, com a ascenção e queda do presidente Eurico Miranda, o craque toma o partido da boa convivência que atravessa a história do clube.

– Foram tantas brigas, aquilo foi desnecessário – disse ao lembrar do litígio com jogadores, do cerceamento à imprensa e da expulsão do atual presidente Roberto Dinamite da tribuna quando ele era apenas o maior ídolo do clube. – Quem é Vasco não é Eurico ou Roberto. Quem sabe lá na frente, as coisas não se acertam.

Com a capacidade que cultivou para se recuperar das pancadas da vida, Pedrinho acredita sempre na regeneração. Amado pelos vascaínos pela conquistas em campo, condenado por parte da sociedade pela destruição que promoveu fora dele, Edmundo é sempre um personagem arrebatador. Responsável pela morte de três pessoas em acidente de guerra, teve o processo arquivado na Justiça mas ainda responde a um julgamento moral e imprescristível. Parceiro dos bons momentos, discípulo naquele Vasco de 1997, Pedrinho tenta separar as coisas.

– Fora os esporros que dava, Edmundo ensinou muito para a gente, por ser um craque que incomodava demais com a derrota. Ele tem um poder grande de comover multidões – disse antes de mexer com cuidado na ferida que não fecha – Sem querer entrar no mérito do que aconteceu, acho importante olhar de onde ele veio e tudo o que passou na vida. Quando menos se espera, a vida se encarrega de mudar tudo. Já vi gente que se odiava e hoje é padrinho do filho do ex-inimigo.

A capacidade de regeneração das relações tem limites. Mesmo disposto da voltar ao futebol, Pedrinho não faz planos de vestir novamente a camisa do Vasco por não se sentir capaz de jogar à altura do que já fez pelo clube:

– Em São Januário, a gente já entrava sabendo que ia ganhar. No time de 2000, o coletivo era um jogo pela qualidade do elenco.

Para fazer o futebol fluir facilmente no meio-campo, Pedrinho fez esforço de gente grande quando ainda era apenas um menino. Com dez anos, andava de ônibus sozinho e passava debaixo da roleta porque não tinha dinheiro para pagar passagem. Hoje com a vida resolvida, investe no seu bem estar e na relação puramente afetiva com Vasco. Quem provou da rivalidade com o Flamengo desde a mamadeira, não engole as cores do rival nem de brincadeira. Ao contar que chegava a chorar por ter perdido a oportunidade de jogar no Milan, brinca que só jogaria no rubro-negro italiano porque suas listas na camisa são verticais. Na horizontal, Pedrinho deita a cabeça no travesseiro e dorme tranquilo à esperra do acerto de contas na última rodada.

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