Por Cleber Aguiar – Entrevista com a melhor do mundo Marta.

Fonte: O Estado de São Paulo

”Ainda sonho com Mundial e Olimpíada”

MARTA, Eleita melhor do mundo nos últimos 4 anos, mas não satisfeita

Amanda Romanelli – O Estado de S.Paulo

Marta Vieira da Silva, 24 anos, a Rainha Marta, desfila sua arte nos campos do Pacaembu até domingo, na disputa do Torneio Cidade de São Paulo. Mas também tem compromisso importante em janeiro: pode ser coroada, pela 5.ª vez consecutiva, a melhor jogadora de futebol do planeta. Nesta entrevista, dada ao Estado minutos antes de assinar novo contrato com o Santos, a camisa 10 da seleção fala da carreira, da temporada no futebol americano (onde foi campeã) e do futuro. Deixa no ar a possibilidade de parar antes de 2016. Para ser mãe? Quem sabe?

Pode conquistar o título de melhor do mundo pela 5ª vez. Como é estar de novo na luta pelo prêmio?

Desta vez estou mais tranquila. Por ter passado por essa situação várias vezes, acho que acabei me acostumando. Mas, se me conheço bem, sei que quando começar a ficar mais perto, vou ficar nervosa como sempre. É sempre como se fosse a primeira vez. Sempre penso: “Quem não gostaria de estar no meu lugar?” Acho que é isso: Quando você conquista algo quer conquistar novamente.

O que você quer conquistar?

Tenho o sonho de conquistar um Mundial e uma Olimpíada com a seleção brasileira. Individualmente, já consegui vários êxitos. Foram muitos prêmios individuais que, no meu ponto de vista, não deixam de ser coletivos, por causa do esporte que eu pratico. Sempre acrescento minhas companheiras e as pessoas que trabalham comigo como peças principais.

Em 2011, o Brasil disputa outro Mundial e acabou de conquistar o título sul-americano. É bom sinal?

Sem dúvida. Nossa equipe tem muitas meninas novas, algumas peças mudaram, mas o nível é o mesmo. Temos agora o Torneio Cidade de São Paulo, outra oportunidade de trabalhar um pouco mais a equipe. No ano que vem também tem o Pan. São várias competições que a gente vai disputar para que justamente na Olimpíada a seleção possa chegar bem.

Que tipo de mudanças você percebe no futebol feminino?

Minha primeira participação na seleção foi em 2002 e acho que o esporte cresceu em todos os sentidos. A gente tinha jogadoras talentosíssimas na época em que comecei, mas a mentalidade era diferente. Hoje temos mais profissionalismo. E a mudança também veio do povo brasileiro, principalmente depois da prata na Olimpíada de Atenas (em 2004). As pessoas começaram a prestar mais atenção. Várias meninas pequenininhas querem jogar futebol. Virou algo natural.

Como é ter ajudado a derrubar um pouco do preconceito?

Quando comecei, não havia equipes de futebol feminino na minha cidade, então eu tinha que jogar com os meninos. Era rejeitada, ninguém aceitava, a cidade inteira falava, era meio chato. Minha família ouvia, mas não tinha como me controlar. Só com 14 anos, quando fui para o Rio, é que parei de jogar entre os homens. Acho que a minha trajetória, desde o começo até onde estou agora, é um exemplo para todo mundo.

Antes Dois Riachos não tinha time de mulher. Agora tem?

Agora tem! E não só um, mas vários! É de soçaite, mas já é uma grande coisa. Às vezes ela jogam em campos grandes, juntam todas em um time só contra times de outras cidades. E existem até campeonatos!

E você é madrinha dos times?

Ah, sou uma representante, né? Procuro ajudá-las, apesar de ser um pouco complicado. As meninas já têm certa idade, algumas se casaram, têm filhos, mas não deixaram de ver o futebol como algo positivo. Sempre que vou lá a gente se encontra, lembra dos velhos tempos. E é interessante… Quando eu jogava lá, elas só queriam saber de handebol, nada de futebol. Mas hoje o esporte mais praticado lá é o futebol.

Como foi se tornar embaixadora da ONU?

A nomeação é recente, mas já conversávamos havia três anos. Não ocorreu na época porque o futebol feminino não tinha muita visibilidade. Mas aí vem a história de vida e eles começaram a enxergar de forma diferente. Esse título é um dos mais importantes que eu já tive. A minha função é batalhar contra a pobreza e pelo direito das mulheres. São duas coisas que realmente vivi.

Você jogou nos EUA nos dois últimos anos e os dois times fecharam. Por quê?

Pois é… As meninas (da seleção) até brincam sobre isso. Meu primeiro clube, o Los Angeles Sol, perdendo o título na final e, no meu ponto de vista, o grupo que mantinha a equipe se precipitou, porque fechou a equipe. Aí fui para o Gold Pride e o time não conseguiu se manter por falta de patrocínio. Fizemos uma campanha excepcional, fomos campeãs e novamente eu fui a artilheira e melhor jogadora. Em relação ao meu trabalho, dentro de campo, a experiência nos EUA é 100% positiva.

Você jogará no Santos no começo de 2011. E sai para a Europa?

Tenho mais um ano de contrato com a Liga Americana Preciso achar outro time. Mas não descarto nenhuma possibilidade.

O que planeja para a carreira? E, após o fim dela, já pensa nisso?

Penso, apesar de saber que posso jogar mais uns anos. Quero jogar o Mundial, a Olimpíada e, quem sabe, 2016… Quem sabe? Mas já há algo que eu gostaria de fazer quando parar. Quero fazer escolinha de futebol em Dois Riachos, uma instituição. Por enquanto, está difícil. Faltam recursos e pessoas.

Por que não tem certeza de 2016? Você só vai ter 30 anos…

Ah, não sei, ué… (risos). Até lá, vamos ver… Espero jogar. Tem que estar bem fisicamente… Mas e daí? E se eu quiser ter um filho? Não sei, né…