ICFUT – Mentor dá detalhes da polêmica unificação dos títulos nacionais

Fonte: http://www.terra.com.br

Seis conquistas do Santos na década de 1960 foram reconhecidas pela CBF como títulos brasileiros

Diego Garcia

A temporada 2010 ficará marcada para sempre na história do futebol brasileiro por um motivo especial. A CBF unificou os títulos da Taça Brasil e do Robertão ao Campeonato Brasileiro e permitiu que seis clubes do País pudessem comemorar, mesmo que de forma tardia, 14 troféus nacionais vencidos há mais de 40 anos.

O jornalista e historiador Odir Cunha, mentor de um trabalho que culminou com a polêmica homologação, conversou de maneira exclusiva com o Terra e respondeu todas as perguntas a respeito da unificação. Deu os detalhes do projeto, retrucou as críticas mais ferrenhas de imprensa e torcedores e rejeitou as pretensões de agremiações que pretendem oficializar as mais diversas competições, como Torneios Rio-São Paulo e Recopas.

Desde meados de 2008 que ele, em parceria com José Carlos Peres, corre contra o tempo para realizar uma pesquisa que convencesse a CBF a dar aos títulos da Taça Brasil (disputada entre 1959 e 68) e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (de 67 a 70) equivalência aos do Campeonato Brasileiro, que passou a ser disputado a partir de 1971.

Graças ao dossiê, tradicionais clubes celebraram o reconhecimento oficial de suas conquistas nacionais nas décadas de 50, 60 e 70. Os principais beneficiados foram Santos e Palmeiras, que passaram a ter oito taças de campeão brasileiro cada e tornaram-se os maiores vencedores da história do País. Cruzeiro, Bahia, Botafogo e Fluminense também acabaram agraciados com um caneco.

Confira abaixo a entrevista com Odir Cunha sobre o dossiê:

Terra – Você foi talvez o principal responsável pela unificação dos títulos nacionais. Pesquisou por dois anos a fio, apresentou os argumentos à imprensa e conseguiu a homologação por parte da CBF. Primeiramente, de onde saiu a ideia de fazer o dossiê e de que forma você acreditava que conseguiria mudar uma história até então imutável há 40 anos?

Odir Cunha – Na verdade, o trabalho de unificação já havia começado anos antes, com o senhor José Carlos Peres, que me convidou no final de 2008 para fazer a pesquisa, as entrevistas, e redigir o Dossiê requerendo a unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959.

Aceitei o trabalho porque vivi essa época (tenho 58 anos) e tinha certeza de que vencer a Taça Brasil e o Roberto Gomes Pedrosa dava aos vencedores o título de campeão brasileiro. Quando me convidou, o Peres era superintendente do Santos em São Paulo. E eu aceitei porque já tinha farto material sobre esse período – dos livros anteriores que eu tinha escrito – e porque, repito, sempre acreditei piamente na legitimidade da causa.

Até meados de 2009 tivemos ajuda dos presidentes de Santos, Palmeiras e Fluminense. Marcelo Teixeira conseguiu liberar alguma verba para o trabalho; Luiz Gonzaga Belluzzo e Roberto Horcades ofereceram os salões nobres de Palmeiras e Fluminense para dois painéis para a imprensa. Mas, desde o início de 2010, eu e Peres estamos exclusivamente por nossa conta e risco. Há 12 meses não recebemos um centavo para realizar esse trabalho.

Ao contrário. Viagens, telefonemas, impressos, tempo reservado para entrevistas e reuniões, tudo saiu do nosso bolso e do nosso empenho… Por que fizemos isso? Por que continuamos seguindo, sem o apoio nem mesmo dos clubes que deveriam se interessar pelo pleito?

Acredite se quiser, mas foi apenas por idealismo, profissionalismo. Para, simplesmente, fechar um ciclo e terminar o que começamos. Tínhamos nos comprometido com os jogadores campeões de 1959 a 1970 e por eles fomos até o fim.

Terra – Você é jornalista, historiador e declaradamente torcedor do Santos. No seu blog, inclusive, se apresenta como “ombudsman do Santos FC”. Como o fato de você ser um torcedor fanático do time que fora o principal beneficiado influenciou em seu trabalho? Sua paixão pelo clube do coração não tira, de certa forma, a transparência da pesquisa e do próprio dossiê?

Odir Cunha – Todo jornalista esportivo tem um time. Todos sabem qual é o meu, o que ao menos torna minha posição transparente. Aos que acham que o fato de gostar do Santos compromete o meu trabalho, eu poderia contra-argumentar dizendo que 99,999% dos que se mostram contrários à unificação torcem para times que não ganharam nada entre 1959 e 1970. A paixão por seus clubes não estaria, também, influenciando esses jornalistas nas críticas à unificação?

Creio que em alguns casos isso é flagrante, mas evito usar esse argumento. Prefiro responder a cada uma das críticas, esquecendo-me de quem as faz. Um bom juiz costuma ser mais severo ao julgar o próprio filho do que o filho dos outros. E o ombudsman, como você deve saber, é um crítico da instituição, não é um fanático que usa óculos cor de rosa. Aceitei o trabalho porque sempre acreditei na justiça dessa reivindicação.

Os títulos da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa nunca deixaram de ser oficiais pela CBD. Faltava apenas que fossem reconhecidos pela CBF. Se o trabalho não fosse baseado em fatos e em argumentos sólidos, não teríamos sucesso nessa empreitada, qualquer que fosse o time da minha preferência.

Terra – Dizem que você foi remunerado pelos clubes beneficiados. Isso ocorreu?

Odir Cunha – No início, o Santos me pagou cinco meses pelo trabalho, até agosto de 2009. De lá para cá nem eu, nem o José Carlos Peres, recebemos um centavo de clube algum para prosseguir no trabalho. Ao contrário.

O Peres pagou passagens de avião do seu bolso e eu prossegui os contatos também por minha conta. Algumas pessoas têm a mania de julgar os outros por elas. Fomos até o fim porque a causa era justíssima e sempre acreditamos nela. Sei que é difícil entender isso nos tempos “dinheiristas” que vivemos, mas é a pura verdade. Sabíamos que a satisfação pelo reconhecimento dos títulos não teria preço, como não teve mesmo.

Terra – Parte do dossiê mostrado à CBF aponta a cobertura da mídia como essencial para a inclusão desses torneios – “não só as redes de tevê e rádio, mas as revistas mais lidas e os jornais de maior credibilidade e tiragem concordavam que o campeão da Taça Brasil, ou do Robertão/Taça de Prata, era também o campeão brasileiro”.

Contudo, o Jornal do Brasil, em 6 de setembro de 1968, diz que “O Roberto Gomes Pedrosa continua sendo uma espécie de meio caminho para um futuro campeonato nacional de clubes, solução única para o futebol profissional no Brasil”, e O Globo afirma, em 20 de dezembro de 1971, que “o primeiro Campeonato Brasileiro de Clubes joga também a primeira pá de cal nos campeonatos de secundária importância e que são disputados deficitariamente”, entre outros exemplos.

Não acha que os próprios jornais da época estavam confusos quanto à validade dessas competições?

Odir Cunha – Só posso dizer que, se agiu assim como você diz, o Jornal do Brasil de 1969 e O Globo de 1971 tentaram desmentir o próprio Jornal do Brasil e O Globo de quando a Taça Brasil foi realizada. Por que 10, 12 anos depois estes próprios jornais mudariam de opinião? É uma resposta que não posso dar.

Até 1966, com a conquista do Cruzeiro, tanto o Jornal do Brasil, através de Armando Nogueira, como o Globo, davam ao time de Minas o título de campeão brasileiro. E a cobertura da mídia que faz parte do dossiê engloba dezenas de veículos e prova que o conceito de que o vencedor da Taça Brasil era o campeão brasileiro não se restringia a apenas uma ou outra publicação, mas era generalizado entre as publicações mais importantes do país.

Terra – Em sua opinião, o anúncio da unificação fez, de fato, as pessoas conhecerem uma “verdade esquecida” do futebol, ou só fez com que torcedores se vangloriassem de um número maior de títulos do que os rivais?

Não acredita que a unificação representa apenas o acréscimo de troféus a determinados clubes que, agora, possuem uma quantidade maior de taças do que possuíam até a véspera, e não trouxe nenhuma consequência à cultura do torcedor? Afinal, a grande maioria desses torcedores se orgulha de seu time ter duas ou oito conquistas, mas não sabem detalhar ou relatar a história desses títulos.

Odir Cunha – Não posso responder pelo torcedor e não posso entrar na pilha do torcedor. Assim como os torcedores dos times vencedores entre 1959 e 1970 ficaram felizes com o reconhecimento, a unificação também provocou a revolta de alguns que torcem por clubes que não foram campeões naquele período. É normal, mas ao mesmo tempo é lamentável que se conheça tão pouco da nossa história futebolística.

Essa revolta de alguns prova que sem o reconhecimento esse período da história seria definitivamente esquecido. A falta de conhecimento, aliada às críticas de jornalistas esportivos que pouco conhecem da história do futebol brasileiro, criou em alguns torcedores a sensação de que esse foi um ato político para prejudicar seu time.

Com o tempo, entretanto, ele perceberá que não foi nada disso e ao conhecer melhor a época em questão, valorizará ainda mais o futebol brasileiro, que já teve uma decisão de Taça Brasil entre o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha, com oito titulares e três reservas da Seleção Brasileira em campo. Era a época de ouro do futebol brasileiro e estava indo para a lixeira de nossa memória esportiva não fosse a unificação.

Terra – Se a unificação não fosse conquistada, isso seria algum demérito aos clubes campeões de 59 a 70?

Odir Cunha – Obviamente seria um demérito. Como explicar que competições oficiais pela CBD, entidade que as criou, pudessem ser desoficializadas pela CBF, entidade gerada pela CBD? E se mesmo com o reconhecimento, há tanta gente querendo apagar a importância da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, imagine se não fossem reconhecidos pela CBF.

O reconhecimento pautará matérias jornalísticas e livros sobre o assunto e impedirá que esse período seja esquecido. Isso é o mais importante. O torcedor pode discutir rankings e taças, mas o jornalista interessado na história do nosso futebol, o pesquisador, deveria ficar feliz com o reconhecimento justamente pela valorização da história.

Veja como ficou o ranking de campeões brasileiros com a unificação:

8 conquistas:

Santos (5 Taças Brasil, 1 Robertão, 2 Campeonatos Brasileiros)
Palmeiras (2 Taças Brasil, 2 Robertões, 4 Campeonatos Brasileiros)

6 conquistas:

São Paulo (6 Campeonatos Brasileiros)

5 conquistas:

Flamengo (5 Campeonatos Brasileiros – a CBF reconhece o Sport como campeão em 1987)

4 conquistas:

Corinthians (4 Campeonatos Brasileiros)
Vasco (4 Campeonatos Brasileiros)

3 conquistas:

Fluminense (1 Robertão e 2 Campeonatos Brasileiros)
Internacional (3 Campeonatos Brasileiros)

2 conquistas:

Grêmio (2 Campeonatos Brasileiros)
Botafogo (1 Taça Brasil e 1 Campeonato Brasileiro)
Bahia (1 Taça Brasil e 1 Campeonato Brasileiro)
Cruzeiro (1 Taça Brasil e 1 Campeonato Brasileiro)

1 conquista:

Guarani (1 Campeonato Brasileiro)
Atlético-PR (1 Campeonato Brasileiro)
Coritiba (1 Campeonato Brasileiro)
Atlético-MG (1 Campeonato Brasileiro)
Sport (1 Campeonato Brasileiro)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s