Por Cleber Aguiar – Entrevista com Paulo H. Ganso.

Fonte: O Globo-RJ

Paulo Henrique Ganso. Foto:  Eliária Andrade / Agência o GloboLONDRES – É bem capaz que mesmo o meia Fernandinho tenha se surpreendido quando Mano Menezes o escalou no lugar de Paulo Henrique Ganso, contra a Alemanha, no último dia 10. Mas a decisão do treinador da seleção reforçou o consenso de que o meia do Santos não passa por um bom momento. Em entrevista ao GLOBO, por telefone, realizada no dia seguinte à derrota por 3 a 2 em Stuttgart, Ganso admitiu estar devendo, mas alerta: “Neymar e eu não vamos resolver as coisas sozinhos.”

Você ficou surpreso ao saber que ficaria no banco de reservas contra a Alemanha?

PAULO HENRIQUE GANSO: Já tive tempo para pensar um pouco melhor. Ficar no banco foi uma situação diferente e confesso que fiquei um pouco surpreso com a decisão. Mas acho que faz parte deste momento da seleção, que está começando o trabalho para 2014. Todos nós vamos ter altos e baixos, estamos passando por uma renovação grande e é preciso pensar na Copa do Mundo, que é o objetivo maior.

O fato de a seleção ter perdido mais um jogo contra uma equipe de ponta pode atrapalhar o processo até 2014?

GANSO: A Alemanha é uma grande equipe, que manteve a base do grupo que chegou à semifinal na última Copa. Não acho que seja o momento de questionar o trabalho do Mano Menezes, que está buscando a melhor maneira de armar o time. Estou certo de que as coisas vão melhorar em breve. Mas, para isso, todos nós na seleção precisamos assumir a responsabilidade, essa pressão por resultados positivos. O torcedor e a mídia sempre vão exigir isso.

Como você explica as atuações abaixo do esperado que vem tendo ultimamente?

GANSO: Sofri algumas lesões que certamente influenciaram o meu rendimento. Minha primeira partida em meses foi a segunda da final da Libertadores, o que não faz muito tempo. Tenho trabalhado muito para reforçar a musculatura, mas não fico preocupado com a possibilidade de me machucar de novo. Até porque não apanho tanto quanto o Neymar (risos). Com uma sequência de jogos as coisas vão melhorar. E sei que preciso jogar melhor pela seleção.

O peso que jogaram em suas costas, por ser o único meia de alto nível que temos, pode estar atrapalhando?

GANSO: Tenho uma vida feliz. E minha carreia está indo bem. Conquistei dois títulos importantes pelo Santos e estou sendo chamado para a seleção. Seria muito fácil estar desesperado com os jogos ruins, mas é preciso também enxergar as coisas em perspectiva. Sou um cara tranqüilo e confio no meu potencial. É importante não ficar afobado. Tenho tempo para me preparar.

A renovação na seleção está sendo brusca demais?

GANSO: Houve uma renovação muito grande depois da Copa de 2010, mas as expectativas sempre são altas no Brasil. Tenho consciência de que prestam muita atenção em mim e no Neymar, mas é fundamental que as pessoas saibam que nós nunca vamos resolver as coisas sozinhos. Mas não me incomoda as pessoas esperarem sempre partidaços da gente. Precisamos trabalhar mais para lidar com isso.

Ficou frustrado por não ter ido à Copa de 2010?

GANSO: Sinceramente, eu pensei que seria chamado, assim como o Neymar. Não porque os torcedores e comentaristas pediam, mas pelo que fizemos no Santos. Para algumas pessoas era cedo demais para nós dois disputarmos um Mundial, mesmo assim fiquei bastante chateado quando fiquei de fora da convocação final para a Copa da África do Sul.

Você disse mais de uma vez que quer jogar fora do país. A cabeça já está na Europa?

GANSO: Meu pensamento está é no Santos. Uma ida para a Europa é uma coisa natural para um jogador profissional, mas precisa ocorrer no momento certo. Perguntam muito por qual clube eu gostaria de jogar, mas não acho muito legal ficar citando nomes. Claro que a Itália e a Espanha vêm imediatamente à cabeça, são duas escolas de futebol de que gosto muito. A Inglaterra também tem uma liga interessante, apesar de um estilo muito mais físico. Porém, não tenho medo de estranhar lugar algum. Confio no meu estilo de jogo, mas é claro que sempre tem de ajustar uma coisa ou outra. Talvez na Europa eu não possa segurar a bola demais, por exemplo. Mas o aprendizado é sempre bom.

Como você tem lidado com as críticas que vem recebendo por deixar claro seu desejo?

GANSO: Entendo que a torcida e os dirigentes do Santos não queiram me ver fora do Brasil. Mas acho que tenho o direito a pensar na minha carreira. A situação de um jogador de futebol é diferente, há muitos benefícios, mas é uma vida profissional curta. Se um grande clube europeu bater à porta, tenho que ouvir. Falam que é muito cedo para sair, mas há casos de jogadores que também não passaram tanto tempo assim jogando no Brasil e se adaptaram muito bem à Europa. O Kaká é um deles. Temos o mesmo assessor para assuntos de imagem e a gente acaba tendo a chance de conversar sobre isso.

E esta história de ir jogar no Corinthians?

GANSO: Quanto a isso, os torcedores do Santos podem ficar tranquilos. Eu jamais sairia do clube para jogar exatamente no maior rival. Não chegaria nem perto do Corinthians. Sei que falaram muito sobre isso, porque o Ronaldo Fenômeno disse que estava me representando. Não entendi muito bem a postura dele, pois isso não é verdade.

Como você faz para desligar, para levar sua vida fora do futebol?

GANSO: Sou um cara bem mais sossegado do que o Neymar (risos). Sou mais de ficar em casa e quando saio é para surfar ou andar um pouco de skate, mas nada muito exagerado, que é para não me machucar (risos). Gosto de relaxar vendo comédias. “Se beber, não case” é um dos mais engraçados filmes que já vi e aquela cena do Mike Tyson tocando uma bateria imaginária é simplesmente impagável.

Lidar com os compromissos comerciais é muito desgastante?

GANSO: Entendo a importância da publicidade para um jogador, mas confesso que às vezes não gosto muito do trabalho que dá para fazer algo que parece simples na televisão ou na revista. Não sou modelo, então estranho quando preciso ficar sete horas fazendo embaixadinhas para a câmera, como naquele comercial que eu, Robinho e Neymar fizemos para a Seara. Foi bastante pesado (risos).

O que está acontecendo com o Santos no Brasileirão?

GANSO: Estamos numa situação complicada (17 lugar) e precisamos de calma. Ainda há muitos jogos e uma sequência de vitórias já vai ajudar muito, até porque temos dois jogos a menos. Não podemos ficar apenas pensando no Mundial Interclubes. Afinal, vamos precisar estar no melhor de nossa forma se quisermos ir bem na competição.

E aquele jogo incrível com o Flamengo? Já absorveu o que aconteceu na Vila?

GANSO: Sou um cara que às vezes tem problema para dormir quando perde. Não preguei o olho depois daquele jogo. Todo mundo falou maravilhas da qualidade do jogo, mas o Santos saiu de campo com uma derrota que nenhum de nós esperávamos que fosse acontecer quando fizemos 3 a 0, ainda no primeiro tempo. Ainda me incomoda um pouco pensar naquela partida.

Será que vai mesmo jogar com Pelé no Mundial?

GANSO: Essa história é muito louca, mas imagina só você estar no ônibus do clube e ver o Rei do Futebol no banco ao lado. Até hoje não tive muitas chances de conversar com o Pelé e de repente vou ter que disputar posição com ele (risos). Ainda bem que não sou o Muricy.

Pensa em se tornar treinador algum dia?

GANSO: Não sou muito fã de tática. Às vezes funciona muito bem no quadro negro, não no campo. Se o Santos tivesse se prendido demais a esquemas, não teríamos feito metade das coisas que conseguimos nos últimos tempos.

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