Por Cleber Aguiar – O interior perde sua identidade !

Fonte: O Estado de São Paulo

Futebol do interior se afasta das raízes

Anelso Paixão

O Barueri de Presidente Prudente, o Campinas de Barueri, o Guaratinguetá de Americana.

O futebol do interior de São Paulo vai aos poucos perdendo a identidade com as cidades que tradicionalmente foram suas sedes. Em troca de melhores condições financeiras e de estrutura, os clubes vão mudando de nome e de casa, abandonando por completo as raízes. A maior vítima é a

torcida, privada do prazer de vibrar com seu time de coração.Já vai longe o tempo em que os clubes e as cidades do interior paulista eram quase extensão um do outro, casos como o XV de Piracicaba, o Botafogo de Ribeirão Preto, o Paulista de Jundiaí, a Inter de Limeira, o Rio Branco de Americana, o XV de Jaú, a Ferroviária de Araraquara e tantos outros. Quando se falava do time, se incorporava a ele o nome da cidade. E, ao se referir ao município, imediatamente se lembrava do clube.União perfeita que se vê cada vez mais ameaçada como advento dos clubes-empresa, estrutura organizacional em que os interesses financeiros andam sempre à frente dos laços afetivos e

que, em contrapartida, oferecem melhores condições de trabalho a técnico e jogadores de

futebol. Afinal – pensam os dirigentes –, o que adianta ser uma agremiação com quase cem anos,paixão de toda uma cidade, se esta mal consegue pagar as contas no final do mês?

A incompetência dos dirigentes, a falta de apoio das federações e a distância cada vez maior

dos clubes grandes para os pequenos foi fazendo com que vários times tradicionais perdessem

a força e, aos poucos, fossem desaparecendo Brasil afora.E deste inevitável caminho,nem mesmo o Estado mais rico da União consegue escapar. Além dos que já pegaram a estrada e mudaram de endereço, existem outros fortes candidatos, times jovens que não tem ligação com sua sede e outros que andam descontentes com sua gente.Nesta semana, por exemplo,foi anunciada a transferência do Guaratinguetá para Americana,decisão que provocou revoltados torcedores de Guará, que chegaram a queimar bandeiras e camisas do time. Preocupados,os dirigentes aumentaram o valor

da arquibancada deR$20 para R$ 50 nos jogos da equipe na Série B do Brasileiro. “Se eles (os torcedores) querem xingar, vão pagar para isso”, justificou o coordenador de futebol Ricardo

Navajas, ex-técnico de vôlei.Em Americana, o tradicional Rio Branco,com97 anos, teve de

se conformar. “Já é algo consumado,temos de aceitar que vamos ser o filho pobre de Americana.

Caímos para aA2 e vamos lutar para subir.Uma situação diferente dado Guará,que está na A1 e tem muito dinheiro”,disse Carlinhos Folha, diretor do clube.“Se já é difícil para uma cidade manter um time, imagine dois ou três”, lamenta o presidente da FPF, Marco Polo del Nero um dos maiores críticos da prática cada vez mais comum. “Hoje,um clube para ser criado paga taxa de R$ 600 mil e, para mudar de sede, R$ 800 mil. Fizemos isso justamente para acabar com esta prática, mas ainda assim não conseguimos. Infelizmente, a Lei Pelé permite isso,como tal clube-empresa”, critica o dirigente.Indignado com o quadro que vislumbra para o futuro, Del Nero admite até aumentar ainda

mais a taxa. “Vamos conversar com a CBF  colocar um valor para inviabilizar de vez.” Outro lado da moeda.O problema é que os clubes tradicionais  do interior paulista também lamentam

a atitude das federações e confederações,que distribuem muito dinheiro para os grandes,especialmente com cotas de TV, e quase nada para os pequenos. Reclamam também

da falta de apoio de suas cidades.Durante o Brasileiro da Série B, o presidente do Bragantino,

clube com 82 anos, protestou contra o pouco público e a ajuda quase nenhuma de Bragança

Paulista. Chegou a cogitar até a mandar jogos em outro local,como Barueri, que contava com

uma moderna arena e não tinha mais Time atividade no Nacional– o Grêmio Barueri mudo use

para Presidente Prudente. Nesta semana,o Votoraty tentou oficializar sua transferência

para Ribeirão Preto, que já conta com o Botafogo (A1) e Comercial (A2). A iniciativa, porém, foi barrada na FPF.O clube, que antes já havia tentado uma fusão com o Comercial, decidiu então

não disputar a Série A2 do Paulista, abrindo vaga justamente para esta equipe de Ribeirão Preto. Já

o Votoraty deve ser rebaixado para a última divisão paulista

Se perder sede. São Caetano também ameaça Ir Embora

Outro clube tradicional prestes a mudar de casa é o São Caetano, vice-campeão brasileiro de

2001, vice da Libertadores de 2002 e campeão paulista de 2004. O clube trava batalha judicial

com a Prefeitura de São Caetano do Sul, que pede a reintegração de posse de sua sede. O problema começou em junho,quando a Câmara aprovou  lei de municipalização dos clubes. A intenção era recuperar áreas cedidas em regime de comodato e transformá-las em centros culturais. O secretário de Esportes e Turismo, Mauro Roberto

Chekin, explicou que seria impossível abrir uma exceção. “Todos  os outros já foram devolvidos ao município. A AD São Caetano não havia concordado, apelou na Justiça e perdeu. Não vamos municipalizar 14 e deixar um fora.” A resposta do presidente Nairo Ferreira foi imediata. “Se a cidade quiser a sede social de volta, nós vamos para outro lugar. O futebol não vai acabar.”

Com pior média de público, G. Prudente deve ser rebaixado

Time trocou Barueri por Presidente Prudente no início do ano e ainda não conseguiu identificação com sua nova sede.

Perto de completar sua primeira temporada na casa nova, o Grêmio Prudente, ex-Grêmio Barueri,

corre sério risco de amargar o rebaixamento na SérieA do Campeonato Brasileiro além da pior média de público da competição. Para compensar, comemorou o bom desempenho no Campeonato Paulista, conquistando a 4ªcolocação na primeira fase e a vaga na semifinal, quando acabou eliminado pelo Santo André,que se tornaria vice-campeão. Apesar dos números pouco empolgantes na temporada, o proprietário do clube,Walter Jorquera Sanches, explica que não temo que lamentar. “Primeiro, é preciso deixar claro que não foi o time que escolheu mudar de casa, fomos obrigados a isso”, dispara. “O problema no futebol do interior é a maldita política e,convenhamos não é possível se fazer futebol no interior sem ela.” O dirigente explica que os times considerados pequenos são

sempre reféns da administração pública. “Com a bênção do prefeito,o clube costuma viver grande

fase, já que o poder público não pode colocar dinheiro, mas pode atrair investidores.”Apesar da situação delicada em Prudente,Sanches vê um horizonte diferente com a presença cada vez maior dos clubes-empresa. “Ainda que a gente tenha defica rmudando por causa da questão política,o fato é que esses clubes não estão falidos, ao contrário dos tradicionais. Veja o caso do Guarani, da Ponte Preta, do XVde Piracicaba. Eles têm história, mas estão cheios de dívida”.E compara. “Agora, veja como estão RedBull, Pão de Açúcar,Guará, Olé Brasil e nós mesmos.” Nem o praticamente inevitável

rebaixamento desanima o dirigente. “Acho que só um milagre nos salva, afinal, dificilmente faremos em 8 rodadas o que não fizemos em 30. Então, temos de planejar 2011. De 2000 para cá, colecionamos 8 acessos. Temos experiência nisso.”/ A.P

Clubes vivem entre o passado glorioso e a realidade tenebrosa

Sócrates, Raí, Careca, Leão, Luís Pereira, Chicão e muitos outros que se consagraram no futebol mundial vieram do interior

Em tempos nem tão distantes, o futebol do interior paulista era reconhecido como celeiro de grandes craques e responsável pelo surgimento de equipes que se tornaram inesquecíveis. Quem não se lembra do Guarani campeão brasileiro de 1978,com Renato,Careca e Zenon? Da Ponte

Preta vice-campeã paulista de 1977 e 79, com Vanderley Paiva, Marco Aurélio e Dicá no meio campo? Ou ainda a Internacional de Limeira,de Kita e Gilberto Costa, campeã paulista de 1986,

sobre o Palmeiras? Foi do interior que vieram nomes que se consagraram no futebol brasileiro e mundial, como os irmãos Sócrates e Raí,do Botafogo de Ribeirão Preto, Dudu e Bazzani ,da Ferroviária de Araraquara,Emerson Leão,do Comercial de Ribeirão Preto, Luís Pereira, do São Bento de Sorocaba, e Chicão, do XV de Piracicaba. Vencer esses time sem seus domínios era tarefa para poucos.Os grandes clubes dofutebol brasileiro sofriam no interior e protagonizavam duelos memoráveis. Pelé marcou muitos de seus 1.283 gols contra essas equipes,mas sempre destacou a dificuldade de encarar esses adversários. Com o enfraquecimento dos campeonatos regionais, muitos destes times se viram à beira da falência. Hoje sobrevivem como podem em competições que só foram criadas para preencher um buraco no calendário, como a Copa Paulista de futebol. Outros,

então, chegaram ao fundo do poço e tentam dar a volta por cima.É o caso da Inter de Limeira,

que atualmente disputa a última divisão do futebol paulista, mas está prestes a conseguir oacesso para a A3. / A.P.

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