Por Cleber Aguiar – Eleições no Palmeiras !

Fonte: O Estado de São Paulo

Decepção marca fim da gestão Belluzzo

Palmeiras elege amanhã substituto do economista, que era a esperança da torcida, mas encerra mandato sob críticas, sem título e com finanças instáveis

Daniel Akstein Batista – O Estado de S.Paulo

Há pouco mais de dois anos, o Palmeiras estava em situação complicada, mas o torcedor festejava. Surgia uma luz no fim do túnel e a expectativa de dias vitoriosos. Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, renomado economista e, acima de tudo, apaixonado palmeirense, assumia a presidência aceitando a missão de recolocar o time nos eixos. Nos primeiros meses, chegou a distribuir autógrafos. Agora, deixa o posto com alguns inimigos e uma gestão considerada fracassada pela maioria de conselheiros e torcedores.

Amanhã, na Academia de Futebol, cerca de 290 conselheiros escolherão o presidente que o substituirá. Belluzzo não manifestou sua preferência, mas pessoas próximas dizem que ele votará em Paulo Nobre. Salvador Hugo Palaia reclama abertamente da postura de Belluzzo – o atual 1.º vice-presidente gostaria que o amigo lhe desse apoio, como teriam combinado dois anos atrás. Lucrando com o racha na situação, Arnaldo Tirone, da oposição, chega como favorito.

Nenhum dos três candidatos assumirá o cargo com o rótulo carregado por Belluzzo em 2008, o de “salvador”. Na prática, não foi o que houve. O dirigente de 68 anos deixa o poder sem títulos, com a economia do clube instável e com o prestígio arranhado. “Tenho pena de quem assumir o Palmeiras”, diz Palaia.

Não se pode dizer, no entanto, que o presidente não se esforçou ou poupou dinheiro para formar um time ganhador. Mas as contratações não deram resultado. Em 2009, fracasso no Paulista e na Libertadores. No mesmo ano, após surpreendente anúncio da Traffic de que não negociaria nenhum atleta durante o Brasileiro, todos imaginavam que a hora de uma grande conquista havia chegado. Mesmo com Muricy Ramalho (que substituíra o também caro Vanderlei Luxemburgo) no comando, a equipe que liderou boa parte da competição patinou na reta final e não alcançou nem a vaga na Libertadores. Os altos investimentos não tiveram retorno e as finanças, consequentemente, sofreram forte abalo.

Belluzzo seguiu otimista com o time. O ano passado, porém, foi ainda pior – para esquecer. “Claro que foi uma grande decepção pelo que se esperava dele”, comenta Paulo Nobre.

A amigos, Belluzzo diz serem injustas as críticas à sua gestão. Alega ter pago mais de R$ 40 milhões em débitos fiscais e iniciado as obras da Arena Palestra. Mas até do lado financeiro as cobranças são muitas. Os últimos balancetes foram reprovados pelo Conselho de Orientação Fiscal, atrasos no pagamento de direitos de imagem de alguns atletas foram recorrentes e, até novembro, o departamento de futebol tinha dívida de R$ 9,5 milhões.

O Estado vem tentando ouvir Belluzzo há semanas, mas a assessoria do Palmeiras afirmou que o dirigente só vai se pronunciar depois do pleito de amanhã.
DOIS ANOS COMPLICADOS

Principais contratações:

Kleber, Lincoln e Valdivia.

Técnicos no seu mandato:

Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho, Antônio Carlos Zago e Luiz Felipe Scolari.

Fracassos nas 4 linhas:

Em 2009, chegou à semifinal do Campeonato Paulista, caiu nas quartas da Taça Libertadores e terminou em 5º do Brasileiro. Em 2010, acabou o Estadual em 11º, perdeu para o Atlético-GO na Copa do Brasil, passou vergonha contra o Goiás na semifinal da Copa Sul-Americana, e no Brasileiro ficou apenas em 10º.

Extracampo

Belluzzo provocou polêmica com suas declarações. Em uma delas, em festa da Mancha Verde, disse: “Vamos matar os Bambis (referindo-se ao São Paulo, em 2009)”. No ano passado, sofreu um problema no coração, foi operado e ficou 3 meses afastado. Foi também na sua gestão que o Palmeiras fechou contrato para a construção da Arena Palestra.

”Sem pacificação, o clube não vai para a frente”

Daniel Akstein Batista – O Estado de S.Paulo

Salvador Hugo Palaia
Um dos candidatos da situação à presidência do Palmeiras

Quais seus planos de governo?

Minha 1.ª atitude, como vencedor ou não, será trabalhar pela pacificação. Sem isso, o Palmeiras não vai para a frente. Vamos criar o departamento orçamentário, que será responsável por acompanhar as contas de cada departamento, e manter o Conselho Gestor.

O senhor fala em pacificação, mas tem disparado contra o Paulo Nobre. Como pedir paz?

Minha declaração é sobre o candidato que rachou a situação. Conforme um acordo anterior, com o próprio Belluzzo, o candidato natural da situação seria o Salvador Hugo Palaia. Eu até ofereci a ele o cargo de 1.º vice, mas ele não aceitou.

Com a situação rachada, o Arnaldo Tirone é o favorito?

Isso eu só falo depois da eleição. Mas, evidentemente, ele ganhou uma forcinha a mais. Eles estão unidos há dois anos.

Quais os pontos positivos e negativos da gestão Belluzzo.

Ele trouxe recursos para o Palmeiras, mas delegou poderes para quem não tinha condições. Não tomou a atitude que eu tomei, de demitir o departamento de futebol. Durante 4 anos, eles deixaram nas costas do Palmeiras dívida de mais de R$ 150 milhões, contrataram 96 jogadores, com uma folha salarial de R$ 6 milhões. Como pagar 45 jogadores com apenas 22 deles tendo qualidade para vestir a camisa do Palmeiras? É isso que tem de rever.

Está otimista em ganhar?

Sou Palmeiras acima de tudo. Quem é que vença, meu 1.º ato vai ser dar as mãos, me colocar à disposição do clube.

”Se eleito, vou herdar um problema”

Daniel Akstein Batista – O Estado de S.Paulo

Arnaldo Tirone
Candidato da oposição
Quais seus planos de governo?

Vamos reorganizar o clube e equilibrar a parte financeira. A prioridade é o futebol. O clube tem administração inchada, com cerca de 700 funcionários. O Palmeiras tentou crescer, mas foi descontrolado. Fizeram contratações que até eu faria, mas no momento errado. Temos de conseguir recursos novos, por meio dos projetos de marketing.

O senhor é marcado por ter ligação com Mustafá Contursi. Isso atrapalha? Ele terá um cargo de diretor?

Como colocar um ex-presidente como diretor? E eu tenho minha história aqui dentro, não será o Mustafá que vai determinar o que vou fazer.

Mas dizem que, com o senhor no cargo, o Mustafá poderá voltar ao poder também…

Tem gente colocando uma coisa que não é verdade. O Mustafá já é conselheiro atuante no clube. E seu eu fizer algo de errado ele vai me criticar.

O departamento de futebol tem uma folha salarial de cerca de R$ 6 milhões mensais. É muito?

Não é muito nem pouco, é parecido com a de outros clubes, mas dá pra diminuir.

Como o senhor viu a gestão do Belluzzo?

Ele começou imprimindo um ritmo bom e depois acho que colocou muita emoção. A culpa não é só dele, e sim da diretoria. Como torcedor, eu não fiquei satisfeito.

O senhor pegará uma herança ruim, se eleito?

Vou herdar um problema. Vou enfrentá-lo, mas com o orgulho por ser o presidente.

”Não sou mágico, quero conter a expectativa”

Daniel Akstein Batista – O Estado de S.Paulo

Paulo Nobre
Outro candidato da situação, da chamada Terceira Via
Quais os planos de governo?

A primeira coisa a ser feita é separar o departamento social do futebol. Assim, formamos dois grupos, com um diretor financeiro remunerado de cada lado. Só assim podemos conseguir descobrir o vilão da dívida para conter o prejuízo e cortar os gastos desnecessários. Acredito que eu consiga fazer cair de 22% para 12% os juros de nossas dívidas.

E como será seu projeto?

Temos primeiro de saber o que o torcedor valoriza. Um anseio de todos é participar da vida política e escolher o presidente. Minha ideia é ter eleição em dois turnos. O 1.º seria do Conselho Deliberativo, que escolheria dois de oito candidatos, por exemplo. Aí, a Assembleia Geral, formada por sócios do clube e os sócios-torcedores, votaria. Eu vejo hoje que tenho aprovação de 95% da torcida, isso me deixa feliz, mas não cria ilusão. O Paulo Nobre não é mágico. Quero conter essa expectativa.

O que dizer da gestão Belluzzo?

O ponto positivo é que as receitas cresceram neste período. E o negativo é que as despesas acompanharam. Não sei até que ponto ele ficou engessado com compromissos políticos.

É possível acabar com as brigas políticas no clube?

Acho oposição uma coisa saudável. Por mais que você tente acertar, a oposição enxerga defeitos que você não vê. O problema é a maneira que a oposição age. É possível pacificar o clube. Quem ganhar tem de ter a liberdade de convidar qualquer cabeça de outro grupo. É prepotência achar que só tem gente boa do seu lado.

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