Por Cleber Aguiar – Histórias de Breno e Mario Fernandes chocam mundo do futebol

Fonte: O Estado de São Paulo

Zagueiro do Bayern está preso em Munique, suspeito de ter incendiado a própria casa, e lateral do Grêmio recusou convite para jogar na seleção brasileira

ANELSO PAIXÃO – O Estado de S.Paulo

Na semana em que o zagueiro Breno foi preso na Alemanha, suspeito de ter incendiado a própria casa, e o lateral-direito Mario Fernandes recusou convite da seleção nacional, o mundo do futebol ficou chocado com o pouco preparo dos jovens brasileiros para o sucesso. A situação dos garotos, ambos com 21 anos, evidenciou o problema que há muitos anos aflige as categorias de base do País: a falta de um trabalho profissional capaz de moldar os jovens para o futuro.

Para psicólogos ouvidos pelo Estado, o maior desafio é convencer clubes, agentes de futebol e até mesmo os atletas de que a questão precisa ser tratada profissionalmente. Ao contrário de grandes corporações e empresas multinacionais, que veem no auxílio psicológico um caminho fundamental para o sucesso de seus profissionais, ainda que executivos bem sucedidos, no futebol esse tipo de apoio é considerado desnecessário. O problema só vem à tona quando grandes jogadores começam a apresentar queda de rendimento em campo e alegam dificuldades de adaptação.

A especialista Andréa Sebben, psicóloga intercultural e autora de vários livros sobre o tema, explica que a sensação de que o dinheiro resolve qualquer problema, comum no futebol, acaba levando a grandes depressões, especialmente quando se percebe que a distância da família, dos amigos e até do idioma inevitavelmente provocam sensação de abandono. “Não se trata de ser pobre e feliz, mas de se sentir amparado. Fora do País, o garoto pode ter um grande salário, mas vive no desamparo, do idioma, do afeto, da família… O dinheiro não dá conta de tudo isso”, afirma.

Breno ficará, no mínimo, 18 dias preso

 
MUNIQUE – O Estado de S.Paulo

A situação do zagueiro Breno, preso preventivamente desde sábado, segue complicada em Munique. Ontem, o advogado Werner Leitner entrou com pedido de habeas corpus, mas a Justiça alemã deve demorar ao menos 14 dias (ele já está preso há 4)para decidir se o atleta terá direito de aguardar o julgamento em liberdade. Leitner disse ao jornal alemão Bild que seu cliente “não se encontra bem e que precisa de ajuda”.

“Foi um pedido verbal de habeas corpus. Acreditamos que só teremos uma resposta em 14 dias. Aí poderemos esclarecer se ainda há uma forte suspeita”, explicou a promotora Barbara Stockinger ao site Weld. “Ele atravessa uma difícil crise pessoal. Estou otimista e acho que vamos conseguir libertá-lo o mais cedo possível. Ele precisa de ajuda, não detenção”, reclamou Leitner ao jornal Sueddeutsche Zeitung.

A Promotoria de Munique decidiu detê-lo preventivamente, alegando risco de fuga, após o ex-jogador do São Paulo ser considerado principal suspeito de incendiar a própria casa, avaliada em R$ 3,7 milhões, na semana passada. Ele estava sozinho na residência. A mulher Renata e os três filhos haviam saído.

O jornal Bild revelou também detalhes da rotina de Breno, que está em uma cela de 24 metros quadrados e pode praticar vôlei de manhã ou correr no pátio. Ele almoça frango, salada de batatas, peru, arroz e salada.

Sinais de depressão. No ano passado, ao receber duras críticas por seu desempenho no Bayern, o zagueiro desabafou ao jornal Bild am Sonntag. “No Brasil, eu tinha menos dinheiro, menos luxo, mas era feliz. Aqui eu tenho dinheiro, mas me falta todo o resto.” Breno vive em Munique com a mulher Renata, o filho Pietro e mais dois filhos de uma relação anterior dela. / COM AGÊNCIAS

Mario Fernandes treina e prefere o silêncio

 
ELDER OGLIARI / PORTO ALEGRE – O Estado de S.Paulo

Um dia depois de abrir mão da convocação para a seleção brasileira, o lateral-direito Mario Fernandes, do Grêmio, treinou normalmente ontem e não deu explicações públicas para sua decisão. O jogador fez alongamentos na sala de musculação e depois exercícios leves no gramado, junto com os atletas que atuaram no domingo, em Florianópolis, quando o time venceu o Avaí por 2 a 1. Ao final, voltou para os vestiários sem falar com os repórteres.

Em sua entrevista coletiva das terças-feiras, o técnico Celso Roth foi questionado sobre o pedido de desconvocação da seleção feito pelo jogador, mas reiterou que a decisão de Mario Fernandes tem motivos pessoais que não seriam comentados. Apesar das respostas evasivas, elogiou a coragem do lateral-direito. “Se ele não estava se sentindo bem para ir, se tinha um problema pessoal, é melhor dizer do que não dizer. Tem repercussão, mas é uma decisão do jogador, que tem esse direito”, avaliou. “Se fez bem ou não, não cabe a mim julgar.”

Roth destacou que Mario Fernandes está muito bem no Grêmio e mostrou-se satisfeito com a iniciativa do clube, que prorrogou o final do contrato com o jogador por um ano, de 2014 para 2015.

Outros problemas. Em pelo menos dois episódios em sua carreira, o jogador demonstrou algum desconforto com situações novas. Em março de 2009, logo depois de chegar ao Olímpico, o lateral sumiu e só foi encontrado quatro dias depois em Jundiaí. Reintegrado aos juniores, destacou-se pelas boas atuações e foi promovido ao time profissional em junho daquele ano. Desta vez, teria se sentido constrangido pela obrigação de discursar para os colegas na convocação anterior para a seleção, à qual atendeu. O ritual é uma espécie de “trote” que os veteranos impõe aos novatos na seleção.

Psicóloga diz que clubes recusam ajuda

Para Andrea Sebben, psicóloga intercultural, o problema é que atletas e dirigentes entendem que apoio é desnecessário

O caso do zagueiro Breno, de 21 anos, do Bayern, suspeito de ter colocado fogo em sua própria casa em Munique, e do lateral-direito Mario Fernandes, também de 21 anos, do Grêmio, que recusou convite para jogar na seleção brasileira alegando problemas particulares, escancararam nesta semana uma triste realidade do esporte nacional: a deficiência na preparação da maioria dos atletas para o sucesso.

Andrea Sebben, psicóloga intercultural, membro da International Association for Cross-Cultural Psychology (IACCP) e autora de vários livros sobre o tema, explica que o maior desafio é convencer atletas e clubes deque eles precisam de auxílio para os problemas que vão enfrentar. “No futebol, os clubes acham que não precisam de apoio. O agente e o jogador também pensam assim. Em compensação, as grandes corporações, as multinacionais, os grandes executivos, sempre acham isso fundamental”, afirma Andrea.

Ao saber da declaração do zagueiro Breno, publicada ontem no jornal O Globo – “No Brasil, eu tinha menos dinheiro e menos luxo, mas era feliz. Aqui eu tenho dinheiro, mas me falta todo o resto” – Andrea explica que a frase sintetiza tudo que ocorre de uma hora para a outra na vida do atleta.

“Não se trata de ser pobre e feliz, mas de se sentir amparado. Fora do País, o garoto pode ter um grande salário, mas vive no desamparo, do idioma, do afeto, da família… O dinheiro não dá conta de tudo isso. As pessoas imaginam que ganhos materiais compensam todas outras coisas, mas não é assim.” E até exagera para exemplificar. “Seria como se qualquer pessoa tivesse de tomar uma decisão; trocar 100 milhões por tudo que o cerca, como família, carinho e amigos. Pois é essa a decisão que alguns garotos são obrigados a tomar.”

Para que os atletas consigam conviver melhor com isso, a psicóloga defende uma mudança estrutural no processo de formação. “A questão prioritária, tanto para o clube que recebe um jogador de outro país, quanto para o time profissional que promove um atleta das categorias de base, é a acolhida. Saber receber quem chega, entender as limitações e as diferenças de cada um, é um trabalho que exige cuidados. Os clubes recebem todos da mesma forma, como se todos fossem ter reações iguais.”

E Andrea não poupa críticas ao comportamento dos dirigentes. “Falta comprometimento do clube, que espera um grande rendimento dentro de campo, mas não tem nenhuma preocupação fora dele, como se isso fosse problema só do atleta.”

O fato de alguns jovens talentos também desenvolverem síndrome do pânico é visto pela especialista como reflexo de toda a transformação que ocorre na vida do garoto recém-saído das categorias de base. “A síndrome do pânico é uma avalanche de pensamentos catastróficos e tem um componente neuroquímico importante, que exige medicamentos”, diz Andrea Sebben.

“Atletas saudáveis”. O professor João Paulo Subirá Medina, diretor executivo da Universidade do Futebol e mestre em Filosofia da Educação, que já coordenou vários trabalhos em categorias de base de grandes clubes brasileiros, afirma que problema é a falta de preocupação com a formação de “atletas saudáveis”, que o Medina define como aquele que sabe como proceder diante dos desafios da profissão.

“Não é só preparar o atleta. Tem de haver uma preocupação geral com tudo que o cerca. Muitas vezes o clube nem conhece a família do jogador”, explica Medina, que defende há muito tempo a necessidade de uma cultura interdisciplinar nos clubes, especialmente nas categorias de base. “Lutamos há muito para introduzir a psicologia no futebol, assim como assistentes sociais trabalhando junto às famílias dos atletas. É preciso ver o jogador na sua totalidade, com uma visão mais humanista”, completa. / A. P.

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